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Defender direitos de todos é essencial para sociedade sadia

A lei do silêncio mantém a ignorância pluralística, impõe comportamentos indesejáveis e ameaça direitos 

Imagem de divulgação
Lance Armstrong, heptacampeão do Tour de France, perdeu todos os títulos ao ser investigado pela Agência Anti-Doping dos Estados Unidos. O código de silêncio que leva um indivíduo a acreditar que todos pensam que  doping é a norma – reforçado pelo temor de punição por confessar ou não tomar parte - deu suporte ao sofisticado esquema de doping.

 

 

 

 
Por Michael Shermer, o cético

No livro The Secret Race, publicado em 2012 por Tyler Hamilton(e escrito com Daniel Coyle), o ciclista expõe o programa mais sofisticado de doping na história dos esportes, orquestrado por Lance Armstrong, o heptacampeão do Tour de France que perdeu todos os títulos após uma profunda investigação conduzida pela Agência Anti-Doping dos Estados Unidos. Hamilton mostra como um sistema tão elaborado foi mantido por meio da “regra de omertà” – o código de silêncio que leva um indivíduo a acreditar que todos acreditam que o doping é a norma – e reforçado pela ameaça de punição por confessar ou não tomar parte.

O princípio psicológico ativo aqui é a “ignorância pluralística”, em que membros individuais de um grupo não acreditam em algo, mas erroneamente acreditam que todos os outros membros do grupo acreditam naquilo.

Quando ninguém fala nada, isso produz uma “espiral de silêncio” que pode levar a tudo, desde bebedeiras e sexo casual até caças a bruxas e ideologias mortais.

Um estudo de 1998, feito por Christine M. Schroeder e Deborah A. Prentice, por exemplo, descobriu que “a maioria dos alunos acredita que seus colegas se sentem uniformemente mais confortáveis em relação a práticas alcoólicas no campus do que eles próprios”.

Outro estudo de 1993, conduzido por Prentice e Dale T. Miller, encontrou uma diferença de gênero em atitudes voltadas a bebidas em que “estudantes do sexo masculino mudaram suas atitudes no decorrer do tempo em direção ao que erroneamente acreditavam ser a norma, enquanto estudantes do sexo feminino não mostraram esse tipo de mudança de atitude”.

Mulheres, porém, não estavam imunes à ignorância pluralística em termos de sexo casual, como mostrou um estudo de 2003 realizado por Tracy A. Lambert e seus colegas, que descobriu que “tanto mulheres quanto homens avaliaram que seus colegas se sentiam mais confortáveis com essas atividades do que eles próprios”. 

Quando se adiciona um elemento de punição para os que desafiam a norma, a ignorância pluralística pode se metamorfosear em expurgos, massacres, e regimes políticos repressivos.

Caças às bruxas europeias, como suas contrapartes soviéticas séculos depois, degeneraram em acusações preventivas de culpa, para evitar que o acusador fosse acusado primeiro.

Aleksandr Solzhenitsyn descreveu uma conferência de partidoem que Joseph Stalinrecebeu uma ovação de pé que durou 11 minutos, até que um diretor de fábrica finalmente se sentou, para alívio de todos. O homem foi preso naquela mesma noite e enviado ao gulag por uma década.

Um estudo de 2009, feito por Michael Macy e seus colegas, confirmou o efeito: “Pessoas apoiam normas impopulares para mostrarem que concordaram com elas por convicção própria, e não por pressão social”.

A intolerância é fortalecida pelos efeitos da ignorância pluralística, como evidenciado em um estudo de 1975 feito por Hubert J. O’ Gorman, que indicou que “em 1968, a maior parte dos adultos americanos brancos exagerava muito seu apoio à segregação racial quando entre outros brancos”, especialmente entre os que conduziam vidas segregadas, o que reforça a espiral de silêncio. 

Felizmente, há uma maneira de quebrar essa espiral de ignorância: conhecimento e comunicação.

A confissão de Tyler levou à admissão de doping por parte de outros, quebrando assim o código de silêncio e promovendo a transparência ajudou a coibir a prática no esporte.

No estudo de Schroeder e Prentice sobre alcoolismo na faculdade, eles descobriram que expor calouros a discussões dirigidas por colegas, que incluíam uma explicação da ignorância pluralística e seus efeitos, reduziu significativamente a subsequente ingestão de álcool dos estudantes.

Além disso, Macy e seus colegas descobriram que quando havia céticos espalhados entre crédulos verdadeiros na simulação computadorizada de uma sociedade em que havia amplas oportunidades de interação e comunicação, a conexão social agia como preventivo contra o domínio de normas impopulares.

É por isso que regimes totalitários e teocráticos restringem a liberdade de expressão, a imprensa, o comércio e as viagens, e é por isso que o caminho para cortar as amarras desses governos e ideologias tão repressivos é a disseminação da democracia liberal e a abertura de fronteiras.

É por isso que mesmo nos Estados Unidos – a terra dos homens livres – devemos defender abertamente os direitos de gays e ateus para que eles sejam tratados igualmente perante a lei, e é por isso que “sair do armário” ajuda a quebrar a espiral de silêncio.

Conhecimento e comunicação, especialmente quando gerados por ciência e tecnologia, oferecem nossa última melhor esperança para o mundo.