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Diversas soluções para mudanças climáticas já funcionam

Mesmo com o mundo emitindo mais carbono, a mudança começou – e está acelerando

 

© David Biello
Explosão de Energia Limpa: grandes represas e pequenos paineis solares como esses na China estão ajudando a produzir eletricidade com menor emissão de gases de efeito estufa, uma de várias soluções para a mudança climática que avançam no mundo. 


Por David Biello 

Um homem que já voou de Washington até Copenhague apenas para dizer a jornalistas que as mudanças climáticas não eram nada muito importante provavelmente deve voltar a comandar (ou pelo menos influenciar) o comitê ambiental do Senado dos Estados Unidos. O senador James Inhofe (Republicano de Oklahoma) declarou, em dezembro de 2009, ter ido a Copenhague para “garantir que ninguém esteja trabalhando sob a impressão errônea de que o senado americano fará alguma coisa” a respeito da mudança climática. Suas ideias provavelmente não mudarão até 2015; de fato, Inhofe já denunciou o novo acordo climático entre Estados Unidos e China como sendo uma “piada sem valor”. 

Ainda que os Estados Unidos sejam responsáveis pela maior parte do dióxido de carbono e outros gases de efeito estufa na atmosfera, o país não será capaz de tomar ações legislativas sobre mudanças climáticas no futuro próximo.

Apesar de o presidente afirmar que “aqueles que já estão sentindo os efeitos da mudança climática não têm tempo para negá-la – eles estão ocupados lidando com ela”, o congresso americano parece satisfeito em deixar as mudanças climáticas definharem como prioridade.

Ações americanas relacionadas ao clima já estão se convertendo em uma briga pela aprovação do Oleoduto Keystone XL, que permitiria o transporte de mais petróleo das areias negras do Canadá e a implementação do Plano de Energia Limpa, conhecido por alguns como “guerra ao carvão”. De fato, o novo Líder da Maioria no Senado, Mitch McConnell (Republicano do Kentucky) foi reeleito em parte devido a uma campanha reduzida a um adesivo de paralama: “Carvão. Armas. Liberdade”.

Como resultado de uma complacência ou intransigência semelhante ao redor do globo, a poluição por gases estufa continua a aumentar e concentrações atmosféricas agora já atingem 400 partes por milhão.

 A Austrália elegeu um cético climático como primeiro ministro que imediatamente repeliu suas taxas de carbono – e fez a poluição disparar em 2014. De fato, o mundo está tão ocioso que o Painel Intergovernamental das Nações Unidas sobre a Mudança Climática agora sugere que tecnologias para remover o CO2 da atmosfera serão necessárias para evitar um aquecimento global excessivo neste século.

Mas, acredite ou não, existem ações sobre a mudança climática ocorrendo nos Estados Unidos. “Nós não temos tempo para uma reunião com a Sociedade da Terra Plana”, observou o presidente Barack Obama em junho de 2013. Assim, sua administração acabou avançando sem o Congresso, por meio do Plano de Energia Limpa da Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos e do novo acordo com a China para reduzir a poluição. 

Aqui temos sete soluções para o aquecimento global que estão avançando e ganhando apoio nos Estados Unidos – e no mundo todo.

1. Usinas de Energia Limpa – Mais de 20% das novas grandes usinas elétricas construídas nos Estados Unidos em 2013 empregam a luz do sol para gerar eletricidade. E isso não inclui painéis solares no telhado de casas, que sozinhos adicionaram quase dois gigawatts de capacidade energética no ano passado. Além disso, o gás natural substituiu o carvão como a maior nova fonte de energia elétrica. A revolução do xisto permitiu que os Estados Unidos reduzissem suas emissões de dióxido de carbono “enquanto sustentavam seu crescimento econômico ao mudar do carvão para o gás”, aponta Nobuo Tanaka, ex-diretor da Agência Internacional de Energia (IEA) e atualmente professor visitante da Columbia University.

Das duas usinas elétricas movidas a carvão que foram completadas no ano passado, uma foi a instalação de gaseificação do carvão em Edwardsport, Indiana, que poderia um dia incorporar tecnologias para capturar suas emissões de CO2. A nova usina emite metade do CO2/megawatt-hora da antiga usina a carvão que foi substituída.

Ainda que os Estados Unidos estejam aposentando mais reatores nucleares do que estão construindo, o mesmo não vale para a China. Além de seus 22 reatores operantes, o país tem 26 em construção e planeja produzir ainda mais. Isso ocorre porque a liderança chinesa vê a energia nuclear como uma das maneiras fundamentais – além da energia solar, eólica e hidrelétrica – de reduzir a queima de carvão do país, responsável tanto pela poluição sufocante do ar quanto pelas emissões de gases estufa cada vez maiores.

Sem a energia nuclear, a IEA e outros especialistas em energia sugerem que reduzir a mudança climática pode se provar impossível. De qualquer forma, a energia nuclear atual, junto com a energia hidrelétrica, fornece a maior parte da produção elétrica de baixo-carbono. “Nós precisamos de tudo”, declara Tanaka. “Precisamos de CSS (captura e armazenamento de carbono). Precisamos de energia nuclear. Precisamos de renováveis”.

2. Ações Locais – Em 2008, seis estados do nordeste dos Estados Unidos lançaram um esforço regional para limitar a emissão de CO2 por parte de usinas elétricas da região através do uso de fontes alternativas e programas de eficácia energética. Em 2014, o esforço já inclui nove estados e já ajudou a reduzir essas emissões de gás estufa quase pela metade. De fato, o programa teve tanto sucesso que os estados concordaram em reduzir a limitação geral em outros 45% começando este ano.

A Iniciativa Regional de Gás Estufa (RGGI), chamada de “Reggie”, não é a única ação climática dos Estados Unidos na ausência de programas federais. A Califórnia criou seu próprio mercado de limitação e comércio e tem, junto com outros 34 estados, alguma forma de incentivo para a eletricidade gerada a partir de fontes menos poluidoras, como o vento, o Sol e o calor geotérmico.

Grandes e pequenas cidades, como Nova York e Dubuque (Iowa), estabeleceram metas para reduzir emissões de gases estufa. De fato, cidades de todo o mundo estão reduzindo CO2 em uma tentativa de autopreservação, e algumas, como Copenhague e Melbourne, estão tentando anular qualquer CO2 emitido com CO2 absorvido ou evitado.

Como resultado dessas ações – e do aumento na geração de fontes energéticas mais limpas – a poluição por gases estufa dos Estados Unidos caiu em 10% desde 2005. E a próxima eleição talvez leve outro estado membro para a RGGI: a Pensilvânia.

3. Controle de vazamentos de metano – O Colorado se tornou o primeiro estado do país a tentar abordar o metano – um gás estufa ainda mais potente que o CO2. Vazamentos em oleodutos, tanques de armazenagem e outras infraestruturas terão que ser consertados poucos dias após sua descoberta, além de outras regulamentações administradas pela Comissão de Qualidade do Ar do Colorado. O estado das Rochosas provavelmente não ficará sozinho ao agir para controlar esse tipo de poluição.

Até mesmo o governo federal está agindo nesse caso. A administração Obama implementou novas regras para capturar o metano vazando de depósitos de lixo, minas de carvão e das pilhas de estrume criadas por grandes fazendas animais. E tanto a Agência de Proteção Ambiental quanto o Bureau de Administração de Terra dos Estados Unidos estão considerando regras relativas ao metano para a indústria de petróleo e gás. Em nível local, o Google se uniu a grupos ambientais e cidades para identificar vazamentos em infraestruturas antigas de gás.

Atualmente o metano é responsável por 9% da poluição estufa dos Estados Unidos – e esse número continua aumentando devido ao uso da fratura hidráulica na exploração de petróleo e gás. De fato, esse número não inclui todo o metano incinerado – isto é, queimado como precaução para evitar explosões, mas liberando CO2 no processo. Assim, ações contra o metano podem conseguir mais tempo para abordar o problema cada vez maior da poluição por CO2.

4. Padrões Mais Rígidos de Emissão e Eficiência – Novos padrões para carros estão se tornando um fenômeno global, como regras mais rígidas na China, na União Europeia ou nos Estados Unidos. Conforme o mundo se aproxima da marca de dois bilhões de veículos, garantir que esses carros emitam menos poluição – tanto óxidos de nitrogênio que formam smog quanto dióxido de carbono que aprisionam o calor – será crucial, seja por meio de motores de combustão interna mais eficientes ou híbridos melhores. Carros elétricos, incluindo o Chevy Volt, Nissan LEAF e o Tesla Model S também podem ajudar, desde que a eletricidade não venha da queima de combustíveis fósseis.

Ao mesmo tempo, usinas elétricas enfrentam exigências cada vez mais rígidas para a poluição do ar. Como resultado, a poluição dos Estados Unidos já está 10% abaixo dos níveis de 2005, e cairá ainda mais. “Você não pode construir uma usina de carvão nos Estados Unidos a menos que ela se adeque aos padrões de redução de emissões”, explica Ethan Zingler, diretor de análise política da Bloomberg New Energy Finance. “Isso faz com que as pessoas escolham a opção mais barata, que é uma nova usina a gás”. Um dia, até mesmo usinas elétricas movidas a gás natural podem ter que empregar captura e armazenagem de CO2, assim como as novas usinas a carvão fazem no Mississippi e no Texas atualmente.

Além disso, novos padrões de eficiência para eletrodomésticos, de ar-condicionado a lavadora, ajudaram a limitar o crescimento da demanda energética, além de melhorias em tecnologia básica, como diodos emissores de luz (LEDs) substituindo lâmpadas incandescentes menos eficientes.

5. Fazendas Mais Verdes – O Departamento de Agricultura dos Estados Unidos está ajudando agricultores a se adaptarem à mudança climática, mesmo que eles não acreditem no aquecimento global. Centros climáticos regionais estão fornecendo agentes de extensão com apoio técnico para lidar com a mudança do clima, incluindo a preservação de zonas úmidas para reduzir tanto a erosão quanto inundações.

Florestas nacionais e pradarias agora serão administradas com o objetivo de armazenar CO2, além de outras metas. Agricultores já começaram a adotar várias técnicas para reduzir emissões de gases estufa, incluindo agricultura de precisão para plantar safras com mais eficiência, cultura de cobertura para reduzir a erosão do solo e biodigestores para reduzir excreções animais.

Por fim, fazendas podem até mesmo ajudar na redução da mudança climática ao fornecer safras energéticas para biocombustíveis. O combustível produzido a partir dessas plantas, junto com o tipo de CSS usado em usinas a carvão, poderia até mesmo começar a reduzir a quantidade de CO2 já presente na atmosfera. E o replantio de florestas dos Estados Unidos, possível com a redução da quantidade de solo destinado à agricultura, já está ajudando a reduzir o aquecimento global.

6 – Ações do Setor Privado – Não são apenas gigantes tecnológicas como Apple e Google que estão alimentando data centers com energia eólica e solar. Não são apenas gigantes alimentícias como a General Mills e a PepsiCo que estão preparando seus negócios para a escassez de água e safras previstas pela mudança climática. Não são nem os preços internos de carbono empregados por empresas de petróleo como a Shell e a ExxonMobil. É o fato de que – à exceção de empresas de carvão, de algumas utilitárias carvoeiras e da Câmara de Comércio dos Estados Unidos – é difícil encontrar empresas que não aceitem a ciência do aquecimento global ou tenham planos para lidar com ela.

O simples fato é que a mudança climática também significa mudanças em modelos de negócios, tanto para gigantes de seguros como a Swiss Re, enfrentando riscos climáticos extremos, ou para uma utilitária como a NRG Energy, enfrentando novas regulamentações.

Por fim, também existem os consumidores que desejam um novo relacionamento com a produção e os produtores de energia. E para empresas de energia como a Alstom, General Electric, Siemens, Toshiba ou Westinghouse, fortunas serão acumuladas – ou perdidas – conforme a China e outros países em desenvolvimento rápido constroem opções energéticas mais limpas.

7 – Novos tipos de consenso geopolítico – Em 12 de novembro, a China e os Estados Unidos, os dois maiores países poluidores do mundo, assinaram um acordo para combater a mudança climática. A China limitará suas emissões de CO2 até 2030 e planeja obter 20% de sua eletricidade a partir de energia eólica, solar, represas e fissão nuclear.

Os Estados Unidos vão corrigir sua trajetória para reduzir a poluição, tentando dobrar a taxa anual de declínio de apenas 1% ao ano para mais de 2% ao ano. Combinado com as promessas de 28 países da União Europeia de também reduzir o CO2 no mesmo período de tempo, mais da metade da poluição global atual deve ser reduzida nas décadas futuras. “A política dos dois países será mais fácil se ambos avançarem juntos”, aponta Jennifer Morgan, diretora global do programa climático do Instituto de Recursos Mundiais (WRI). “Se ambos agirem juntos, outros não poderão se esconder atrás deles e isso pode inspirar ambições ainda maiores”.

Mas o acordo entre Estados Unidos e China não é o único avanço internacional. Brasil e Indonésia – os dois países com o desmatamento mais acelerado do mundo – estão tentando mudar de curso.

Ao mesmo tempo, países em desenvolvimento estão tentando abandonar combustíveis fósseis em sua busca pela prosperidade. O Quênia já se tornou o foco mundial para energia geotérmica, graças ao Vale do Rift, onde a geologia aproxima rochas quentes da superfície. Tanto o Brasil quanto a Índia já tomaram importantes medidas em busca de mais energia solar. E uma pesquisa recente realizada pela Bloomberg New Energy Finance descobriu que 55 países em desenvolvimento instalaram quase duas vezes mais energia renovável que países desenvolvidos entre 2008 e 2013. “Se você estiver queimando diesel para iluminar sua casa, isso não é muito bom”, observa Zindler, da Bloomberg. “Agora você pode substituir isso por fotovoltaicos”, graças à redução de preço dessas tecnologias mais limpas nos últimos anos. 

Isso é algo que indivíduos podem fazer: engrossar as fileiras cada vez maiores de lares solares. Mas, pelo menos nos Estados Unidos, existe outra ação que é provavelmente mais importante para a luta contra a mudança climática no longo prazo: votar em políticos e políticas que prometem ação climática. Como aponta Morgan, do WRI, para impedir que a temperatura média global suba mais de dois graus Celsius até 2100, “o passo e a escala da mudança precisam aumentar dramaticamente”.