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É possível medir fenômenos supernaturais ou paranormais?

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A história da ciência observou a substituição do supernatural e do paranormal pelo normal e natural. Eventos climáticos, antes atribuídos à intrigas de divindades, são agora entendidos como o produto das forças naturais de temperatura e pressão. Hoje sabe-se que pragas são causadas por bactérias e vírus e não por mulheres que brincam com o diabo.  Doenças mentais que já foram creditadas à possessão demoníaca são, hoje, procuradas nos genes e na neuroquímica. Acidentes explicados pelo destino karma, divina providência, atualmente são atribuídos a probabilidade, estatística e risco.

Se seguirmos essa tendência e englobarmos, assim, todos os fenômenos, que espaço teriam as forças paranormais, como a percepção extrassensorial (ESP) ou agentes sobrenaturais, como Deus? Nós sabemos o suficiente para saber que eles não existem? Ou é possível que existam forças desconhecidas no nosso universo ou agentes intencionais fora dele que ainda precisemos descobrir? De acordo com o físico do Instituto de Tecnologia da Califórnia,  Sean Carroll, em sua perspicaz obra The Big Picture, “Todas coisas que você já viu ou experienciou na sua vida —objetos, plantas, animais, pessoas — são feitas de um pequeno número de partículas, interagindo umas com as outras através de um pequeno número de forças.” Quando você entender as leis fundamentais da natureza, você pode aumentar a escala para os planetas e pessoas e até mesmo avaliar a probabilidade de Deus, da alma, do além e da ESP existirem, que, como Carroll conclui, é bem baixa.

Mas a história da ciência também não foi semeada com os restos de teorias falhas, como a do flogisto, a miasmática, a geração espontânea e o éter luminífero? Sim, e é assim que sabemos que estamos progredindo. A crença pós moderna de que ideias descartadas significam que não há realidade objetiva e que todas as teorias são iguais é mais errada do que todas as teorias erradas juntas. A razão tem a ver com a relação entre o conhecido e o desconhecido.

Como a esfera do conhecido se expande para o desconhecido, a proporção de ignorância parece crescer — quanto mais você sabe, mais você sabe o quanto você não sabe. Mas note o que acontece quando o raio de uma esfera aumenta: o aumento na área da superfície é elevado ao quadrado, enquanto o aumento do volume é elevado ao cubo. Da mesma maneira, à medida que o raio da esfera do conhecimento científico dobra, a área de superfície do desconhecido aumenta ao quadrado, mas o volume do conhecido aumenta ao cubo. É nesse limite que podemos afirmar que existe um verdadeiro progresso na história da ciência.

Pegue nosso entendimento de partículas e forças, o qual, afirma Carroll, “parece indisputavelmente preciso dentro de um domínio bem amplo de aplicabilidade,” de tal modo que “daqui a mil ou um milhão de anos, seja lá quais forem as descobertas maravilhosas que a ciência terá feito, nossos descendentes não dirão ‘Haha, aqueles cientistas tolos do século 21, acreditando em nêutrons e electromagnetismo.” Assim, Carroll conclui que as leis da física “excluem a possibilidade de verdadeiros poderes psíquicos.” Por que? Porque as partículas e forças da natureza não nos deixam dobrar colheres, levitar ou ler mentes, e “nós sabemos que não existem novas partículas ou forças para serem descobertas que dariam suporte a isso. Não simplesmente porque nós não as descobrimos ainda, mas porque nós definitivamente teríamos as encontrado se elas tivessem as características certas para nos dar os poderes necessários.”

E um Deus sobrenatural? Talvez uma entidade assim exista fora da natureza e suas leis. Se sim, como faríamos para detectá-lo com nossos instrumentos? Se uma entidade usasse forças naturais para, digamos, curar o câncer de alguém através da reprogramação do DNA da célula cancerosa, isso tornaria Deus nada mais do que um habilidoso engenheiro genético. Se Deus usasse poderes sobrenaturais desconhecidos, como elas interagiriam com as forças naturais conhecidas? E se essas forças sobrenaturais pudessem, de alguma maneira, mover as partículas do universo, nós não deveríamos ser capazes de detectá-las e, portanto, incorporá-las nas nossas teorias sobre o mundo natural? Por isso o sobrenatural?

É no horizonte de onde o conhecido encontra o desconhecido que nos sentimos tentados a injetar o paranormal e o sobrenatural para explicar mistérios até agora sem solução, mas nós devemos resistir à tentação porque esses esforços não podem nunca serem bem-sucedidos, nem em princípio.

 

Michael Shermer