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Maioria das pessoas ignora o gigantismo da desigualdade econômica

Apatia em relação à desigualdade se deve a percepções errôneas e otimistas, concluem estudos

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De acordo com a Pew Research, a maioria dos americanos acredita que o sistema econômico favorece injustamente os ricos, mas 60% deles acredita que a maioria das pessoas pode ter sucesso se estiver disposta a trabalhar muito.  
Por Nicholas Fitz

Em uma conversa franca com Frank Rich no último outono boreal, Chris Rock comentou “Ah, as pessoas nem sabem. Se os pobres soubessem o quanto os ricos são ricos, haveria revoltas nas ruas”. As descobertas de três estudos, publicados nos últimos anos em Perspectives on Psychological Science, sugerem que Rock tem razão. Nós não temos nem ideia sobre o quanto nossa sociedade se tornou injusta.

Em seu artigo de 2011, Michael Norton e Dan Ariely analisaram crenças sobre a desigualdade de renda. Eles pediram a mais de cinco mil americanos que imaginassem a porcentagem de riqueza (como economias, propriedades, ações, etc., subtraídas as dívidas) de cada quinto da população. Em seguida, eles pediram que as pessoas construíssem suas distribuições ideais. Imagine uma pizza representando toda a riqueza dos Estados Unidos. Que porcentagem dessa pizza pertence aos 20% mais ricos? Qual é o tamanho da fatia dos 40% mais pobres? Em um mundo ideal, quanto cada um deveria ter?

O americano médio acredita que o quinto mais rico detém 59% da riqueza e os 40% mais pobres, 9%. A realidade é radicalmente diferente. Os 20% mais ricos dos Estados Unidos detêm mais de 84% da riqueza, e os 40% mais pobres representam míseros 0,3%. A família Walton, por exemplo, é mais rica que 42% de todas as famílias americanas combinadas.

Nós não queremos viver assim. Em nossa distribuição, o quinto mais rico detém 32% e os dois quintos mais pobres, 25%. Como resumiu a jornalista Chrystia Freeland: “Na verdade, os americanos vivem na Rússia, ainda que acreditem viver na Suécia. E eles gostariam de viver em um kibbutz” [tipo de comunidade agrícola de Israel]. Norton e Ariely encontraram um nível surpreendente de consenso: todos – até mesmo republicanos e pessoas ricas – querem uma distribuição mais igualitária da riqueza.

Tudo isso pode parecer familiar. Um infográfico em vídeo do estudo se tornou viral e já foi assistido mais de 16 milhões de vezes.

Em um estudo publicado no ano passado, Norton e Sorapop Kiatpongsan usaram uma abordagem semelhante para avaliar percepções sobre desigualdade de renda. Eles pediram que 55 mil pessoas de 40 países estimassem quanto ganham CEOs corporativos e trabalhadores sem qualificação. Então eles perguntaram a essas pessoas quanto esses CEOs e trabalhadores deveriam ganhar. O americano médio estimou que a razão entre o salário do CEO e o do empregado era de 30 para 1 e que, idealmente, deveria ser de 7 para 1. A realidade? 354 para1. Há cinquenta anos, esse número era 20 para 1. Novamente, os padrões eram os mesmos para todos os subgrupos, independentemente de idade, educação, afiliação política ou opinião sobre desigualdade e pagamento. “Em resumo”, concluíram os pesquisadores, “os participantes subestimam as diferenças salariais reais, e suas idealizações estão ainda mais longe da realidade do que suas estimativas”.

Esses dois estudos implicam que nossa apatia em relação à desigualdade se deve a percepções errôneas e otimistas. Para ser justo, porém, nós de fato sabemos que alguma coisa está errada. Afinal, o presidente Obama classificou a desigualdade econômica como sendo “o desafio que vai definir nossa era”. Mas enquanto americanos reconhecem que a diferença entre ricos e pobres aumentou na última década, poucos veem isso como um problema sério. Apenas 5% dos americanos acredita que a desigualdade é um problema que precisa de atenção. Ainda que o Movimento Occupy possa ter um legado tangível, os americanos não estão protestando nas ruas.

Uma provável razão para isso foi identificada por um terceiro estudo, publicado no começo deste ano por Shai Davidai e Thomas Gilovich, que sugere que indiferença jaz em um otimismo cultural americano. No cerne do "sonho americano" jaz a crença de que qualquer um que trabalhe o suficiente pode ascender do ponto de vista econômico, independentemente de suas circunstâncias sociais. Davidai e Gilovich queriam saber se as pessoas tinham uma noção realista de mobilidade econômica.

Os pesquisadores descobriram que americanos superestimam a quantidade de mobilidade social vertical que existe na sociedade. Eles pediram a cerca de três mil pessoas que imaginassem a chance de alguém nascido em uma das famílias mais pobres se tornar um adulto pertencente aos quintos mais ricos. Como era de se esperar, as pessoas acreditam que a ascensão econômica é significativamente mais provável do que acontece na realidade. De maneira interessante, participantes mais pobres e politicamente conservadores acreditavam haver mais mobilidade que participantes mais ricos e liberais.

De acordo com a Pew Research, a maioria dos americanos acredita que o sistema econômico favorece os ricos de maneira injusta, mas 60% deles acredita que a maioria das pessoas é capaz de ascender economicamente se estiver disposta a trabalhar muito. O senador Marco Rubio declara que os Estados Unidos “nunca foram uma nação dividida entre quem tem e quem não tem. Nós somos uma nação de quem tem e quem logo terá, de pessoas que conseguiram e de pessoas que vão conseguir”. É claro que americanos adoram histórias de pobres que ficam ricos, mas talvez tolerem tanta desigualdade porque acreditam que essas histórias são mais comuns do que parecem.

Americanos podem querer não acreditar nisso, mas atualmente os Estados Unidos são o país mais desigual de todas as nações ocidentais. Para piorar as coisas, sua mobilidade social é consideravelmente menor que a do Canadá e da Europa.

Como os sociólogos Stephen McNamee e Robert Miller Jr. apontam em seu livro, The Meritocracy Myth (sem edição em português), a maioria dos americanos acredita que o sucesso se deve ao talento e esforço individuais. Ironicamente, quando o termo “meritocracia” foi usado pela primeira vez por Michael Young (em seu livro de 1958, também sem edição em português, The Rise of Meritocracy), ele servia para criticar uma sociedade governada pela elite talentosa. “Faz sentido apontar indivíduos para empregos com base em seu mérito”, escreveu Young em um ensaio de 2001 para o Guardian. “O oposto ocorre quando aqueles que são vistos como tendo mérito de um tipo específico se solidificam em uma nova classe social sem espaço para outros”. O criador da expressão deseja que paremos de usá-la, porque ela sustenta o mito de que aqueles que têm dinheiro e poder devem merecer (e a crença mais sinistra de que os menos afortunados não merecem coisa melhor).

Ao superenfatizar a mobilidade individual, nós ignoramos importantes determinantes sociais de sucesso, como herança familiar, conexões sociais e discriminação estrutural. Os três artigos publicados em Perspectives on Psychological Science não apenas indicam que a desigualdade econômica é muito pior do que acreditamos, mas também que a mobilidade social é menor do que imaginamos. Nosso tipo único de otimismo impede a realização de qualquer mudança real.

George Carlin dizia que “chamam isso de ‘Sonho Americano’ porque você precisa estar dormindo para acreditar nele”. Como podemos acordar?

 Publicado por Scientific American em 31 de março de 2015.