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Depósitos de lixo tóxico afetam milhões em nações pobres

Índia, Filipinas e Indonésia perderam quase 840 mil anos de vida saudável em 2010  

Image: Flickr/palindrome6996
Por Dina Fine Maron

Viver perto de um depósito de lixo tóxico induz saúde precária. E cientistas sabem que o problema é bem disseminado em países em desenvolvimento, onde existem poucos programas de limpeza. Um par de novos estudos adiciona detalhes muito necessários a respeito do quanto, exatamente, esse problema pode ser generalizado e nocivo.

Um estudo conduzido pela Icahn School of Medicine at Mount Sinai na cidade de Nova York observou 373 depósitos na Índia, Filipinas e Indonésia, e calculou os danos causados à vida humana pelos elevados níveis  de chumbo, crômio e outros elementos tóxicos.

O trabalho, publicado online em Environmental Health Perspectives em 4 de maio, descobriu que morar perto de locais tóxicos levava a impactos de saúde comparáveis a todos os problemas de malária combinadas nesses três países, ou até todos os impactos negativos de poluição do ar.

Os pesquisadores usaram “anos de vida perdidos ajustados por incapacidade” , [ou DALYs, na sigla em inglês] como forma de quantificar a influência de toxinas ambientais nas mortes ou doenças prematuras. Um DALY é igual a um ano perdido de vida saudável. 

“Estimamos que mais de oito milhões de pessoas nesses países sofreram com doença, incapacidade ou morte resultantes da exposição a contaminantes industriais em 2010, totalizando 828.722 DALYs”, escreveram os autores.

Isso significa que entre as 8,6 milhões de pessoas vivendo perto desses locais, estima-se que 828.722 anos de vida saudável tenham sido perdidos. Quase dois terços dos indivíduos vivendo perto desses locais eram mulheres em idade fértil ou crianças.

Os autores não tiveram dados diretos de níveis sanguíneos ou informações de biomarcadores para fazer seus cálculos. Em vez disso, eles usaram dados ambientais para as áreas ao redor dos locais. Para a exposição ao chumbo, por exemplo, eles usaram níveis de chumbo na água potável ou no solo, e um modelo da Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos que traduz os dados em níveis projetados de chumbo no sangue.

Eles também usaram planilhas da Organização Mundial da Saúde “que nos informavam quantas pessoas desenvolveriam doença cardiovascular ou leve retardo mental com esses níveis”, explica Kevin Chatham-Setephens, autor do estudo e pediatra do Mount Sinai Hospital que se concentra em saúde ambiental. Mais de 99% dos impactos negativos na saúde a partir de exposição a tóxicos foram de chumbo ou crômio, apesar de os autores também estudarem cádmio e pesticidas como o DDT.

As descobertas ainda envolvem alguns agentes desconhecidos e algumas suposições, reconhecem os autores.

A análise não leva em conta o impacto sinérgico ou antagônico da exposição simultânea a vários elementos, por exemplo. Como os pesquisadores fizeram o monitoramento de apenas um grande contaminante químico por local, e normalmente só consideraram seu impacto cancerígeno e um não-cancerígeno, suas estimativas podem não refletir o panorâma completo.

Os locais pesquisados, como antigos curtumes e áreas de reciclagem de baterias de chumbo, foram selecionados de uma base de dados de áreas contaminadas identificados pelo Instituto Blacksmith, uma organização internacional sem fins lucrativos com sede na cidade de Nova York.

Como dados de censo frequentemente não são robustos em países de baixa e média renda, os pesquisadores também usaram uma análise de elaborada por funcionários do Blacksmith para estimar números populacionais com imagens de satélite, entrevistas governamentais e confirmação visual.

Chatham-Stephens também comandou o segundo estudo, que foi apresentado em 6 de maio na reunião anual da Pediatric Academic Societies em Washington, capital. Ele e outros pesquisadores analisaram o que a exposição de chumbo do solo e água em locais tóxicos em 31 países de baixa e média renda poderia significar para a saúde de longo prazo de crianças e recém-nascidos vivendo nas comunidades circundantes.

Usando estimativas populacionais e cálculos sobre chumbo pelo sangue, a equipe estima que em 2010 quase 800 mil crianças com menos de quatro anos foram expostas a chumbo em 200 locais de risco. Na maioria dos locais, que incluíam usinas de reciclagem de baterias e comunidades onde mineiros vivem e inconscientemente levam toxinas para casa em suas roupas ou corpos, estimou-se que os níveis de chumbo eram altos o suficiente para provocar níveis elevados de chumbo no sangue além daqueles considerados seguros pelos Centro de Controle de Doenças dos Estados Unidos (CDC).

Em comparação, estimativas recentes do CDC sugerem que quase 500 mil crianças entre as idades de um e cinco anos vivendo nos Estados Unidos tem níveis elevados de chumbo que requerem intervenção.

Os autores estimam que os níveis perigosos de chumbo nesses países de baixa e média renda provocam uma perda de cinco a oito pontos de QI na população, além de mais de 51 mil DALYs. Eles estimam que a exposição nesses ambientes provoque leve retardo mental em aproximadamente seis de cada mil pessoas. Esses números soam razoáveis com base na escala do trabalho, comenta Bruce Lanphear, professor de saúde ambiental infantil da Simon Fraser University em Vancouver, que não se envolveu no estudo.

O impacto desse tipo de exposição tóxica é claramente preocupante, aponta Chatham-Stephens. “Se você perder um ponto de QI, é importante pensar em quanto isso reduz o aprendizado de uma vida, e pensar sobre seu impacto econômico. Com esses dados, nós podemos começar a pensar sobre perdas econômicas nesses locais e em quanto custa limpá-los – e então no quanto será economizado por limpar esses locais e eliminar essas exposições”. A maioria desses lugares não tem programas de limpeza de lixo, apontam os autores.

Apesar de a comunidade científica geralmente ficar ciente dos problemas, “ninguém tentou documentar essas exposições em termos do que acontece, e esse primeiro passo é uma abordagem razoável”, explica Kyle Steenland, professor de saúde ambiental da Escolha Rollins de Saúde Pública da Emory University e estudioso da exposição ocupacional ao chumbo. Ele alertou que como estudos se baseiam muito em estimativas, os dados podem ser considerados apenas uma primeira tentativa de quantificar o problema. “Existe uma grande quantidade de incerteza em cada passo dado aqui”.