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Encerrado importante programa de pesquisa em células-tronco

Autoridades dos National Institutes of Health reavaliam a condução das próprias pesquisas 

NIH
Terapias baseadas em células-tronco pluripotentes induzidas, aqui se diferenciando em células da retina em uma estrutura, eram o foco do Centro para Medicina Regenerativa.
Por Sara Reardon e Revista Nature

 Pesquisadores de células-tronco dos Institutos Nacionais da Saúde (NIH, em inglês) ficaram frustrados e confusos após o fechamento do Centro para Medicina Regenerativa (CRM) da agência. Mahendra Rao, diretor desse programa interno e biólogo especializado em células-tronco, deixou o NIH, em Bethesda no estado de Maryland, em 28 de março, e o website do centro foi tirado do ar em 4 de abril. Ainda que nenhum anúncio oficial tenha sido feito até o fechamento desta edição da Nature, autoridades do NIH informaram estar reavaliando como conduzir pesquisas internas com células-tronco.

Pesquisadores afiliados ao Centro declaram ter sido deixados no escuro. Quando contatadopela Nature em 7 de abril, George Daley, biólogo de células-tronco da Escola Médica de Harvard em Boston, no estado de Massachusetts, e membro do comitê consultivo externo do Centro, declarou que ainda não tinha sido informado da partida de Rao, e nem do fechamento do CRM.

O CRM foi estabelecido em 2010 para centralizar o programa de células-tronco do NIH. Seu objetivo era desenvolver terapias úteis com células-tronco pluripotentes induzidas (iPS) – células adultas convertidas em células-tronco semelhantes às embrionárias –e conduzí-las para testes clínicos e aprovação regulatória. Seu orçamento seria de US$52 milhões divididos em sete anos.

Rao assumiu o comando em 2011. As relações parecem ter amargado no mês passado, devido a uma decisão do NIH de conceder financiamento para um único projeto, visando levar células iPS para um teste clínico. Rao declara ter pedido demissão após isso se tornar claro. Ele esperava que cinco testes fossem financiados, especialmente poque o Centro já tinha resolvido problemas complexos relativos a fontes de tecidos, patentes e consentimentos informados.

James Anderson, diretor da Divisão de Coordenação de Programas, Planejamento e Iniciativas Estratégicas do NIH, que administrava o CRM, argumenta que apenas um pedido – feito por Kapil Bharti, do Instituto Nacional de Olhos em Bethesda, e seus colegas –recebeu uma pontuação alta o suficiente de um grupo externo de revisão para justificar o financiamento continuado. A equipe planeja usar células iPS para tratar a degeneração macular da retina relacionada à idade, e espera iniciar testes com humanos dentro de alguns anos. Várias outras propostas, que envolviam o tratamento de doenças cardíacas, câncer e doença de Parkinson, não receberão financiamento para se prepararem para testes clínicos. Anderson destaca que o teste de Bharti não será afetado pelo fechamento do CRM.

Outros testes com células iPS em seres humanos já estão mais adiantados. Um dos testes para degeneração macular, por exemplo, desenvolvido por Masayo Takahashi do Centro RIKEN para Biologia do Desenvolvimento em Kobe, no Japão, começou a recrutar pacientes em agosto último. 

De acordo com Anderson, o CRM não continuará com seu formato atual. “A área está se movendo tão rápido que precisamos de uma reavaliação”. Para conseguir isso, o NIH planeja fazer um workshop em maio para reunir pesquisadores de células-tronco e decidir o que fazer com o programa e o que resta de seu orçamento. “Para mim, isso é ciência inteligente”, comenta ele. “Se algo não está funcionando, você para de gastar dinheiro com aquilo”.

Uma das opções é permitir que projetos do CRM sejam absorvidos pelo Centro Nacional de Ciências Translacionais, um instituto do NIH estabelecido em 2011 para transformar pesquisas básicas em terapias. Mas Anderson observa que os participantes do workshop também discutirão se o NIH precisa substituir o CRM com outro programa dedicado às células-tronco.

Rao declara ainda não ter certeza sobre seus planos futuro.Ele já se juntou a conselhos de duas empresas especializadas em terapias com células-tronco, e pretende encontrar uma empresa que lhe permita continuar os testes clínicos com célulasiPS para tratamentos da doença de Parkinson.

De acordo com Rao, apesar do que aconteceu, ele está orgulhoso das conquistas do CRM: seus pesquisadores produziram mais de 400 linhagens de células iPS, e o centro contratou duas empresas para criar 12 linhagens de células iPS de nível clínico que se tornarão disponíveis ainda este ano. Mesmo assim, ele adiciona que “É um pouco decepcionante. O NIH poderia se tornar um líder mundial em seu estágio atual”.

Este artigo foi reproduzido com permissão da revista Nature. O artigo foi publicado pela primeira vez em 8 de abril de 2014.

 

 

Créditos: NIH