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Depressão raramente leva ao suicídio

Combinação de fatores contribuem para aumentar o risco e tratamento é fundamental

Por Roni Jacobson

Em suas comédias stand-up mais amadas pelo público, como Aladdin e Mrs. Doubtfire, Robin Williams era conhecido por suas geniais personificações dinâmicas e improvisadas; e por sua energia intensamente espirituosa. Seu trabalho mais aclamado pela crítica, no entanto, inclusive sua premiação com o Oscar por Gênio Indomável, casava humor com uma aguçada introspecção e apreço por melancolia.

Relatos de sua morte por suicídio em 11 de agosto, aos 63 anos, suscitaram muita especulação sobre a personalidade e a saúde mental do ator. Williams vinha procurando tratamento para depressão severa, e muitos tomaram isso como motivo de sua morte.

Enquanto a maioria das pessoas que se suicida sofre de depressão, menos de 4% de fato acabam pondo fim às suas vidas.

Obviamente há mais fatores ativos como causas de suicídio que só a depressão. A gravidade de transtornos de humor, tentativas de suicídio passadas e abuso de substâncias são todos considerados fatores que aumentam o risco.

Evidências recentes também sugerem que a forma depressiva mista do transtorno bipolar pode ser particularmente perigosa porque muitas vezes passa despercebida ou é mascarada como uma forma generalizada de depressão e irritabilidade.

Em 2006, Williams disse à entrevistadora Terry Gross no programa de rádio Fresh Air, que havia experimentado episódios depressivos, mas afirmou que não tinha sido diagnosticado com depressão clínica ou transtorno bipolar, uma doença caracterizada por extremos altos e baixos emocionais, em que as pessoas alternam entre estados maníacos de energia e profunda depressão.

Ele também discutiu suas batalhas contra o vício e o abuso de substâncias: cocaína na década de 70 e, mais tarde, álcool, para o qual se submeteu a um tratamento em 2006. “Às vezes me apresento em um estilo maníaco? Sim.”, confessou Williams. “Sou maníaco o tempo todo? Não. Fico triste? Oh, sim. Isso me afeta duramente? Oh, sim”, confirmou na época. 

De acordo com os Institutos Nacionais de Saúde Mental (National Institutes of Mental Health), a depressão, que afeta cerca de 16 milhões de americanos e mais de 350 milhões de pessoas em todo o mundo, segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), é considerada um resultado da interação de fatores sociais, biológicos e ambientais.

A palavra “depressão” é usada informalmente; mas, na realidade, a condição pode ser muito debilitante. Pessoas com transtornos depressivos maiores (doença também conhecida como depressão clínica maior ou unipolar) vivem uma existência além do domínio da tristeza.

De fato, elas podem se sentir dormentes diante do mundo e muitas vezes se tornam letárgicas e perdem o interesse em pessoas e atividades que antes lhes proporcionavam alegria. Quando a doença está em sua fase mais aguda, os afetados podem até experimentar psicoses — ver ou ouvir coisas que não existem.

Não é surpresa, então, que quanto mais graves os sintomas de depressão mais provável é que a pessoa esteja correndo risco de suicídio. A depressão moderada ou distimia, uma melancolia crônica menos grave que a depressão, não é considerada um fator de risco para o suicídio.

Quando não tratada, porém, a depressão moderada pode, com o tempo, ficar severa à medida que os episódios se acumulam 

Embora mulheres tentem o suicídio com mais frequência, homens são mais propensos a completar o ato. Esse fato mórbido frequentemente é atribuído ao método: homens usam armas de fogo ou enforcamento dos quais é muito mais difícil se recuperar do que de uma overdose de comprimidos, que é o método preferido pelas mulheres.

Curiosamente, homens também tendem a ficar deprimidos por períodos mais longos, sem que sua condição seja detectada, ou diagnosticada, que mulheres. 

A explicação biológica aceita durante muito tempo para depressão, de que pessoas com a doença têm níveis baixos do neurotransmissor serotonina, agora é considerada excessivamente simplista.

Mas de acordo com a opinião corrente, a serotonina, que facilita o aprendizado e estimula a memória, parece estar envolvida de certa forma em algumas capacidades: pessoas com depressão lutam para romper padrões de pensamentos negativos, recursivos, que inibem sua prontidão para aprender com novas informações.

Em um estudo de 2014, John Keilp, um neuropsicólogo da Columbia University, e colegas descobriram que pessoas com depressão que tentam o suicídio tendem a ter períodos de atenção mais curtos e uma memória mais fraca que os portadores da doença que não tentam se matar. 

Terapias cognitivo-comportamentais e medicação podem agir em conjunto para corrigir esses padrões de pensamentos contraproducentes, mas esse tipo de recuperação se torna mais difícil quando substâncias recreativas que alteram a mente são adicionadas à equação.

Esse desafio é particularmente verdadeiro com a introdução de sedativos ou “tranquilizantes”, como as benzodiazepinas e o álcool. Bebidas alcoólicas deprimem ainda mais os centros de recompensa do cérebro, dificultando a recuperação. Sabe-se que aproximadamente 60% das pessoas que cometem suicídio haviam consumido bebidas alcoólicas antes de morrer. 

Outra condição que pode parecer depressão, mas que de fato é uma faceta do transtorno bipolar, chamada episódio misto-depressivo, também pode elevar o risco de suicídio. Essa condição é caracterizada por um episódio depressivo com três ou mais sintomas “hipomaníacos”, como irritabilidade, distração e agitação.

Episódios mistos combinam os pensamentos erráticos e descontrolados de um episódio maníaco, mas com uma nota distintamente negativa em vez de eufórica. Esses estados mistos, por sua vez, podem aprofundar a depressão, tornando-a mais resistente a tratamento.

Uma revisão de 2013 publicada no The American Journal of Psychiatry sugere que pensamentos e tentativas suicidas passadas são mais frequentes durante episódios mistos-depressivos em comparação com pessoas que experimentam apenas depressão. 

Segundo se informou, nesse verão boreal Williams se internou em Hazelden, um centro de tratamento de dependênciasem Minnesota. Ele não tinha tido uma recaída, mas aproveitou a oportunidade para “aprimorar e se concentrar em seu contínuo comprometimento com a sobriedade”.

Embora isso tenha provado ser insuficiente — os efeitos da dependência podem durar anos depois que o abuso de substâncias cessou, e a depressão é um distúrbio altamente intratável — tomara que a coragem que ele mostrou ao abordar seus problemas de frente encoraje mais pessoas a procurar ajuda antes que seja tarde demais.

Vários outros fatores podem contribuir para o risco de suicídio; entre eles, a pobreza, por exemplo, e o histórico familiar de suicídio. Mas a tragédia da morte de Williams deveria nos lembrar de que os transtornos de humor mais debilitantes e potencialmente fatais podem atingir qualquer pessoa, e uma vez que isso acontece pode ser terrivelmente difícil encontrar alívio e cura.

 Sciam 13 de agosto de 2014

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