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Diplomacia e ciência viabilizam acordo com o Irã

Evidências científicas e diplomacia preparada viabilizaram détente nuclear com o Irã. 

SHUTTERSTOCK
Editorial da Nature.com, 14 de abril de 2015 [A Scientific American integra o Nature Publishing Group]

 

Em 2 de abril, após uma maratona extraordinária de esforços diplomáticos, negociadores de seis potências mundiais e o Irã alcançaram, contra todas as expectativas, um acordo tentativo para garantir que o programa nuclear iraniano seja, realmente, apenas para fins pacíficos.

Isso é diplomacia esclarecida baseada em ciência e política externa em sua forma mais primorosa.

Mesmo os mais otimistas entre os especialistas experientes em armas nucleares e sua não proliferação ficaram surpresos com a abrangência do acordo provisório; com seu nível de detalhe e as substanciais concessões feitas pelos dois lados.

Poucos haviam antecipado esse grau de progresso em vista das décadas de hostilidade e intransigência bilateral.

Em uma enxurrada talvez inédita de artigos publicados sobre opiniões e declarações, a esmagadora maioria dos peritos manifestou apoio ao acordo.

Eles também submeteram o documento a uma robusta revisão por pares on-line, destacando os resultados positivos, mas também apontando as lacunas técnicas e os detalhes que, em suas opiniões, ainda precisam ser negociados ou esclarecidos antes do prazo final de 30 de junho para um acordo definitivo.

A ênfase em obter avaliações científicas e técnicas que sustentem corretamente todas as questões, para dar a líderes políticos confiança nos resultados projetados, foi de extrema relevância para se chegar a esse ponto crítico.

Dois físicos, ambos do Massachusetts Institute of Technology (MIT), em Cambridge, na década de 70, desempenharam um papel fundamental em tudo isso: Ali Akbar Salehi, chefe da Organização de Energia Atômica do Irã, e Ernest Moniz, o atual secretário de Energia dos Estados Unidos.

Em longas discussões frente-a-frente, os dois remoeram e discutiram incansavelmente a complexa ciência nuclear para chegar a compromissos conciliatórios aceitáveis, que não cruzassem as linhas vermelhas de nenhum dos lados.

É importante ressaltar que os principais negociadores, o secretário de Estado americano John Kerry e ministro das Relações Exteriores do Irã, Mohammad Javad Zarif, aceitaram e incluíram seus conselhos científicos nas discussões.

Cientistas compartilham um linguagem, cultura e valores que podem ajudar a transcender políticas e inimizades.

Pesquisadores envolvidos em tratados passados sobre armas nucleares sustentam que colaboração científica entre adversários é crucial construir confiança e segurança, mas enfatizam que isso leva tempo.

O Irã vem sendo ostracizado por muitos governos há quase quatro décadas, e reconstruir essa confiança mútua levará anos.

O fato de essa aproximação estar acontecendo agora só pode ser elogiado; especialmente nessa época de excepcional instabilidade política no Oriente Médio, que inesperadamente alinhou alguns interesses estratégicos do Ocidente e do Irã.

Qualquer abrandamento, ou flexibilização, das sanções contra o Irã e seu isolamento político também beneficiará a comunidade científica “excluída” do país.

Especialistas são unânimes em sua opinião de que o esboço, ou estrutura do acordo mostra que ele essencialmente poderia colocar o programa nuclear iraniano “no gelo” por bem mais de uma década.

Isso daria às partes envolvidas o tempo necessário para construir uma confiança mútua maior e desenvolver outras medidas adicionais para garantir que qualquer futuro programa nuclear ampliado do Irã continue sendo pacífico.

O acordo bloquearia, por exemplo, o potencial caminho do país para uma bomba de plutônio, ao modificar seu reator de Arak, de água pesada, para torná-lo muito menos capaz de produzir esse material em um grau suficientemente puro para ser utilizado em armas atômicas.

Além disso, todo o combustível nuclear usado que contiver plutônio seria transportado para fora do país.

O potencial iraniano para produzir uma bomba com urânio enriquecido também seria reduzido, ou restringido, na medida considerada necessária por cientistas a fim de garantir que, no futuro previsível, o país precisaria de mais de um ano para “burlar” os termos do acordo e desenvolver uma arma nuclear.

Isso deixa tempo suficiente para uma intervenção internacional (ver página pág. 274 [Acordo nuclear iraniano dá esperança à ciência, em inglês]).

A Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), com sede em Viena, na Áustria, também receberia poderes sem precedentes para inspecionar todo o programa nuclear do Irã durante 25 anos para garantir que, se o país violasse o acordo, aberta ou clandestinamente, isso seria detectado prontamente.

Cientistas iranianos e de outras nacionalidades enfatizam a interação entre ciência e política.

De acordo com eles, o grande avanço só foi possível graças à eleição do relativo reformista Hassan Rouhani à presidência do Irã, em 2013, e de Barack Obama para a Casa Branca, em 2008.

Os dois líderes têm sido mais abertos a um diálogo pragmático e construtivo entre as duas nações que seus antecessores.

Críticos do acordo ainda têm de apresentar alternativas críveis e viáveis, ou apontar quaisquer desafios substanciais às suas bases técnicas, dependendo mais de retórica política e disseminar temor para justificar uma falta de ação proativa.

O já falecido ex-presidente americano Ronald Reagan famosamente adotou o provérbio russo “Confie, mas verifique” quanto ao monitoramento de tratados de desarmamento nuclear com a antiga União Soviética.

Uma vez mais, é hora para que políticas progressistas prevaleçam sobre uma perigosa inércia.

 

Publicado em Nature, em 16 de abril de 2015. [A Scientific American integra o Nature Publishing Group]