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Design não tão inteligente: as piores ideias sobre a evolução

Entrevista com Mara Grunbaum, blogueira e autora de livro que critica proposta criacionista para a ciência

Mara Grunbaum/Divulgação
Clara Moskowitz

Os defensores do chamado “design inteligente” gostam de apontar a elegância do corpo humano e a complexa lógica dos olhos de vertebrados como provas de que um “projetista” mestre (ou seja, Deus) concebeu e criou todos os organismos.

Mas bastaria os proponentes dessa noção darem uma boa olhada em algumas das “criaturas” no blog WTF, Evolution?, da jornalista Mara Grunbaum, para ver uma prova de que nem todas os organismos da Terra parecem ter sido ideados de forma inteligente.

Características em animais como o babirusa (Babyrousa babyrussa), a rã-púrpura-indiana (Nasikabatrachus sahyadrensiso) e a lagarta da mariposa-flanela (Megalopyge opercularis) são tão insensatas e estranhas que não poderiam ter sido projetadas com eficiência, lógica ou estética em mente.

Elas nos lembram que a seleção natural preserva adaptações úteis de mutações randômicas, algumas das quais são decididamente bizarras.

Para comemorar alguns dos resultados mais questionáveis da evolução, Grunbaum reuniu alguns animais favoritos de seu blog no novo livro WTF, Evolution?! A Theory of Unintelligible Design (Workman Publishing, setembro de 2014).

A Scientific American conversou com a autora sobre sua caça ao que de mais estranho a natureza tem a oferecer, e por que unicórnios não são reais.

[A seguir, uma transcrição editada da entrevista.]

Como a senhora começou a fazer isso?

Uma das principais coisas que originou o blog foi que eu tinha me deparado com a foto da cara de um camaleão, que imprimi e coloquei sobre minha escrivaninha.

Fiquei olhando para a cara do bicho e pensando: “O que é isso? Ela tem um formato ridículo e parece que alguém borrifou tinta por ela toda de um jeito muito estranho”.

Ela era tão bizarra que para mim estava claro que ninguém havia pensado nisso. As coisas só ficam esquisitas assim quando tudo é completamente randômico.

Eu tinha uma coleção de coisas estranhas como essa na cabeça e não sei bem o que me levou a decidir começar a postá-las na internet.

Pensei que aquilo seria divertido para mim e para meus amigos, mas ficou claro que algumas outras pessoas também acharam graça e a partir de lá a coisa deslanchou.

 

Seu blog não tende a antagonizar com os criacionistas?

Não escutei muita coisa deles até o momento.

Acho que o blog é uma declaração sobre isso. Se você prestar atenção, fica bem claro [que sou contra o design inteligente].

Tento incluir mais informações sobre como a evolução realmente funciona. É um processo estranho, randômico, não inteiramente bem pensado.

Se tivesse havido um processo de raciocínio, o blog é o que esse exercício talvez tenha sido. Mas ele prova mais ou menos que não houve um processo desses.

Recebi comentários dizendo que isso mostra que Deus tem um senso de humor.

Se as pessoas querem entender isso desse jeito, para mim está bem. Isso só não é a minha maneira de ver as coisas.

 

Está decididamente claro que nenhum designer inteligente teria criado algumas dessas criaturas. Não é difícil acreditar que muitos desses seres chegaram a evoluir?

É. Tendemos a pensar sobre a evolução como adaptações; tudo evoluiu de uma determinada maneira, porque é assim que funciona melhor.

Até certo ponto isso é verdade; com o tempo, as coisas vão se adaptando mais aos seus ambientes. Mas também é verdade que algumas coisas acontecem randomicamente e não são necessariamente o melhor jeito de se fazer algo quando se está projetando aquilo do zero.

Essa é apenas uma maneira. Ou isso estava associado casualmente a algum outro gene. As coisas esquisitas simplesmente acontecem.

 

E não é estranho pensar que algumas dessas criaturas realmente bizarras são reais, mas que coisas como unicórnios, que parecem bastante razoáveis em comparação, são pura fantasia?

É, não é?

Quando você vê algumas dessas coisas muito estranhas, percebe que os unicórnios não são tão disparatados.

Pergunto: essa realmente é a melhor criatura imaginária que conseguimos inventar? É apenas um cavalo com um chifre.

E nem precisamos deles quando temos todos esses animais reais que são muito mais absurdos.

 

Quantos dos animais que a senhora descreve estão ameaçados?

Muitos.

Temos uma seção no final do livro que fornece mais informações sobre conservação.

Aquilo foi meio chato de compilar. Muitos animais estão listados como ameaçados e muitos simplesmente não são suficientemente bem conhecidos para já terem sido contados/avaliados.

Mas a compilação decididamente me deixou muito consciente dos problemas que muitas dessas espécies estão enfrentando.

É ótimo saber que todas essas espécies “absurdas”, mas legais, e provavelmente muitas outras estão por aí na natureza, mas é revoltante, ou inquietante, que estamos perdendo tantas.

Provavelmente há muitos seres estranhos que estamos extinguindo sem nunca termos sabido que existiam.

 

A senhora acha que seu humor lhe permite atingir um público que não se envolve normalmente com ciência?

Creio que sim.

Acho que a ciência é muito importante e muito interessante e, às vezes, muito técnica, mas muita coisa a seu respeito também é muito engraçada, e deveríamos ter a chance de desfrutar essas partes.

Obtive respostas de muitos cientistas que leem o blog, assim como de pessoas que escrevem sobre ciências, estudantes e todos os tipos de outras pessoas. Isso é muito gratificante.

Os comentários que me deixam mais feliz são as pessoas que dizem: “Ah, esse blog me faz rir e eu também aprendi alguma coisa”.

Minha reação é pensar “Ótimo!”

Portanto, continuarei escrevendo o blog, e veremos se algum dia não terei mais animais estranhos para comentar. Toda vez que penso que se esgotarão, sempre surge algo mais.

Este artigo foi publicado originalmente sob o título “WTF, Evolution?! A Theory of Unintelligible Design”.

 

 

Publicado em Scientific American em 16 de setembro de 2014.