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Dentes revelam hábitos de amamentação de Neandertais

Bebê neandertal se alimentou exclusivamente de leite materno por mais de sete meses

Ian Harrowell, Christine Austin e Manish Arora
LEGENDA: Ao medir as quantidades relativas de bário e cálcio nas linhas de crescimento de um dente, cientistas mostraram que um neandertal recém-nascido provavelmente iniciou uma dieta sólida relativamente cedo. 
Por Sid Perkins e revista Nature

 As taxas mutáveis de cálcio e bário nos dentes de humanos modernos e macacos contam a história da transição do leite materno para alimentos sólidos – e um novo estudo sugere que podem fornecer pistas sobre os hábitos de amamentação dos neandertais,.

O mineral predominante no esmalte dentário de primatas é a hidroxiapatita, uma forma de fosfato de cálcio. Mas elementos vestigiais presentes na corrente sanguínea que são quimicamente semelhantes ao cálcio, como estrôncio e bário, podem ser incorporados ao esmalte enquanto ele calcifica, explica Manish Arora, químico ambiental da Icahn School of Medicine at Mount Sinai, em Nova York. Os dentes começam a se formar nas gengivas antes do nascimento, e eles registram linhas diárias de crescimento durante seu desenvolvimento, então são boas fontes de dados sobre a dieta e a exposição química – mesmo em recém-nascidos.

 Pesquisas anteriores mostraram que variações na proporção estrôncio-para-cálcio preservadas em dentes fornecem ideias sobre a dieta dos recém-nascidos, incluindo a idade em que as crianças pararam de ser amamentadas.

No novo estudo, Arora e seus colegas observaram as proporções bário-para-cálcio nos dentes de macacos e humanos com dietas e hábitos de amamentação conhecidos, incluindo ‘dentes de leite’ deixados por crianças que tinham sido parte de um estudo médico mais vasto.

De acordo com Arora, os resultados mostraram que quase nenhum bário foi transferido para humanos ou macacos antes do nascimento. Mas a proporção de bário registrada no esmalte dentário aumentou imediatamente após o nascimento, porque o leite materno contém altos níveis do elemento. As proporções variaram quando as mães começaram a suplementar a dieta dos recém-nascidos com outros alimentos, e depois caíram para níveis mais baixos quando a amamentação parou, relatam os pesquisadores na Nature

Demografia dentária

Mas os dados mais intrigantes do estudo podem ser aqueles coletados dos dentes de um neandertal recém-nascido. Os resultados sugerem que o bebê foi exclusivamente amamentado durante pouco mais de sete meses, e então o leite materno foi suplementado com outros alimentos por mais sete meses. Depois disso, os níveis de bário caíram rapidamente, sugerindo o fim súbito da amamentação.

Arora aponta que 14 meses é relativamente pouco para o fim da amamentação: humanos em sociedades não-industriais param de amamentar em uma idade média de aproximadamente 2,5 anos.

Os resultados da equipe foram baseados em uma única amostra de dentes neandertais, o que torna difícil chegar a conclusões gerais. Talvez fosse comum para neandertais parar de amamentar seus jovens mais rapidamente que humanos, o que sugere que eles podem ter tido filhos a intervalos mais curtos, declara Louise Humphrey, antropóloga do Museu de História Natural em Londres. Mas ela observa que também é possível que o fim abrupto da amamentação indique que a mãe da criança ficou doente ou morreu.

Os dois cenários têm implicações profundas para a estrutura social dos neandertais, explica Humphrey. Uma mãe com muitos filhos provavelmente precisaria de ajuda para cuidar de todos – sugerindo que famílias neandertais e membros do grupo ajudavam uns aos outros. E se amamentação parava devido à mãe estar doente ou ausente, indivíduos como irmãos ou outros parentes adultos podem ter participado da criação do órfão, já que um estudo anterior sugeriu que a criança viveu até os oito anos. “De qualquer forma, nós temos que aceitar que havia outros adultos cuidando desse indivíduo”, conclui Humphrey.

A idade em que a amamentação cessa afeta muitos aspectos da demografia humana, incluindo o tempo mínimo entre as gravidezes [NT: É um plural incomum, mas existe ‘legalmente’ dentro da língua portuguesa. Preferi esse termo para economizar espaço, em vez de ‘abrir’ a tradução.] de uma mulher, explica Holly Smith, paleoantropóloga da University of Michigan em Ann Arbor. Isso, por sua vez, afeta a taxa geral de crescimento populacional. Análises de dentes encontrados em sítios arqueológicos, portanto, poderiam ajudar pesquisadores a inferir informações demográficas sobre populações antigas.  

Os métodos analíticos tem um potencial “tentador” para abordar questões mais vastas sobre a evolução humana, explica Matt Sponheimer, antropólogo da University of Colorado, em Boulder. Mas isso exigiria fósseis bem preservados, adiciona ele. “Aplicar essa técnica a materiais muito mais antigos do continente africano pode ser uma batalha difícil”.

Este artigo foi reproduzido com permissão da revista Nature. O artigo foi publicado pela primeira vez em 22 de maio de 2013.