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Dieta da mãe afeta circuitos cerebrais de suas crianças

Camundongos com alimentação pouco saudável durante gravidez tiveram filhotes que preferiam, na infância, gosto de gordura, e com alterações nos circuitos cerebrais na idade adulta  

Shutterstock
Pesquisadores franceses descobriram que camundongos que seguiram uma dieta pouco saudável durante a gravidez tiveram filhotes mais pesados, e que preferiam acentuadamente o gosto de gordura logo após o desmame. Embora a adoção de uma dieta balanceada na infância pareça reduzir o desejo do filhote por gordura, eles ainda assim mostraram alterações nos circuitos de recompensa no cérebro ao atingirem a idade adulta.

A dieta do ocidente é cheia de alimentos calóricos - de hambúrgueres a chocolates, consumimos quantidades significativas de gordura e açúcar. Os custos para a saúde são bem conhecidos, e problemas como obesidade e diabetes estão relacionados a comer em excesso.

Fatores básicos para a obesidade incluem o modo como metabolizamos a comida e nossa tendência a comer em excesso e a procurar por alimentos calóricos. O prazer que temos ao comer vem dos circuitos de recompensa do cérebro - e mudanças nesses circuitos podem contribuir para a alimentação em demasia.

Surpreendentemente, mães grávidas ou em período de amamentação que comam quantidades significativas de alimentos calóricos podem aumentar o risco de seus filhos virem a ser obesos mais tarde na vida. Contudo, os cientistas ainda não entendem por completo o mecanismo por trás desse fenômeno.

Em um estudo recentemente publicado na revista científica Frontiers of Endocrinology, cientistas utilizaram camundongos para pesquisar a relação entre a dieta da mãe e o peso de sua prole, a relação de seus filhos com comida e os seus circuitos cerebrais. A equipe de pesquisa alimentou os animais com uma dieta rica em gordura e açúcar (que chamavam de “dieta do ocidente”) ou com uma dieta balanceada durante a gravidez e a amamentação. Eles acompanharam os filhotes desde logo após o desmame, passando pela adolescência e chegando até o início da vida adulta.

Em um primeiro momento, uma vez que aconteceu o desmame, os filhotes receberam uma dieta balanceada; mas, em momentos específicos, os pesquisadores permitiram que alguns dos animais escolhessem entre provar um líquido gorduroso e um sem gordura. O líquido não era gorduroso o suficiente para afetar os filhotes, mas dava chance para que a equipe avaliasse a preferência deles por gordura. Utilizando amostras de tecido do cérebro, também investigaram a expressão gênica e as mudanças cerebrais associadas com os circuitos de recompensa dos filhotes.

Enquanto os filhotes das mães submetidas à dieta ocidental tinham um peso normal quando nasceram, eles ganharam mais peso durante a amamentação e estavam demasiadamente pesados à época do desmame. É possível que suas mães tenham produzido maior quantidade de leite, ou leite mais calórico.

Quando a equipe permitiu que os filhotes escolhessem entre os dois líquidos, aqueles nascidos de mães submetidas à dieta ocidental preferiram muito mais o líquido gorduroso em comparação aos filhotes de mães com dietas balanceadas.

No entanto, quando a equipe repetiu esse teste de preferência por gordura com filhotes adolescentes, descobriu que ambos os grupos mostravam uma preferência grande e similar por gordura - e, curiosamente, os filhotes de mães submetidas à dieta ocidental perderam gradualmente seu interesse por gordura após alguns dias. Talvez esse tenha sido um mecanismo compensatório para proteger os animais a mais exposição à gordura. Na idade adulta, ambos os tipos de filhotes possuíam uma forte e semelhante preferência por gordura.

Os animais de mães submetidas à dieta ocidental também mostraram mudanças significativas nos seus circuitos de recompensa, incluindo diferenças em uma região do cérebro chamada hipotálamo e mudanças na expressão gênica associada com um neurotransmissor chamado GABA.

“Estudos anteriores demonstraram que quando filhotes de mães submetidas à dieta ocidental têm acesso ilimitado a comidas não-saudáveis, eles mantêm sua preferência por alimentos gordurosos na adolescência”, diz Vincent Paillé, pesquisador envolvido no estudo. “Embora, em nosso estudo, os filhos de mães submetidas à dieta ocidental tenham mostrado grandes mudanças em seus circuitos de recompensa, parece que uma dieta balanceada durante a infância os protegeu de uma maior preferência por gordura na adolescência.”

Essas descobertas podem ter implicações para a nutrição e para a obesidade em crianças humanas de países ocidentais.

A equipe planeja investigar mais as mudanças nos circuitos de recompensa causadas pela dieta ocidental das mães. “O modo como esses circuitos de recompensa alterados integram informações pode sofrer alterações, e esses filhotes podem se comportar diferentemente quando sob estresse, ou quando têm livre acesso a alimentos gordurosos”, diz Paillé.

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