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De onde vem a identidade?

Estudos indicam que escolhas nos tornam quem somos e que passear faz bem

iStock/Crisma
Experimentos com ratos mostraram que os que “passeavam” mais tiveram a maior proliferação de neurônios durante a vida adulta. 
De onde vem a identidade?

Um fascinante novo experimento neurocientífico investiga uma antiga questão filosófica – e sugere que você saia mais de casa

Por Jason Castro

 

Imagine voltar a fita de sua vida. Seus diplomas são retirados das paredes, extraídos das molduras e devolvidos. Seus filhos ficam menores e depois desaparecem. Logo, você também fica menor. Seus dentes permamentes recuam, seus dentes de leite retornam, e seus traços e fraquezas começam a desaparecer. Quando a linguagem se vai, você não é mais que um “você em potencial”. Se continuarmos recuando ainda mais, até estarmos dividindo uma colônia de células, chegaremos a uma incrível singularidade: a célula que se tornará você.

A questão, é claro, é o que acontece quando apertamos “play” de novo. Seus talentos, traços e inseguranças ficam tão profundamente arraigados em seus genes que são basicamente inevitáveis? Ou as coisas poderiam ser bem diferentes com apenas algumas mudanças mínimas? Em outras palavras, quanto de seu destino se deve a seus genes, aos seus arredores, ao acaso? Essas são perguntas importantes.

Na falta de um “rebobinador temporal”, o experimento básico é fazer o que Julia Freund e seus colegas fizeram recentemente em um estudo simples, mas novável. Esses pesquisadores colocaram indivíduos geneticamente idênticos (ratos, nesse caso) em um ambiente comum, e perguntaram se diferenças comportamentais sistemáticas ainda podiam se desenvolver entre eles. Uma resposta “sim” significaria que existem fontes de variabilidade comportamental – “individualidade”, se você preferir – que não surgem a partir da combinação de genes e ambiente comum.

Em seu experimento, Freund e seus colegas abrigaram 40 ratos geneticamente idênticos em um ambiente chamado de “enriquecido”, e monitoraram seu comportamento durante um período de três meses (cerca de 10 a 15% de seu tempo de vida) no início de sua vida. O ambiente enriquecido era muito generoso para os padrões de acomodações de ratos, com uma área de aproximadamente 3,5 metros quadrados e uma estrutura com vários níveis de plataformas, caixas de nidificação, e tubos interconectores. Nessas condições, ratos podem exibir um conjunto mais natural de comportamentos exploratórios que em uma gaiola tradicional.       

O que tornou esse estudo diferente de um estudo com gêmeos humanos, por exemplo, é que os movimentos dos indivíduos puderam ser rastreados com detalhes extraordinários durante uma porção significativa de seu tempo de vida. Cada um dos ratos do estudo foi marcado com um transponder de identificação por radiofrequência  (RFID), que teve sua localização monitorada por uma de vinte antenas discretamente posicionadas entre garrafas d’água, tubos, e caixas de nidificação. Cada movimento, perseguição, e período de sedentarismo foi registrado e anotado.

Para estudar diferenças potenciais de comportamento entre os ratos, os cientistas usaram uma medida chamada de “entropia de movimentação” [NT: no original roaming entropy]. Basicamente, isso captura a frequência com que você sai de casa, e também a variabilidade. Se você é alguém que só vai do trabalho para casa, sua entropia de movimentação é baixa. Se você é o tipo de pessoa que pode estar praticamente em qualquer lugar a qualquer momento, sua entropia de movimentação é alta.

Inicialmente, os ratos eram bastante uniformes em sua entropia de movimentação. Conforme as semanas progrediam, porém, a população começou a divergir, com alguns ratos sendo evidentemente mais exploratórios que outros. Se tomarmos a tendência à exploração como sendo um traço bruto, então esse é um traço que se desenvolve com o tempo, de uma maneira que não é estritamente determinada por genes ou recursos disponíveis.

Mas a parte mais interessante do estudo veio quando os pesquisadores examinaram as mudanças cerebrais paralelas às mudanças no comportamento exploratório. Antes do final do experimento, os ratos receberam um composto que é seletivamente incorporado a células em divisão, e assim marca neurônios nascidos na vida adulta. Enquanto a maioria dos neurônios é produzida durante o desenvolvimento, existem algumas áreas cerebrais bem estudadas em que novos neurônios são continuamente produzidos, mesmo na vida adulta.

De maneira impressionante, os ratos que “passeavam” no final do estudo, também foram os que tiveram a maior proliferação de neurônios produzidos na vida adulta. Como diz o ditado: “correlação não implica causa”, mas o resultado ainda é intrigante.

Mesmo após os dados genéticos terem sido lançados no momento da concepção, e após as bases da estrutura neural serem determinadas no início da vida, o cérebro conserva uma gota de seu potencial bruto por meio de sua capacidade de produzir um número limitado de neurônios novos. Os autores conjecturam que esses neurônios estejam envolvidos na regulação de nossos comportamentos, aplicando correções contexto-específicas e ajustes aos aspectos mais intrínsecos de nosso comportamento. Nas palavras deles, a maneira como vivemos nossas vidas pode nos tornar quem somos. 

Como, exatamente, isso acontece? Os autores admitem que não sabem. Isso não é para desmerecê-los, mas simplesmente para reconhecer que qualquer experimento que aborde algo tão profundo, polêmico, e metafisicamente emaranhado como a questão natureza-criação, produzirá mais perguntas que respostas.

Pode ser, por exemplo, que mudanças epigenéticas, em que a experiência modifica padrões de expressão genética, façam surgir trajetórias diferentes de vida. Ou talvez o resultado seja mesmo o determinismo “linha dura” disfarçado. Apesar de serem praticamente idênticos geneticamente, ainda restam minúsculas diferenças genômicas entre ratos consanguíneos. Talvez elas sejam suficientes para fazer surgir diferenças de traços que se desenvolvem no decorrer do tempo.

Outra pergunta, é claro, é sobre o quanto deveríamos ficar surpresos com as diferenças na entropia de observação que foram observadas. Elas são comparáveis ao que seria visto entre indivíduos da mesma espécie com menos parentesco genético? Em outras palavras, estamos falando sobre a diferença entre personalidades do tipo A e do tipo B, ou apenas sobre tons sutis de A?

Independentemente dessas especificidades, esse experimento é um possível lembrete de que nossas vidas são um trabalho em andamento. Se de fato estamos vivendo um tipo de fita, então ela parece ser uma em que as faixas podem ser modificadas enquanto são lidas, mesmo se forem bem profundas. Como seu cérebro é modificado pelas escolhas que você faz, existe espaço para acaso e ruído – espaço para que você seja único.