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Declínio de peixes predadores é vertiginoso e ameaçador

Análise inédita mostra que o brutal decréscimo de 60% foi acelerado a partir da década de 70

 

Hermanus Backpackers via Wikimedia Commons
Acredita-se que 24% das espécies de tubarões e raias estejam ameaçadas de extinção.

 
Por David Shiffman

A remoção de predadores do topo da pirâmide tem sido chamada “a influência mais pervasiva da humanidade na natureza”, e ela é tão prejudicial no mar como em terra.

O fato de consumidores preferirem peixes como garoupas, atuns, peixes-espadas e tubarões a espécies situadas mais abaixo na cadeia alimentar, como anchovas e sardinhas, é um forte incentivo para pescadores pegarem os espécimes maiores.

Ir atrás dos predadores mais valiosos primeiro, dizimando-os até que não reste um número suficiente para sustentar suas populações e depois passar para espécies menos nobres, um padrão observado às vezes na indústria pesqueira global, tem sido chamado “pescar teia alimentar abaixo”, ou “pescar descendo a teia alimentar”.

Uma nova pesquisa (pdf, em inglês), realizada pela equipe que criou a expressão, procurou determinar a gravidade do declínio global de populações de peixes predadores desde o início da pesca industrial.

Para isso, cientistas analisaram mais de 200 modelos publicados de teias alimentares (cadeias alimentares que interagem) de todas as partes do mundo e que incluíram mais de 3.000 espécies oceânicas.

Seus resultados mostram que, no século 20, humanos reduziram em mais de 60% a biomassa de peixes predadores e que a maior parte desse declínio alarmante ocorreu desde a década de 70.

É notório que muitas espécies predadoras estão em apuros.

De acordo com a “Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas” da União Internacional para Conservação da Natureza, 12% das espécies de garoupas, 11% das de atuns e dos chamados peixes-de-bico [pertencentes às famílias Istiphoridae e Xiphiidae], e 24% das de tubarões e raias estão ameaçadas de extinção.

Essas vertiginosas quedas populacionais têm implicações que vão muito além de um suprimento sustentável de peixes que consumidores apreciam.

Predadores mantêm o equilíbrio de “populações-presas”, e a perda deles pode gerar cascatas tróficas (nutricionais) através de teias alimentares, afetando ecossistemas oceânicos inteiros. Florestas de kelp [uma espécie de alga], por exemplo, habitats de muitas espécies únicas e economicamente importantes, foram destruídas por uma população crescente de ouriços-do-mar herbívoros, resultante da diminuição de lontras-marinhas, que se alimentam deles.

“Predadores são importantes para a manutenção de ecossistemas saudáveis”, enfatiza o professor Villy Christensen, autor principal do novo artigo de pesquisa. “Além disso, onde observamos colapsos [das populações] de peixes maiores, levou décadas para elas se recuperarem”.

Nos Estados Unidos essa realidade sombria começou a melhorar graças à gestão científica dos estoques pesqueiros.

Desde o ano 2000, 34 populações de peixes foram declaradas recuperadas, ou reconstruídas, e mais de 90% dos estoques pesqueiros americanos não são considerados sobrepescados.

Em termos globais, porém, a Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO) considera quase 30% dos estoques de peixes excessivamente explorados.

“O principal problema realmente está nos países em desenvolvimento, onde precisamos de instituições mais eficientes para gerenciar as populações de peixes”, observa Christensen. “Precisamos conseguir introduzir gestões eficientes em todos os países, ou haverá consequências terríveis”.

O novo estudo acrescenta informações importantes ao debate global sobre quantos peixes deveríamos retirar dos oceanos. Isso mostra que temos superexplorado muitas espécies predadoras econômica e ecologicamente importantes.

Entidades internacionais equivalentes ao Serviço Nacional de Recursos Pesqueiros dos Estados Unidos (NMFS, em inglês), assim como organizações administrativas de recursos pesqueiros regionais, como a Comissão Internacional para a Conservação dos Tunídeos do Atlântico (ICCAT, em inglês), precisam se esforçar mais e fazer mais.

Para muitas espécies, as quotas de pesca devem ser reduzidas e as que já existem têm de ser impostas e controladas para garantir que tenhamos, não só populações saudáveis desses peixes, mas também oceanos saudáveis, no futuro.

 

 Scientific American 20 de outubro de 2014