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Encolhimento de Mercúrio é maior que o previsto

As observações recentes esclarecem evolução do planeta

NASA/JHUAPL/Carnegie Institute of Washington
O incrível planeta que encolhe, Mercúrio, capturado pela sonda MESSENGER, da Nasa.
Por Alexandra Witze e revista Nature

Cientistas descobriram que o planeta mais próximo do Sol encolheu muito mais que se pensava anteriormente durante seu tempo de vida.

Estudos de Mercúrio mostram que o planeta perdeu cerca de 11 quilômetros de diâmetro desde o flamejante nascimento do sistema solar há 4,5 bilhões de anos. Conforme se resfriava e contraía, o planeta ficou marcado por longas saliências curvadas parecidas com as rugas de uma maçã desidratada.

Um novo censo dessas saliências, chamadas de escarpas lobulares, encontrou mais delas que em qualquer momento do passado, e com uma aparência mais grave.

A descoberta sugere que Mercúrio encolheu muito mais do que previa a estimativa anterior, que era de dois a três quilômetros, explica Paul Byrne, cientista planetário da Carnegie Institution for Science em Washington, capital. Ele apresentou os resultados em 9 de dezembro durante uma reunião da União Geofísica dos Estados Unidos em San Francisco, na Califórnia. 

Os resultados ajudam a explicar como o enorme núcleo metálico de Mercúrio se resfriou no decorrer do tempo. Isso também pode finalmente reconciliar cientistas teóricos, que previram um grande encolhimento, com observadores que não encontravam evidências disso – até agora. “Estamos resolvendo um conflito com quatro décadas de existência aqui”, declarou Byrne durante a reunião.

Cientistas planetários discutem sobre as escarpas lobulares de Mercúrio desde que a sonda Mariner 10 passou três vezes pelo planeta em 1974 e 1975. Pesquisadores podem usar medidas de comprimento e altura das escarpas para calcular quanta redução planetária elas representam.

Esse encolhimento é produto da estranha composição de Mercúrio – “[o planeta] é como um núcleo que flutua pelo espaço com uma fina camada externa”, explica Byrne. A maior parte do planeta é composta por esse grande núcleo, e assim ele teria arrefecido rapidamente enquanto o calor passava por sua superfície. Estudos de modelamento há muito sugerem que o planeta deveria ter encolhido entre 10 e 20 quilômetros durante seu tempo de vida, em contraste com os dois ou três quilômetros estimados a partir dos dados da Mariner 10.

As estimativas mais recentes vêm da sonda MESSENGER, da Nasa, que fotografa e mede a topografia de Mercúrio. No ano passado, cientistas italianos usaram dados da MESSENGER cobrindo um quinto do planeta para mostrar que seu encolhimento provavelmente era maior que as estimativas da Mariner 10.

De acordo com Byrne, o trabalho mais recente, que cobriu o planeta inteiro, revelou muitas escarpas lobulares com relevo vertical acentuado. Além disso, o trabalho também revelou detalhes de outro tipo de elemento de superfície que pode estar relacionado ao encolhimento: “cristas” nas saliências, que são menos pronunciadas que a escarpas lobulares, mas que também podem ter se formado durante a contração. De acordo com Byrne, os dados das escarpas lobulares e das cristas das saliências combinados sugerem que o diâmetro de Mercúrio encolheu 11,4 quilômetros. Mesmo se ignorarmos as cristas das saliências, a contração fica em 10,2 quilômetros.

Esses números são plausíveis para pelo menos um cientista planetário que estudou o encolhimento de Mercúrio usando dados da Mariner 10 na década de 70. Jay Melosh, geólogo planetário da Purdue University em West Lafayette, no estado de Indiana, suspeita que pode haver ainda mais escarpas lobulares por lá. “Muitas dessas coisas ainda podem estar escondidas”, declara ele. “Até onde eu sei, podem estar subestimando o tamanho do encolhimento”.

 

Este artigo foi reproduzido com permissão da revista Nature. O artigo foi publicado pelo primeira vez em 9 de dezembro de 2013.