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Desmatamento afeta produção pesqueira na Amazônia

Transformação da várzea de rios em pastagem pode diminuir quantidade de peixes

Leandro Castello/Virginia Tech
Pescador segura um tambaqui, grande espécie de peixe de água doce com preço alto. Ele se alimenta principalmente de frutas de árvores encontradas na vegetação de várzea.

 
A transformação de florestas tropicais em cultivos e pastagens há muito tem sido uma preocupação para os cientistas, já que a perda de cobertura florestal pode levar à diminuição das chuvas, aumento das secas e degradação de ecossistemas de água doce. Um novo estudo aponta uma outra consequência inesperada: mudanças na produção de peixes.

O estudo, liderado por Leandro Castello, professor assistente de pescaria da Faculdade de Recursos Naturais e Meio Ambiente da universidade Virginia Tech, nos EUA, explora como o desmatamento ao longo das várzeas do rio Amazonas afeta a produção pesqueira. A pesquisa foi publicada online no dia 13 dezembro na revista científica Fish and Fisheries.

“O conflito entre a criação de gado e o manejo de áreas de pesca é uma preocupação que atinge também os residentes das várzeas. Mas não havia ainda estudos rigorosos sobre como a perda florestal afeta a produtividade das várzeas de pesca”, explicou David McGrath, co-autor da pesquisa e vice-diretor do Instituto de Inovação da Terra.

Cerca de ⅓ da produção global de peixes selvagens vem dos trópicos. Áreas de pesca situadas fora da costa são essenciais para a produção desses alimentos. A qualidade da área de terra adjacente a um rio, chamada de várzea, pode desempenhar um importante papel na produção pesqueira.

“As florestas de várzea podem apresentar estruturas que protegem os peixes e suas crias, e servir de hábitat a insetos dos quais muitos peixes dependem para se alimentar. Essas florestas também produzem material vegetal que pode servir de alimento para esses animais”, disse Castello, que é afiliado ao Centro de Mudança Global, situado no Instituto de Ciências da Vida Fralin na Virginia Tech.

A co-autora Victoria Isaac, professora da Universidade Federal do Pará, foi responsável os coletar dos dados da pesca. “O estudo possui implicações diretas no manejo e na conservação da Amazônia”, ela disse. “O uso não planejado da terra e outras atividade humanas estão mudando drasticamente a paisagem da Amazônia. Políticas para proteger o meio ambiente e evitar o desmatamento deveriam ser mais fortes para garantir a segurança do alimento de populações locais e da produção pesqueira.”

Para determinar o grau de conexão entre as populações de peixes e as florestas de várzea, os pesquisadores compilaram dois conjuntos de dados. O primeiro incluía a produção pesqueira em um período de 12 anos em uma área de estudo de mil quilômetros quadrados. Os pesquisadores criaram um mapa dos 1.500 lagos da região e entrevistaram pescadores locais sobre os tipos e quantidades de peixes capturados em diferentes áreas. Utilizando esses dados, a equipe determinou quais áreas específicas produziram a maior parte dos peixes.

“Coletamos cerca de 36 mil pontos de dados separados, que foram plotados para fazer um mapa com a origem dos peixes”, disse Castello.

Os pesquisadores usaram imagens de satélites da NASA para compilar um segundo conjunto de dados sobre as características do hábitat na mesma área, para determinar se a presença de florestas de várzea impactou a produção de peixes.

“Essencialmente, queríamos saber se a produção de peixes em áreas com várzeas florestadas é maior, do mesmo tamanho ou menor do que nas áreas onde a vegetação foi desmatada”, explicou Castello.

“Nossos resultados indicaram que lagos com várzeas florestadas forneceram áreas de pescsa com maior produção”, continuou. “Isso nos permite deduzir que se, se desmata a vegetação, a produtividade da pesca nesses lagos cai. O desmatamento tropical não é apenas um problema em terra firme - ele também pode diminuir o número de peixes disponíveis para algumas das populações mais pobres do mundo.”

A co-autora Laura Hess, pesquisadora associada ao Instituto de Pesquisa da Terra na Universidade da Califórnia em Santa Barbara, acrescentou: “Um estudo sobre áreas de pesca e cobertura terrestre, nesta escala, não tinha sido feito na Amazônia antes, então foi bastante satisfatório encontramos fortes evidências de associação.”

No futuro, os pesquisadores esperam expandir seu escopo para incluir outras variáveis que possam afetar a produção pesqueira, como a profundidade e a conectividade dos lagos estudados. Por ora, no entanto, Castello explica que as implicações políticas do estudo são claras.

“Precisamos proteger estes hábitats se queremos manter a produção de alimento e a renda que os rios fornecem”, disse. “Várzeas de rios produzem mais peixes do que qualquer outro sistema de água doce no mundo. Hoje, a Amazônia é única na medida em que a maioria das suas várzeas ainda estão intactas, mas se a vegetação continuar a ser desmatada e os hábitats  forem modificados, isso diminuirá a quantidade de peixes que as pessoas têm para comer e ganhar a vida. Se não protegermos essas áreas, perdemos os rios e perdemos os peixes.”

“McGrath acrescentou: “Este artigo nos dá as ferramentas necessárias para mostrar as trocas entre a criação de gado e o manejo de pesqueiros de várzea. Podemos usar este trabalho para mostrar às comunidades o que elas perdem ao não controlarem a densidade de gado nas várzeas, e ao converterem a vegetação em pastagem.”

Virginia Tech
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