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Tratamento de malária em Serra Leoa enfrenta problemas

Uso de medicamentos em massa pretendia tratar pessoas com sintomas parecidos com Ebola evitando falsos diagnósticos

 

Por Amy Maxmen e revista Nature

Sogbandi Botton foi contratado pelo governo serra-leonês para rastrear pessoas que apresentassem sintomas de infecção pelo vírus Ebola e encaminhá-las a cuidados médicos.

No entanto, o estudante de medicina ressalta que a maioria das queixas de saúde que tem escutado ultimamente pode ser associada aos efeitos colaterais de um medicamento antimalárico. “As pessoas vomitam e se sentem muito cansadas”, explica. “Duas delas nem sequer conseguiram se levantar”.

No início de dezembro, agentes dos serviços de saúde pública distribuíram medicação antimalárica a 2,52 milhões de pessoas em Serra Leoa. Oesforço visava reduzir o número de casos da doença, transmitida por mosquitos do gênero Anopheles, à medida que a enfermidade se aproxima de sua estação de pico, e assim controlar o número de pessoas cujos sintomas poderiam ser confundidos com os de Ebola.

O governo serra-leonês planeja fazer outra distribuição em massa em meados deste mês. Mas os efeitos colaterais dos fármacos podem limitar a eficácia dessa abordagem, conhecida como administração de medicamentos em massa (MDA, em inglês).

Pessoas relatam fadiga e náuseas, reações adversas que podem ser intensificadas se elas tomarem comprimidos demais de uma só vez, ou ingerirem os medicamentos com o estômago vazio.

Como informações sobre esses problemas se espalharam, algumas pessoas optaram por simplesmente não tomar a medicação, ou não seguir as instruções corretamente.

“Não sei qual é a dose certa e escutei coisas diferentes”, confessa Fatamata Kamara, de Kroo Bay, uma favela na capital Freetown. “Sei que [o remédio] deixou algumas pessoas muito doentes e estou com medo de ir para o hospital e contrair Ebola”, arremata.

Mas a relutância de Kamara em tomar a medicação antimalárica aumenta justamente a probabilidade desse problema.

Como as febres da malária são similares às de infecções por Ebola, toda pessoa com temperatura elevada é encaminhada a uma clínica para ser testada. O problema é que ali essas pessoas têm de esperar horas ou dias pelo diagnóstico ao lado outras suspeitas de terem Ebola.

O medo de contrair o vírus parece ter levado pacientes com malária a não procurar tratamento: em agosto de 2014, o número de crianças diagnosticadas com o parasita foi 50% menor que no mesmo mês em 2013.

Remédio forte

Em Mali, no Senegal e em outros países africanos foram utilizadas terapias preventivas mais suaves contra a malária.

Em Serra Leoa, porém, a resistência a essas drogas mais leves levou as autoridades a optar por uma combinação de artemisinina, o mais potente fármaco antimalárico, e amodiaquina, embora se saiba que esse tratamento tem efeitos colaterais que incluem náuseas e tonturas.

Essa combinação também foi escolhida porque os cerca de 6 milhões de serra-leonenses a utilizam rotineiramente como tratamento contra a doença infecciosa, justifica Samuel Smith, que administra o programa de combate à malária do país.

Serra Leoa contratou mais de 8.000 agentes de saúde para distribuir os medicamentos, com apoio da organização médico-humanitária internacional Médicos Sem Fronteiras (MSF), do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) e do Fundo Global de Combate à Aids, Tuberculose e Malária.

De acordo com uma pesquisa preliminar do governo serra-leonês, 75% das pessoas que receberam os comprimidos afirmam que estão tomando a medicação adequadamente. Mas entrevistas com cerca de 30 pessoas em Freetown e seus arredores sugerem que esse número pode ser muito menor.

Smith informa que antes da próxima rodada de administração de medicamentos em massa, mensagens de saúde pública “martelarão” a importância de tomar a dose correta. Ele salienta que, sem uma resposta adequada de 85% da população, o esforço investido na iniciativa pode superar seus benefícios.

Para determinar a eficiência do programa, as autoridades de saúde pública farão uma comparação entre a frequência de febres relatadas voluntariamente entre pessoas que receberam os comprimidos e as que não os receberam, e também registrarão a ocorrência de efeitos adversos.

“É muito importante monitorar isso porque se [o programa] for bom [eficaz], nós o usaríamos novamente durante outro surto ou uma guerra, ou em qualquer emergência que impeça o acesso das pessoas a cuidados de saúde”, explica Smith.

Em abril, a Organização Mundial da Saúde (OMS) planeja se reunir para determinar o valor dessa intervenção.

“Haverá um debate acalorado sobre a pertinência de fazer uma administração de medicamentos em massa, e em que circunstâncias”, antecipa Maru W. Aregawi, pesquisador no programa global contra malária da OMS.

 

A viagem para esta matéria foi apoiada pelo Centro Pulitzer de Reportagem de Crises.

Este artigo foi reproduzido com permissão e foi publicado originalmente em 30 de dezembro de 2014.

Publicado em Scientific American em 3 de janeiro de 2015.