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Data comemorativa celebra conquistas de mulheres nas ciências, e brasileiras dão depoimento

Três mulheres falam sobre preconceitos, dúvidas vocacionais e a diferença entre mulheres ‘esforçadas’ e homens ‘brilhantes’

Twitter/@viniciusgnu
3ª Marcha Pela Ciência em São Paulo no último domingo, dia 8 de outubro.
Toda segunda terça-feira de outubro comemora-se internacionalmente o dia de Ada Lovelace, uma data que celebra as conquistas das mulheres em ciência, tecnologia, engenharia e matemática. O nome é uma menção à americana Ada Lovelace, cujo trabalho pioneiro contribuiria para o desenvolvimento da computação. Ela nasceu em 1815, e foi a primeira pessoa a criar um programa de computador. Trabalhando com Charles Babbage e seu máquina diferencial, concebeu o primeiro algoritmo, que permitia à máquina computar e processar os valores de funções matemáticas.

E como é o cotidiano das mulheres que se interessam por ciência e matemática no Brasil de hoje? Quais os preconceitos e desafios que ainda enfrentam? Comemorando o Ada Lovelace Day deste ano, Scientific American Brasil conversou com três delas e procurou conhecer, com um pouco mais de detalhe, os desafios que enfrentam nas respectivas etapas de vida.

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Mariana Bigolin Groff tem 16 anos e já participou de olimpíadas de matemática, física, química, astronomia, geografia e linguística. Entre suas principais conquistas, estão um 1º lugar na Olimpíada Brasileira de Matemática), uma medalha de prata na Olímpiada de Matemática da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (OMCPLP), uma medalha de bronze na Olimpíada Europeia de Matemática para Meninas (EGMO) e a medalha de bronze na Olímpiada de Matemática dos países do Cone Sul. Vivian Dornelas Nunes tem 31 anos, é de Recife e está fazendo seu doutorando no Rio de Janeiro em Física Estatística. Estuda o uso de sistemas complexos para descrever o comportamento de sistemas biológicos e de populações. Marcia Cristina Barbosa é professora e diretora do Instituto de Física da UFRGS, membro da diretoria da Academia Brasileira de Ciências e militante na causa de gênero na ciência e na pesquisa.

Quando surgiu o interesse pela ciência na vida de vocês?

Mariana - Meu interesse pela ciência começou a despertar quando minha mãe me apresentou a série americana Cosmos, narrada por Carl Sagan. Os treze episódios que compunham o seriado me fizeram pensar sobre algumas questões de ciência, e me mostraram como essa área pode ser muito interessante e intrigante. Isso aconteceu quando eu tinha 10 anos. Então, desde minha infância tive um olhar diferenciado pelas ciências.

Vivian - Desde a minha infância, sempre soube que seria da área de exatas. Sempre gostei muito de matemática, física, química.

Marcia - O meu pai era eletricista e me convidava para ajudá-lo a consertar coisas em casa. No colégio, tinha sido convidada para ajudar no laboratório, preparando as aulas experimentais.

Tiveram estímulo por parte da família e da escola?

Mariana - Acho que desde que comecei a participar de olimpíadas, tive o apoio de todas as pessoas a minha volta. Minha família sempre me apoiou em qualquer coisa que eu decidisse me dedicar. Acredito que tive sorte, pois nem sempre as meninas são incentivadas a seguir a área de exatas. Ainda não sei bem o que eu quero seguir, mas creio que será nessa área mesmo.

Vivian - Eu não tinha muito acesso à informação de como seria o curso nessa área, nessas disciplinas. Quando se falava de fazer Matemática ou Física, não havia muita aceitação por parte da família, dos meus pais, porque falavam que eu seria professora, carreira que eles não achavam muito bem vista nem valorizada.

Sempre estudei em colégio público e o ensino é muito precário. Os professores, em geral, fazem o básico, então não recebia muito apoio na escola. Foi mais durante o terceiro ano do ensino médio, quando fiz curso pré-vestibular social em Recife, que recebi incentivo. Um dos cursos que fiz era voltado a exatas. Tive aula de física, matemática, química e biologia com os próprios estudantes da UFPE e a maioria deles era da área científica. Também foi lá que vi pela primeira vez um número maior de homens do que de mulheres na área.

Marcia - Tive muito estímulo dos meus pais e dos professores. Na minha casa, sempre foi muito importante que a gente estudasse, porém não tanto ciência. Meu pai queria que eu fosse engenheira e minha mãe, médica. Quando eu disse que faria Física, eles ficaram um pouco chateados, mas mais por falta de conhecimento do que é a área e de como eu garantiria meu futuro na profissão.

Como você chegou às Olimpíadas, Mariana?

Mariana - Minha primeira participação em olimpíadas foi quando eu estava no 7º ano e participei da Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas (OBMEP). Como todos os alunos da minha escola tinham que fazer, eu também fiz a prova da primeira fase da olimpíada. Ao passar, a partir do interesse já despertado pelas ciências, eu e minha amiga estudamos para a fase seguinte e eu fui laureada com medalha de ouro na competição.

Dentro da universidade, há essa noção de que existem muito mais homens do que mulheres na ciência, sejam alunos ou professores. Como foi a experiência de vocês?

Vivian - Tanto na Espanha quanto aqui no Brasil havia mais homens que mulheres, mas lá essa diferença era menor. Quanto aos professores, a proporção entre homens e mulheres era parecida quando estudei no exterior. Na UFF, era bastante discrepante: eu tinha pouquíssimas professoras. Olhando o quadro de professores da PUC-Rio, apenas 1/6 é de mulheres. Na minha sala de pesquisa, por exemplo, cabem 10 pessoas - eu sou a única mulher.

Marcia - Até o ensino médio, a sala de aula era metade meninas e metade meninos. Em casa, eu e meu irmão sempre fomos tratados igual. Foi engraçado quando entrei na universidade e quase não havia mulheres na minha turma. De 40 alunos, apenas quatro eram mulheres - foi um impacto para mim. E essas mulheres foram desistindo ao longo do curso, só sobrando eu. As professoras também estavam em número muito menor, os cargos de liderança também eram ocupados quase sempre por homens. Isso foi me dando uma espécie de solidão de gênero, sabe? Eu me questionava um pouco sobre a razão de estar lá, às vezes me sentia até uma impostora.

Quanto mais eu avançava no curso, mais sentia essa solidão e via com mais clareza a pouca voz que as mulheres tinham nesses espaços. Foi quando me tornei diretora do Diretório Acadêmico e comecei a participar de todas as comissões de estudantes para mostrar a presença feminina na Física.

E vocês acham que foram tratadas, ou ainda são, de forma diferente?

Vivian - Particularmente, talvez por ser distraída, nunca ouvi nenhum comentário sexista direcionado a mim, tanto na sala de aula quanto fazendo pesquisa. Mas já vi muito relatos, principalmente em página da internet direcionadas a isso. Em uma chamada “Meninas na Ciência”, já li relatos sobre preconceitos de gênero vindo não só de homens, mas de mulheres também. Uma frase que me chocou bastante foi: “homens têm mais facilidade com matemática, assim como nós, mulheres, temos para usar a máquina de lavar roupa.”

Marcia - Naquela época, todo estudante era tratado muito pior do que hoje. Havia muita hierarquia e tínhamos muito menos espaço para falar e expressar nossas opiniões. Porém, eu era tida com a aluna esforçada, enquanto meus colegas eram chamados de “brilhantes” pelos meus professores. E esse discurso se propagava até mesmo para os professores. Essa distinção de tratamento sempre me incomodou muito, mas segui em frente para mostrar que também há talento entre as mulheres e que também podemos chegar a posições de liderança.

Sempre fui muito questionadora, comportamento que era - e ainda hoje é - incomum entre mulheres, pois somos ensinadas a ser quietas e boazinhas. Por conta disso, nunca fui ignorada, mas vi muitas colegas recebendo tratamento ríspido de professores. Na Física, esse comportamento é tido como parte do sistema, então é comum que sejam eles mais duros. Sofri menos com isso por ter resposta para tudo. Hoje luto para que as mulheres não tenham que passar por isso, pois é algo que as afasta da ciência.

Mariana, e sua experiência no ambiente das Olimpíadas?

Mariana - Acho que não vivenciei nenhum tipo de preconceito nesse meio. Costuma existir bastante respeito mútuo nesses ambientes. Mas, por ser menina, já me questionei várias vezes se deveria continuar nas exatas e se tenho vocação para isso. Se não me engano, apenas cerca de 10% dos alunos premiados em olimpíadas das áreas de exatas são meninas.

Vivian, você tem 31 anos e é casada. Tem filhos ou pensa em tê-los?

Vivian - Meu marido também é doutorando e, no momento, optamos por não ter filhos. Isso talvez me afastasse do meu objetivo atual. Não só do ponto de vista acadêmico, mas também do financeiro, já que não temos estabilidade sendo bolsistas.

Marcia, você disse que luta para que a ciência seja um ambiente melhor para as mulheres. Como surgiu essa preocupação?

Marcia - Na minha área, as mulheres na graduação são em torno de 20%. Como bolsistas de produtividade em pesquisa, 12%. No topo da carreira, 5%. Quanto mais alto o cargo, menor o número de mulheres - e isso tem implicações.

Eu fui a primeira coordenadora do Comitê Assessor de Física e Astronomia do CNPq, responsável por decidir o destino da verba nessa área. De 20 pessoas, eu era a única mulher. Nós analisávamos currículos e era complicado: tinha, por exemplo, uma pesquisadora que não havia produzido muito durante os dois últimos anos; mas eu conhecia aquela pessoa e sabia que ela tinha tido um filho nessa época. É difícil trazer isso para julgamento, ainda mais estando em minoria.

Também já houve ocasiões em que cheguei em uma sala de reuniões onde eu era a única mulher e me pediram para trazer café, pois imaginaram que eu fosse qualquer coisa, menos cientista.

E o que você tem feito nesse sentido?

Marcia - Alguns anos atrás, comecei a militar para ter esses indicadores, pois eles não existiam. Nos anos 2000, articulei um grande evento com 75 países na Unesco em Paris para discutir sobre as mulheres na Física. Montamos grupos de trabalho em todo o mundo, de onde saíram ações incríveis - mas também me fizeram dar conta de que a falta de mulheres na Física era universal. Fiz muito levantamento de dados para mostrar que, sim, existe um problema e ele precisa ser tratado.

Esse evento teve muita repercussão internacional. A Sociedade Americana de Física, na época, reconheceu meu esforço me dando a Medalha Nicholson, dada para pessoas que realizam serviços humanitários. Hoje, sou convidada para falar sobre gênero tanto quanto me chamam para falar sobre água, pois tenho números, dados e vou abrindo essa caixa de pandora.

Uma coisa da qual me orgulho bastante foi ter ajudado a conseguir a licença maternidade para as bolsistas de produtividade de pesquisa. Hoje, quando engravidam e têm um filho, essas mulheres têm o direito a um ano a mais de bolsa. Isso foi muito relevante, porque a nossa área tem dificuldade em ver a família também como uma produção - e uma produção muito importante.

Marília Fuller
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