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Desastres climáticos já custaram US$ 2,4 trilhões ao mundo

Novo relatório sugere que aprendemos com calamidades passadas

 

Sittitap/Shutterstock
Por Brian Kahn e Climate Central

Novo relatório afirma que desastres ligados ao tempo e ao clima já totalizaram US$ 2,4 trilhões em prejuízos econômicos e quase 2 milhões de mortes globalmente desde 1971. Embora as perdas sejam assombrosas, o documento também mostra que aprendemos com catástrofes passadas; lições que o mundo precisará à medida que o desenvolvimento prossegue em áreas de risco e o clima continua mudando.

O relatório, divulgado pela Organização Meteorológica Mundial (OMM), destaca o quanto climas extremos podem custar caro e como é importante reportar desastres. O estudo aborda seis tipos de perigos: inundações, secas, temperaturas extremas, tempestades, incêndios florestais e deslizamentos de terras de 1971 a 2010.

É fácil olhar para os gráficos no relatório e ver as tendências no número de desastres registrados e seus custos. Cada modalidade aumentou notavelmente desde a década de 70.

Embora seja tentador atrelar o aumento a uma determinada causa, a história é bem mais complexa. O relatório em si não analisou as causas, mas Jochen Luther, um analista do programa de redução de riscos de desastres da OMM, declarou que diversos fatores entraram em jogo.

“Em todo lugar ao redor do globo está havendo muito desenvolvimento e crescimento populacional em áreas propensas a desastres, especialmente em regiões costeiras que são muito afetadas pelo aumento do nível do mar, além de tempestades, ciclones tropicais, tempestades extratropicais”, salientou Luther.

A crescente globalização também provocou  impactos econômicos desproporcionais de alguns desastres. As inundações tailandesas em 2011 causaram quase US$ 41 bilhões em perdas econômicas, em grande parte porque elas interromperam as cadeias de abastecimento de produtores de computadores e peças de automóveis.

Luther advertiu contra a interpretação exagerada das tendências ou comparar regiões, porque as reportagens sobre desastres estão longe de serem uniformes.

“Muitos países não contabilizam sistematicamente danos e perdas de desastres ou, quando o fazem, não existe um método padronizado para fazer isso (entre os diversos países)”, observou o analista.

Além disso, as grandes catástrofes distorceram um pouco os impactos. Os 10 cataclismos que resultaram nos maiores números de mortos representam apenas 0,1% de todos os desastres registrados; no entanto, eles responderam por 69% de todas as vidas perdidas. As perdas econômicas refletem uma influência similar, embora não tão dramática. As 10 catástrofes mais onerosas foram responsáveis por 19% de todas as perdas.

Os números de mortes por década também são acentuadamente influenciados por alguns poucos eventos de grandes proporções. Na década de 80, a maioria das mortes deveu-se a uma severa seca no leste da África que, em parte, resultou em uma epidemia de fome. De acordo com a OMM, 550 mil mortes no período de 1983-1984 foram atribuídas à seca, respondendo por aproximadamente 85% de todas as mortes vinculadas ao tempo e ao clima no mundo na década de 80. Na década de 2000, as ondas de calor extremo que atingiram a Europa em 2003 e a Rússia em 2010 foram responsáveis pela maioria das mortes.

Embora seja impossível negar o impacto dramático que grandes eventos podem ter, também há lampejos de esperança de que não estamos condenados a repetir incessantemente os mesmos erros.

“Na esteira do intenso calor de 2003, vários dos mais influentes serviços de meteorologia da Europa, como os da França e da Alemanha, introduziram novas medições; por exemplo, os índices de estresse por calor e seu reflexo na saúde humana”, explicou Luther.

Esperamos que essa informação proporcione maior clareza e que ela seja um alerta para futuras ondas de calor, ajudando a reduzir o número de fatalidades.

Do mesmo modo, alguns países do leste da África investiram em sistemas de alerta antecipados para secas e outras inovações, como seguros climáticos a preços módicos para agricultores, a fim de evitar uma repetição da epidemia de fome da década de 80. Esses sistemas foram testados em duas severas estiagens nos anos 2000 e a maioria das áreas evitou a fome e a perda de vidas, exceto a Somália em 2011.

Luther revelou que a OMM está tentando trabalhar com serviços nacionais de meteorologia ao redor do mundo para criar previsões de tempo e clima “contínuas e consistentes”. Ele também salientou que o fenômeno El Niño, que está se formando atualmente na região tropical do oceano Pacífico, ajuda a melhorar previsões sazonais ao favorecer as chances de determinados comportamentos climáticos em certas regiões.

Basear-se nessa informação, com previsões meteorológicas semanais e até de hora em hora, pode ajudar meteorologistas e gestores de desastres a planejar com antecedência medidas preventivas contra inundações, furacões, secas ou qualquer outro fenômeno climático que esteja se movendo em sua direção.

Futuramente, esses esforços ganharão cada vez mais importância à medida que as mudanças climáticas aumentarem a probabilidade de eventos extremos.

A mudança climática já aumentou as chances de inundações no Porto de Nova York (New York Harbor), e diversos estudos mostram que, a menos que sejam tomadas medidas para proteger áreas litorâneas, mais trilhões de dólares em bens serão expostos aos perigos decorrentes da elevação dos níveis do mar e inundações costeiras.

Ciclones tropicais mais fortes e padrões mais extremos de calor e precipitação também criarão mais riscos vinculados às alterações climáticas. Quando se combina isso com o contínuo desenvolvimento em áreas propensas a calamidades, isso significa que cada vez mais comunidades e bens estarão expostos a perigos, a menos que os sistemas de alerta e proteções se mantenham atualizados.

Este artigo é reproduzido com permissão de Climate Central. O artigo foi publicado originalmente em 16 de julho de 2014.

sciambr22jul2014