Sciam
Clique e assine Sciam
Notícias

O que explica o desaparecimento do avião da Malaysia?

Limitações técnicas e extensão da área dificultam a localização da aeronave

11 de março de 2014 | Por Geoffrey Giller

O desaparecimento do avião da Malásia Airlines Flight MH370 transportando 239 pessoas neste no último final de semana continua a ser um mistério até o momento. Apesar do esforço de busca envolvendo navios e aeronaves de vários países — que detectaram uma uma mancha de óleo e um objeto flutuante que parecia ser uma porta do avião  — não há indícios da aeronave.

Como é que um avião simplesmente desaparece?

Sistemas de monitoramento convencionais tiveram bom desempenho: radares civis e militares monitoraram o avião até que ele desapareceu. Patrick Smith, piloto e criador de um blog chamado "Ask the Pilot", conta que eles sabiam onde a aeronave estava até o ponto em que algo catastrófico aconteceu. O avião seguiu a rota adotada pelo mesmo voo alguns dias antes, de acordo com o site de rastreamento privado de voo Flightradar2. Portanto, a próxima pergunta é por que qualquer rastro do avião ainda não apareceu? Smith acredita que isto decorre principalmente do tamanho da área de busca oceânica. Ele está confiante de que os destroços serão encontradas.

Há grande uma variedade de métodos para rastrear aviões no ar, diz Sid McGuirk, professor e especialista em controle de tráfego aéreo em Daytona Beach College of Aviation da Embry-Riddle Aeronautical University. Até cerca de um minuto após a decolagem, explica, a torre do aeroporto está no comando, com controladores de voo acompanhando visualmente as aeronaves.

Assim que o avião fica fora da visão, os sistemas de radar assumem o monitoramento. Radares funcionam bem em terra, onde a cobertura é extensa, mas a cerca de 300 quilômetros da costa o sinal se torna muito fraco, diz McGuirk. Em 2009, quando a Air France voo 447 caiu no Atlântico depois de partir do Rio de Janeiro já não era rastreado por radar, o que tornou difícil encontrar: foram mais de cinco dias para a detectar os primeiros destroços e dois anos para localizar as caixas-pretas em grande profundidade no fundo do oceano.

Ao contrário do voo da Air France, no entanto, o voo MH370 ainda estava na área de alcance de sistemas de rastreamento de radar. Flightradar24, que não usa radar mas uma rede de antenas que recebem informações de localização transmitidas por aviões por meio de uma tecnologia chamada automatic dependent surveillance–broadcast, ou ADS-B, acompanhou o avião até praticamente o mesmo ponto. Mas radar e ADS-B também têm limites. Flightradar24 perde cobertura ADS-B abaixo de cerca de 9.000 metros. E radar também só pode rastrear aeronaves acima de determinado altura, ainda que os parâmetros possam variar de acordo com a proximidade entre avião e o detector, pondera McGuirk.

Uma série de fatores podem influenciar a destinação final dos destroços. A dinâmica da aeronave pode variar muito dependendo, por exemplo, da forma como ela atingiu o oceano ou se foi desintegrada durante o voo. Além disso, "a aeronave voa com grande velocidade", diz Larry Cornman , um cientista do Centro Nacional de Pesquisas Atmosféricas. "Isso faz com que seja muito ampla a área em que a aeronave poderia estar, especialmente se ela se partiu durante o voo."

McGuirk acha que a possibilidade de sequestro, apesar de possível, é improvável. Um eventual sequestrador teria exigido não apenas o desligamento do sistema ADS-B e do radar transponder do avião, mas também a manutenção do avião abaixo da região onde o radar poderia detectá-lo. Os sequestradores, então, teriam de pousar o avião de modo imperceptível, tarefa difícil em função do tamanho de um Boeing 777. "Isso é uma espécie de solução absurda ", diz McGuirk . "Não é difícil chegar à conclusão de que algum evento catastrófico ocorreu a bordo ", diz ele , especialmente considerando-se a falta de comunicações de emergência da tripulação antes do desaparecimento .

Após o desastre da Air France, que matou todas as 228 pessoas a bordo, algumas pessoas passaram a ter sistemas que enviam automaticamente a localização de um avião para os satélites. Não está claro, no entanto, se tal sistema teria ajudado no caso do voo MH370, a localização do avião era conhecida antes dele desaparecer. Cornman também salienta que como acidentes com aviões comerciais são tão raros (com apenas 0,34 acidente fatal por milhão de partidas de 2002 a 2011, de acordo com a Boeing) a análise de custo-benefício não é favorável a adição desses sistemas.

Em última análise, segundo McGuirk, nós provavelmente ficaremos sem saber o que aconteceu ao vôo MH370 por algum tempo. E acrescenta que tudo o que é dito agora é pura especulação e que é muito, muito cedo para chegar a qualquer conclusão.