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El Nino de 2015 surpreende

Em comparação com 1997, o fenômeno climático é, e ao mesmo tempo não é, como o seu famoso precursor

NOAA
Impactos climáticos normalmente associados a um fenômeno El Niño durante o mês de dezembro, janeiro e fevereio (no hemisfério norte).
Andrea Thompson e Climate Central 

Foi no inverno boreal de 1997-1998 que o “avô” de todos os fenômenos El Niño, pelo qual são julgados todos os outros, catapultou esse termo climático para o vocabulário de todo lar comum. 

Ele teve um impacto tão perceptível no clima dos Estados Unidos, que apareceu em todos os lugares, de noticiários nacionais sobre deslizamentos de terras no sul da Califórnia a hilariantes sátiras em programas de TV.

Basicamente, ele foi o “vórtice polar” do final dos anos 90. 

Portanto, não é surpresa que este seja o evento-pilar no qual as pessoas pensam quando escutam esse nome. E, naturalmente, à medida que o atual fenômeno El Niño ganhou notoriedade, as comparações com 1997 têm sido cada vez mais alardeadas.

A mais recente ocorreu na semana passada, em forma de uma imagem da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica (NOOA) que compara retroativamente imagens de satélites das águas cálidas do Oceano Pacífico, marca registrada do El Niño, de junho deste ano a novembro de 1997, quando o El Niño atingiu seu pico.

De um lado, os dois fenômenos são comparáveis, dado que 1997 foi o El Niño mais forte já registrado e, agora, a ciência mais precisa indica que o atual evento poderia se igualar ou rivalizar aquele, pelo menos em termos de temperaturas oceânicas.

De outro, porém, cada El Niño é “seu próprio monstro”, o produto de condições oceânicas e atmosféricas, climáticas e meteorológicas únicas naquele lugar e momento em particular.

Nos registros de El Niños, embora muito recentes e modernos, “não podemos encontrar um único evento que tenha ocorrido como outro”, salientou Michelle L’Heureux, meteorologista do Centro de Previsão Climática da NOAA.

Cientistas como ela evitam fazer comparações porque não há nenhuma garantia de que os impactos de um El Niño serão iguais aos de um anterior, mesmo que parecem bastante similares.

E são justamente esses impactos, como potenciais chuvas na Califórnia devastada pela seca, que realmente interessam à maioria.

Clima tempestuoso

Ao contrário das sátiras de programas de TV americanos, o El Niño não é uma tempestade isolada, como um furacão.

Ele é uma mudança no estado climático de fundo, provocada pelo avanço de águas oceânicas cálidas de seus locais normais de origem, no Oceano Pacífico tropical ocidental, rumo ao leste.

Essa redistribuição de águas quentes afeta como e onde o calor do oceano é emitido para a atmosfera, o que pode alterar os padrões normais de ventos e climas tempestuosos na região. 

Essas mudanças, quando são mais locais, podem se propagar pela atmosfera e, no caso dos Estados Unidos, alterar a posição da corrente de jato sobre o país durante os meses de inverno, levando, geralmente, a condições mais úmidas que o normal sobre os estados sulinos e a temperaturas mais elevadas na região setentrional.

Falando em termos muito abrangentes, esses são os efeitos do El Niño.

Essas chamas “teleconexões” tendem a ser mais confiáveis quando o fenômeno é forte.

Foi o que aconteceu com os pronunciados eventos de 1997-1998 e 1982-1983.

De acordo com a NOOA, janeiro e fevereiro de 1998 foram os dois primeiros meses mais úmidos e quentes de um ano nos Estados Unidos contíguos em seus 104 anos de registros meteorológicos à época.

A posição da corrente de jato significou que alguns estados do norte do país viram temperaturas até 15 graus acima do normal e tanto a região sudeste como o sul da Califórnia foram inundados por uma série de tempestades.

As chuvas foram tão implacáveis que produziram deslizamentos de terras na Califórnia, levando casas a desmoronar de penhascos que se desintegravam e acumulando centenas de milhões de dólares em danos.

Agora, com a Califórnia mergulhada há cinco anos em uma seca incapacitante, que levou às primeiras restrições estaduais de uso de água em sua história, chuvas alimentadas por El Niño (exceto por seus aspectos mais prejudiciais) podem ser muito bem-vindas nesse momento.

Mas aí é que está o problema: aqueles dois episódios de El Niño fortes, que provocaram pesadas e intensas chuvas de inverno na Califórnia, não passaram disso: uma amostragem de dois.

Em ciência, isso é demasiadamente pouco para justificar quaisquer conclusões definitivas, ressaltou L’Heureux.

“El Niño não é o único fator em jogo”

Existem outros, desde o inerente caos da atmosfera, a outros sinais climáticos de grande escala, que podem potencialmente anular qualquer tendência favorecida por El Niño.

É exatamente o que aconteceu com o fenômeno de 2009-2010 que, embora não tenha sido tão forte quanto o de 1997, ainda foi significativo.

Mas outros sinais climáticos ajudaram a atenuar seus efeitos nos EUA, particularmente em termos de temperaturas, salientou L`Heureux.

São fatores como esses que deixam meteorologistas cautelosos quanto a comparações entre a atual corrente El Niño e a de 1997. (A NOAA reconheceu isso ao substituir sua imagem original, observando que fez isso para evitar confusão).

“Acreditamos que a força [de El Niño] é importante”, observou L’Heureux, mas a energia exata que a corrente atinge não é garantia para impactos similares aos de 1997, “e isso simplesmente é porque há outras coisas acontecendo”, argumentou.

“El Niño não é o único fator em jogo”.

Então, onde isso nos deixa em termos de antever o que El Niño pode nos trazer neste inverno [boreal]?

Temos um evento que parece cada vez mais robusto (comparando junho de 2015 com junho de 1997, os padrões abrangentes de temperatura oceânica são muito semelhantes) e os modelos de previsão estão bem concordantes quanto ao fato de que o fenômeno se fortalecerá à medida que nos encaminhamos para o inverno e o pico típico do El Niño.

Mas quando, exatamente, ocorrerá esse pico e qual será sua força final ainda é incerto.

Mais incerto ainda é o que essas e outras influências terão sobre clima dos Estados Unidos. 

Então, o que os meteorologistas podem prever por ora é que a probabilidade dos típicos impactos do El Niño, inclusive chuvas no sul da Califórnia, é mais elevada, mas onde, exatamente, essas chuvas poderão cair ainda não se sabe. 

Um fator que pode influir isso é a notável massa de águas muito cálidas, estacionária há dois anos ao largo da Costa Oeste, uma característica ausente em 1997.

Ela poderia impactar as típicas mudanças que o El Niño provoca na corrente de jato, observou Daniel Swain, estudante de Ph.D. em ciência climática na Universidade de Stanford, em um e-mail.

Mas é possível que, se o El Niño acumular força suficiente, ele poderia suplantar essa influência, acrescentou.

“Se o El Niño realmente avançar por território recorde durante o próximo inverno boreal, é difícil vislumbrar a Califórnia não enfrentando um inverno mais úmido do que a média, pelo menos até certo ponto”, argumentou.

A única garantia real que meteorologistas podem propor é que este evento de El Niño “evoluirá do seu próprio jeito”, observou L’Heureux.

“Ele pode ser semelhante a certos eventos passados, mas não será exatamente o mesmo”.

 

Este artigo foi reproduzido com permissão de Climate Central. O artigo  foi publicado originalmente em 23 de julho de 2015.

 

Publicado em Scientific American em 23 de julho de 2015.