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Dados públicos incentivam negócios

Informações climáticas e de GPS estimularam a economia com novos produtos e serviços

Departamento de Trabalho dos Estados Unidos
Todd Park, o atual diretor de tecnologia da administração Obama nos Estados Unidos,  tem vasta experiência com inovação
Por Philip Yam 

WASHINGTON, CAPITAL – Projetos financiados pelo governo produzem enorme riqueza de informações mas, historicamente, grande parte desses dados permanecia inacessível em um formato difícil de usar. Para levar esses dados a pessoas que podem iniciar negócios com eles, a administração Obama criou a posição de diretor de tecnologia, ou CTO [sigla em ingles para chief technology officer].

Todd Park, o atual CTO norte americano, tem vasta experiência com inovação. Em 1997, aos 24 anos, ele cofundou sua primeira empresa start-up, chamada Athenahealth, que fornece administração online de dados para médicos. Depois de se aposentar momentaneamente para se concentrar em sua família, ele organizou outras duas start-ups antes de entrar para a equipe da Casa Branca há quatro anos.

 Em uma reunião com a mídia em fevereiro, ele falou sobre levar dados do governo até empreendedores para iniciar inovações e crescimento tecnológico.

 [Segue uma transcrição editada.]

O senhor é um empreendedor que ajudou a lançar três start-ups bem sucedidas de tecnologia da saúde. Como o senhor acabou trabalhando para o governo dos Estados Unidos?

No verão de 2009 recebi um email do Departamento de Saúde e Serviços Humanos dos Estados Unidos (HHS) pedindo para que eu me tornasse diretor técnico. Minha primeira pergunta foi: Por que vocês estão falando comigo? Eu não entendo nada de governo. Mas, de acordo com eles, o interessante era minha formação como alguém que não era do governo, um empreender da tecnologia em saúde.

Em março de 2012 o senhor se tornou o diretor de tecnologia dos Estados Unidos. O que faz o CTO da nação?

Essa é uma posição que o presidente estabeleceu pela primeira vez em seu primeiro mandato. Eu sou o segundo CTO, após Aneesh Chopra.

O ponto principal do cargo é que eu comando uma incubadora dentro do governo. Não é o nascimento de empresas; é o nascimento de projetos com o denominador comum de liberar o poder da tecnologia para avançar os programas do presidente, sejam eles a criação de empregos, o crescimento econômico, melhores resultados na saúde, educação, segurança pública ou energia.

Como funciona a incubação?

Uma categoria de projetos é o programa Open Data Initiative [Iniciativa de Dados Abertos]. Esse conjunto de iniciativas pretende liberar dados dos cofres do governo para acelerar o empreendedorismo, a inovação e descobertas científicas.

Muitos dados foram tornados públicos, mas de maneira inutilizável, como livros ou PDFs ou websites estáticos. Ntão é noção é torná-los disponíveis como grandes arquivos baixáveis, como APIs (Interfaces de Programa Aplicativo), para que seja possível usar essas coisas para gerar valor. Isso foi inspirado pelo que o governo fez em eras anteriores, quando abriu dados climáticos há algumas décadas, tornando os dados disponíveis eletronicamente para qualquer um, de graça.

O que aconteceu depois que os dados climáticos dos Estados Unidos ficaram disponíveis gratuitamente?

Empreendedores coletaram os dados e os transformaram no Weather Channel, weather.com, aplicativos climáticos, segurança climática – e tudo isso fez a economia crescer, criou empregos e melhorou nossas vidas ao mesmo tempo.

O GPS é uma história semelhante. Começando nos anos 1980, o presidente Ronald Reagon iniciou o processo de abrir o sistema de GPS para uso civil e comercial, o que foi completado pelo presidente Bill Clinton. Esse acesso produziu uma incrível variedade de inovações por parte de empreendedores norte-americanos, que vão de sistemas de navegação a safras agrícolas de precisão a aplicativos baseados em locais específicos. Estima-se que, apenas no ano passado, o acesso civil e comercial ao GPS adicionou US$90 bilhões em valor anual à economia dos Estados Unidos. E o número continua crescendo.

Então essa é uma jogada que nos deixa muito empolgados, e o presidente também. Sem legislação, sem regulamentação, sem gastos adicionais do capital do contribuinte, estamos basicamente pegando dados – recursos de informação que os impostos já pagaram – e inserindo-os no domínio público como combustível para empreendedores pegarem e transformarem em coisas incríveis.

Quantos dados existem no governo?

O que eu acho realmente incrível é que o clima e o GPS são apenas a ponta do iceberg. A analogia que usamos é a última cena de Os Caçadores da Arca Perdida, onde há um depósito gigante cheio de caixas com tesouros. Essa é uma ótima metáfora para os depósitos de dados que são mantidos nos cofres do governo – dados pelos quais os contribuintes pagaram e que deveriam ser devolvidos a eles.

Estamos nos concentrando principalmente em seis setores: saúde, energia, educação, segurança pública, desenvolvimento global e finanças.

Como envolver inovadores e empreendedores no processo?

Nós realizamos alguns “Datapaloozas”, em que pessoas se reúnem para aprender mais sobre os dados que estão disponíveis e para exibir o que empreendores fizeram com eles.

Apenas para mostrar como isso pode ser rápido, essa iniciativa começou quando eu estava no HHS, trabalhando com algo chamado de Healthy Initiative, em 2010. Nós iniciamos as coisas convidando 45 empreendedores muito céticos para uma sala e dizendo “Aqui está um monte de dados. O que vocês acham?”. 90 dias depois, mais de 20 inovações foram apresentadas. Isso não apenas inspirou empreendedores a produzirem inovações próprias, mas também inspiraram pessoas que têm dados dentro do governo a perceber o valor de disponibilizá-los.

Dois anos depois, em junho de 2012, tivemos um Health Datapalooza que atraiu 1600 empreendedores – e várias centenas de empreendedores que ficaram irritados porque não conseguiram entrar.

Quais são alguns dos produtos que foram exibidos no Health Datapalooza?

Mais de 230 empresas passaram por um concurso no estilo do American Idol pelo direito de se apresentar. A maioria dessas empresas havia sido fundada nos últimos 18 ou 24 meses, todas usando dados abertos para realizar algo realmente impressionante na saúde.

Um exemplo é Pete Hudson, que iniciou uma empresa chamada de iTriage. O aplicativo móvel coletou vários dados sobre a localização de médicos, como um GPS para empresas de saúde. Como usuário, você pode digitar seus sintomas e, com base no GPS e nos dados que você inseriu, o aplicativo lhe informa os melhores prestadores de cuidados que podem ajudar. Ele já foi baixado nove milhões de vezes, e literalmente salvou vidas.

O senhor acompanha como os dados são usados?

Não. Os dados são completamente livres. Não há condições, não há acordos para assinar, nem processo de registro – você simplesmente pega e faz coisas incríveis.

Um exemplo é o Google. Eu lembro que Bryan Sivak, meu sucessor como CTO do HHS, me chamou um dia e falou “Vá até o Google e digite ‘aspirina’. Isso vai te deixar muito feliz”. Eu fiz isso e – BUM! – do lado direito da tela, perto dos resultados da pesquisa, aparecem vários dados científicos do governo sobre a aspirina. O Google faz isso para todos os medicamentos, alavancando nossas APIs médicas nacionais.

O melhor de tudo é que eu não tinha ideia de que eles estavam fazendo isso. Todos os grandes ecossistemas de inovação são caóticos, automotores e fora de controle. E eu acho que estamos chegando ao ponto em que ecossistemas de dados abertos estão em um ótimo momento. 

O senhor começou outro programa, chamado de Presidental Innovation Fellows. O que é isso?

Ele nos permite trazer pessoas incríveis de fora [do governo] para complementar as equipes internas. Elas operam como start-ups: equipes pequenas e ágeis que inventam um produto minimamente viável e em seguida se engajam com o consumidor assim que possível.

Quais são algumas das inovações que surgiram desse programa?

Um deles se chamava Blue Button for America, que tem o objetivo de permitir que norte-americanos baixem com segurança suas próprias informações de saúde onde quer que estejam.

Também existe um projeto chamado de MyUSA, que lida com o fato de termos 24 mil websites no governo dos Estados Unidos – nossa presença na web é organizada da maneira que o governo é organizado, ou seja, é tudo incompreensível. Então o MyUSA construiu um protótipo de plataforma que lhe permite acessar e usar os serviços e informações.

No geral, como o senhor descreveria a liberação de dados?

Ela é uma instanciação de uma de nossas leis universais favoritas, chamada de “Lei de Joy”. Batizada em homenagem a Bill Joy, cofundador da Sun Microsystems, que declarou “Não importa quem você seja, a maioria das pessoas mais inteligentes do mundo trabalha para os outros”.

Toda a ideia por trás dos dados abertos é dizer: olhe, nós não sabemos nada sobre os dados. Nós não temos dinheiro ou experiência para fazer coisa alguma, então por que simplesmente não abrí-los a pessoas que já pagaram por eles, e assim elas podem inventar todo tipo de coisas.