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Doenças infecciosas proliferam em meio à agitação política da Venezuela

Cientistas atribuem a epidemia à supressão da pesquisa pelo governo, falta de dados atualizados e mudanças climáticas

Casos de malária, dengue, zika e outras doenças graves atingiram níveis alarmantes na Venezuela e estão se espalhando para países vizinhos, de acordo com vários estudos recentes.

Essas doenças que se propagam através de vetores - transmitidas por mosquitos ou outros organismos - aumentaram em até 400% na Venezuela na última década, de acordo com um estudo de revisão publicado na revista The Lancet, em fevereiro. A espiral de turbulência econômica e política agravou a situação, assim como a aparente hostilidade do governo em relação aos pesquisadores que publicam dados epidemiológicos - com relatos de grupos paramilitares pró-governo que esmagaram laboratórios e até mesmo roubaram camundongos de experimentos. "No ano passado tivemos mais de 600.000 casos [de malária] relatados pelo governo", diz a co-autora do estudo, Maria Eugenia Grillet, uma ecologista de doenças tropicais da Universidade Central da Venezuela em Caracas. Ela e seus co-autores estimaram que havia cerca de 1,2 milhão de casos, levando em conta subnotificações e recaídas de doenças, observa Grillet. (Recaídas ocorrem quando um paciente se recupera, mas ainda carrega o parasita causador da malária e depois sofre uma recorrência dos sintomas.) Ela atribui o aumento à falta de vigilância, tratamento e controle antimaláricos, que se devem, em parte, a cortes no financiamento. “A pesquisa em nossas universidades e laboratórios está quase completamente paralisada porque não há programas de financiamento que nos permitam cobrir as necessidades básicas para realizar nossos experimentos ou trabalhos de campo”, diz ela.

A Venezuela já foi líder na prevenção e controle de doenças transmitidas por vetores. Em 1961, a Organização Mundial da Saúde certificou a nação sul-americana como a primeira do mundo a eliminar a malária da maior parte de seu território; e a OMS utilizou o programa de erradicação da malária que a Venezuela desenvolveu nos anos 1950 como modelo de saúde pública. Esse e outros esforços reduziram a prevalência de muitas doenças transmitidas por vetores a níveis administráveis nos anos 1990. Mas nos últimos anos, uma confluência de eventos - alguns políticos e econômicos, outros ambientais - reverteu esses ganhos.

Em 2013, o então presidente Hugo Chávez morreu no cargo e seu colaborador próximo, Nicolás Maduro, tornou-se presidente em uma eleição controversa. Sob a liderança de Maduro, as iniciativas de saúde pública foram reduzidas e a notificação de doenças estagnou. O Ministério do Poder Popular para a Saúde (MPPS) parou de publicar em 2015 o boletim semanal de estatísticas epidemiológicas, que - com exceção de um hiato de cinco meses em 2007 - era publicado continuamente desde 1938. Maduro demitiu a ministra da Saúde Antonieta Caporale em 2017, após seu ministério publicar um boletim que informava o aumento das taxas de mortalidade infantil e materna, bem como o aumento dos casos de malária, difteria e zika. No ano seguinte, o governo eliminou o Centro Venezuelano de Classificação de Doenças, uma organização que fornecia à OMS e à Organização Pan-Americana da Saúde estatísticas de infecção e mortalidade. (Pedidos repetidos por telefone e e-mail para comentários ao MPPS não foram respondidos.)

A falta resultante de dados públicos disponíveis sobre doenças transmitidas por vetores forçou os pesquisadores a buscar fontes alternativas. Flor Herrera, bióloga molecular da Universidade de Carabobo, na Venezuela, publicou em fevereiro um estudo na revista Emerging Infectious Diseases sobre parasitas da malária em Sifontes, um município do sul da Venezuela onde a maioria dos casos está ocorrendo. Herrera diz que sua equipe precisou obter dados diretamente da equipe das unidades de saúde locais. “Antes de 2015, qualquer pessoa tinha acesso livre a dados epidemiológicos”, mas “a melhor maneira de corroborar [dados] agora não está mais disponível”, diz ela. "Você não encontrará nada."

Alguns pesquisadores que insistiram em publicar determinados dados de saúde enfrentaram represálias. O co-autor do estudo publicado na revista Lancet, Oscar Noya, disse que membros de um grupo paramilitar pró-Maduro chamado Colectivo la Piedrita vandalizaram repetidamente seu laboratório na Universidade Central porque ele reporta dados sobre a malária à Organização Pan-Americana da Saúde. Noya afirma que os integrantes do Colectivo esmagaram equipamentos de laboratório, quebraram janelas e destruíram computadores. O incidente mais recente supostamente ocorreu em novembro passado - quando Noya diz que os paramilitares roubaram dezenas de ratos que haviam sido infectados com a doença de Chagas para um experimento. "Nos últimos dois anos, fomos atacados 74 vezes", diz Noya. “O propósito disso é a intimidação. Eles [não querem que nosso grupo] forneça mais dados sobre o sistema de saúde na Venezuela. ”

RETROCESSO PODE AFETAR TODA A REGIÃO

“Contamos com sucessos no passado para nos ajudar a manter uma boa saúde pública”, diz Tara Sell, pesquisadora do Centro Johns Hopkins para a Segurança da Saúde, que não esteve envolvida no estudo da Lancet. “Se essas práticas pararem, começamos a recuar - e é preciso muito esforço para deter esse revés e voltar ao ponto onde estávamos antes.”

A investigação descobriu que havia menos de 50.000 casos de malária na Venezuela em 2001 e as taxas permaneceram próximas a esse nível para a próxima década. Mas em 2013, o número de casos começou a subir acentuadamente. Em 2016, havia mais de 240.000; em 2017, o número saltou para cerca de 412.000 e continuou a subir. Epidemias regionais - de chikungunha, em 2014, e zika, em 2015 - foram potencializadas na Venezuela pela crise econômica do país e pela escassez de suprimentos médicos, de acordo com a revisão. Um estudo não publicado por um de seus co-autores estima que o zika pode estar infectando até 80% das mulheres grávidas na Venezuela.

Os co-autores da análise alertam que a crise pode desencadear uma epidemia nos países vizinhos, já que os venezuelanos estão emigrando aos milhões. Os autores dizem que os imigrantes venezuelanos sofreram 45% e 86% dos casos de malária nos municípios limítrofes do norte do Brasil, Pacaraima e Boa Vista, respectivamente. Mas é difícil determinar quantos migrantes podem ter trazido doenças e quantos foram infectados depois de chegarem aos países de acolhimento. O co-autor Martin Llewellyn, um epidemiologista da Universidade de Glasgow, reconhece essa incerteza e acrescenta os planos de sua equipe para conduzir estudos de epidemiologia molecular a fim de determinar as origens da infecção.

Anna Stewart Ibarra, ecologista de doenças tropicais do Instituto de Saúde Global e Ciência Translacional da Universidade Estadual de Nova York, é co-autora de um estudo em andamento sobre Doenças Infecciosas Emergentes de casos de malária entre os migrantes venezuelanos no Equador. Ibarra diz que o financiamento internacional para vigilância no Equador secou depois que a malária foi erradicada nas regiões fronteiriças do país em 2011. “Fomos pegos sem recursos e infraestrutura de vigilância, porque as fontes globais de financiamento para esses programas de controle da malária desapareceram há algum tempo” ela diz. A incidência regional de doenças transmitidas por vetores é causada por uma miríade de fatores, observa Ibarra. "Mas a crise na Venezuela está realmente empurrando-a para o limite."

As condições ambientais podem estar exacerbando a situação já desesperada. O ciclo El Niño de 2015–16 levou às temperaturas mais quentes já registradas na Venezuela e, entre 2013 e 2016, a precipitação no país foi de 50% a 65% menor do que o normal. Secas e temperaturas elevadas podem contribuir para a proliferação de mosquitos transmissores de doenças, diz Shlomit Paz, climatólogo da Universidade de Haifa, em Israel, que não esteve envolvido nos estudos citados acima. “Podemos ver que em todo o mundo há um aumento nas doenças transmitidas por vetores, e a ligação com a mudança no clima é muito clara”, diz ela.

O co-autor da revista Lancet, Peter Hotez, reitor da Escola Nacional de Medicina Tropical do Baylor College of Medicine, diz que a situação na Venezuela pode ser um exemplo extremo de um fenômeno epidemiológico mais geral que afeta todo o Hemisfério Ocidental. "Acho que estamos começando a ver isso como um novo padrão maior nas Américas", diz ele. "E eu não acho que nós realmente entendemos o porquê. É a mudança climática? É migração humana? É a pobreza? É uma confluência de todos esses fatores.”

Jim Daley

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