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Preconceito racial e sexual nas universidades americanas

Estudo constata comportamento tendencioso de acadêmicos no apoio a estudantes interessados na carreira 

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Um estudo sobre a probabilidade de professores universitários responderem à solicitação de entrevista de um estudante de graduação para discutir oportunidades de pesquisa mostrou que eles tendem a preferir candidatos masculinos brancos a mulheres, negros, hispânicos, indianos e chineses

Por By Elizabeth Gibney e Nature News Blog

A maioria das pessoas concordaria que mulheres e minorias étnicas já enfrentam mais obstáculos no mundo acadêmico que seus colegas brancos do sexo masculino. A falta de mentores, uma discriminação ocasionalmente ostensiva e a falta de equilíbrio entre vida pessoal e de trabalho dos acadêmicos são questões bem documentadas. Agora, um estudo sugeriu que esses grupos podem estar em desvantagem antes mesmo do “tiro de largada da vida acadêmica”.

Um estudo publicado em 22 de abril (atualmente em revisão) analisou a probabilidade com que professores contratados pelas universidades respondem ao pedido de um universitário para discutir informalmente possíveis oportunidades de pesquisa — um cenário escolhido como substituto para os muitos eventos informais que poderiam impulsionar uma carreira acadêmica, mas que ficam fora das averiguações formais e dos balanços das instituições. Os pesquisadores constataram que, na maioria esmagadora dos casos, os professores de todos os grupos eram mais propensos a responder a estudantes homens brancos, que a mulheres, negros, hispânicos, indianos ou chineses. Acadêmicos de universidades particulares e de matérias que recompensam mais, em média, foram os mais indiferentes.

Katherine Milkman da University of Pennsylvania, na Filadélfia, juntamente com seus colegas Modupe Akinola, da Columbia University,em Nova York, e Dolly Chugh, da New York University, enviaram e-mails falsos a 6.548 professores em 259 instituições de ensino superior americanas, fingindo serem estudantes que queriam discutir oportunidades de pesquisa antes de se candidatar a um programa de doutorado. As mensagens foram idênticas, exceto por seus autores fictícios, cujos nomes foram escolhidos por serem reconhecíveis por gênero e etnia, onde “Steven Smith” representava, por exemplo, um homem branco, e “Latoya Brown” uma mulher negra.

Em todas as disciplinas, exceto em Artes (onde a tendência foi invertida), homens brancos apresentaram mais probabilidades de receber uma resposta que mulheres e minorias étnicas. As áreas de economia e negócios refletiram a maior disparidade, com 87% dos candidatos brancos recebendo uma resposta em comparação com apenas 62% dos estudantes do sexo feminino e das minorias. No campo das ciências, os docentes em engenharia e ciências da computação, matemática e ciências naturais e físicas demonstraram preconceitos significativos contra minorias e mulheres.

Quando divididos por grupos os resultados foram mais acentuados. Estudantes asiáticos foram alvos do maior preconceito, embora pesquisas mostrem que opiniões estereotipadas sobre asiáticos no muno acadêmico em geral são positivas, observa Katherine Milkman. Entre acadêmicos de universidades particulares a taxa de respostas favoráveis a homens brancos ficou 29 pontos percentuais acima do de mulheres chinesas, exemplificou. Enquanto isso, nas áreas de ciências naturais e físicas e matemática, houve menos preconceito, não significativo do ponto de vista estatístoco, em favor de mulheres hispânicas.

O estudo não encontrou nenhuma relação entre a representação de um grupo acadêmico em uma dada disciplina e o grau de preconceito que estudantes enfrentaram ao tentarem interagir com eles. Isso significa que os resultados não podem ser atribuídos ao fato de o corpo docente masculino branco, como um todo, preferir se associar com seus iguais, adverte Milkman. “Uma de nossas hipóteses era que, quanto mais diferentes os departamentos menos tendenciosos eles seriam e nós simplesmente não víamos isso”, explica. A única exceção foi entre docentes chineses, que se mostraram menos propensos que seus colegas a discriminar estudantes chineses.

Curt Rice, um professor da Universidade de Tromsø, na Noruega, e chefe do Comitê da Noruega para o Equilíbrio de Gênero em Pesquisa, diz que o resultado de mulheres e minorias se comportarem de modo tão preconceituoso quanto homens brancos não é surpreendente. Esses dados espelham um estudo de 2012, realizado por pesquisadores da Yale Universityem New Haven, Connecticut, que mostrou que docentes da área de ciências, de ambos os sexos, demonstraram preconceitos inconscientes contra mulheres em decisões de contratação e pagamento. O problema, segundo Rice, é um preconceito implícito em vez de explícito. “Estamos falando do efeito de estereótipos culturais que levam à formação de preconceitos”, explica. “Não é surpresa que eles façam parte de todos nós, uma vez que são subconscientes e o resultado de estereótipos culturais a que todos nós estamos expostos”.

Comparando resultados interdisciplinares, a equipe constatou efeitos mais intrigantes. Quanto mais bem pago, em média (por assunto) o corpo docente, maior a diferença no índice de respostas entre homem branco e outros estudantes. “Para cada US$ 13 mil em aumento salarial, observamos uma queda de 5 pontos percentuais na taxa de respostas em comparação com homens caucasianos”, revela Milkman. Ela associa a constatação a estudos que recentemente constataram que pessoas ricas, de status elevado, tendem a ser menos empáticas e mais egoístas (centradas em si mesmas). Os preconceitos também foram mais prevalentes em instituições privadas que em públicas, acrescenta.

Embora o estudo analise apenas um pequeno passo no caminho para uma carreira acadêmica bem-sucedida, Rice acredita que o efeito conjunto de muitas situações como essas poderiam muito bem ajudar a explicar por que encontramos tão poucas mulheres e pessoas de ascendência minoritária em nível docente. Milkman concorda: “Essa é apenas uma situação; é um momento em que alguém estende a mão em busca de orientação e incentivo. Mas se você ceder toda vez que isso acontece com você, as coisa se somarão”.

Este artigo foi reproduzido com permissão da revista Nature. Ele foi publicado originalmente em 25 de abril de 2014.

Sciam 27 de abril de 2014

sciambr29abr2014