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Efeitos mágicos de cogumelos permanecem por muito tempo, proporcionando uma “longa viagem”

Pesquisas mostram que a psilocibina (composto derivado da triptamina) desencadeia profundas mudanças mentais que podem persistir por mais de um ano

David Biello
Existem relatos de pessoas que consumiram cogumelos mágicos e continuaram a sentir seus efeitos por mais de um ano, sentindo-se ainda verdadeiramente nas nuvens.

“A maioria dos voluntários conseguia se lembrar de suas experiências 14 meses depois e as classificavam como uma das cinco experiências espirituais mais significativas já vividas,“ comparando-as com o nascimento de um filho ou a morte do pai ou da mãe, afirma o neurocientista Roland Griffths, da Faculdade de Medicina da Johns Hopkins University, que conduziu a pesquisa. É fantástico passar por uma experiência assim tão marcante. Mais fantástico ainda é ela ainda ser significativa 14 meses depois. Experiências como essas são inesquecíveis.”

Griffiths administrou psilocibina, o ingrediente ativo dos chamados cogumelos mágicos, a 36 voluntários especialmente selecionados. Acredita-se que esse composto afeta a percepção e a cognição, agindo nos mesmos receptores do cérebro que respondem à serotonina, um neurotransmissor associado ao humor.
Posteriormente, cerca de dois terços do grupo relatou ter uma “completa experiência mística”, caracterizada por uma sensação de “unidade” com o Universo. Quando Griffths lhes perguntou, 14 meses depois, como eles estavam se sentindo, a mesma proporção atribuiu à experiência altos níveis de satisfação transcendental, e a associou ao crescente bem-estar que sentiram desde então.

Alguns cientistas observaram que o estudo da psilocibina era apenas o começo de uma longa jornada pelo conhecimento. “Não se sabe até que ponto é possível generalizar esses resultados,” ressalva o neurocientista Charles Schuster, da Loyola University Chicago e ex-diretor do Instituto Americano contra o Abuso de Drogas. “É exagero atribuir todos esses efeitos às drogas e esperar que elas ajam da mesma forma sobre as pessoas, sem que os participantes da pesquisa sejam preparados adequadamente.”

Herbert Kleber, que dirige a divisão de consumo de drogas da Columbia University, também observa que é difícil avaliar o impacto dos cogumelos sem conhecer detalhadamente as mudanças que ocorreram na vida das dos usuários. Por exemplo, não está claro no estudo, se os voluntários realmente eram mais altruístas ou se simplesmente se diziam ser.

No entanto, os resultados parecem de fato apoiar os relatos de usuários por recreação e o que Timothy Leary, o guru do LSD e ícone da contracultura dos anos 1960, tornou famoso no seu laboratório psicodélico na Harvard University.
Griffiths e Schuster pretendem continuar com as pesquisas sobre psilocibina para determinar se ela tem efeitos duradouros no cérebro — e se os efeitos místicos relatados afetam somente a memória ou originam-se de outras alterações psicológicas. Este estudo esta entre os mais polêmicos das últimas quatro décadas, vindo atrás do uso indiscriminado ilegal de alucinógenos como as drogas usadas por recreação nos anos 1960, que causaram a dispensa de pesquisadores de empresas e de universidades.

“Eu não creio que haja evidências suficientemente fortes para justificar qualquer efeito benéfico para as pessoas, nem para se discutir a legalização dessa substância sem que muito mais pesquisas sejam realizadas,” afirma Schuster. “Porém a ilegalidade não deve interferir na pesquisa”.

Griffiths, por sua vez, está recrutando pacientes terminais portadores de câncer para um experimento que deverá testar se a psilocibina mitiga a ansiedade existencial que atinge pacientes na iminência de morte. Por incrível que pareça, diz ele, essa substância também pode ser a salvação para dependentes químicos.

“Realmente parece ser contra-intuitivo,” observa Griffths. Mas, seis dos 12 passos dos Alcoólicos Anônimos estão relacionados a um poder mais alto ao qual se submetem. Muitas pessoas não aceitam rigorosamente os 12 passos do programa porque não têm uma relação com um poder superior. É preciso avaliar cuidadosamente a validade de uma experiência como essa, antes de aceita-la a priori.