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Encontrado o mais completo fóssil de dinossauro gigante

Herbívoro de 60 toneladas pode revelar detalhes sobre vida e evolução de saurópodes colossais

Jennifer Hall
Representação artística da aparência de um Dreadnoughtus schrani
Por Francie Diep

Pouco depois de calcular o tamanho do espécime de uma nova espécie de dinossauro supermassivo que descobriu em 2005, o paleontólogo Ken Lacovara pegou um dos dinossauros de brinquedo de seus filhos e ficou na calçada de sua casa em Nova Jersey. Ele segurou o saurópode na altura dos olhos, tentando fazer um cálculo mental de qual seria a verdadeira aparência de um Dreadnoughtus schrani ao lado de sua casa. Ele decidiu que, com sua cabeça esticada pela garagem, a cauda do Dreadnoughtus de 25 metros de comprimento teria chegado até o quintal.

O nome do gênero vem da sensação experimentada pela equipe que o descobriu: algo desse tamanho, afinal, não temeria nada. [NOTA: Dreadnought é o nome dos navios encouraçados de batalha. Se separarmos a expressão, temos “dread naught”, que significa literalmente “temer nada”.] “Às vezes herbívoros não recebem a atenção que merecem como animais realmente durões e incríveis”, observa Lacovara. “Com 65 toneladas em vida, o Dreadnoughtus não teria medo de nada”. Ele tem mais de sete vezes a massa de um Tyrannosaurus rex. Seu nome também é uma referência aos primeiros navios de guerra feitos de aço, chamados de dreadnoughts.

O fóssil, anunciado ontem em Scientific Reports, representa um dos maiores animais que já caminhou sobre a Terra. Ele também é o fóssil mais completo de um dinossauro supermassivo já encontrado.

Análises detalhadas podem oferecer novas ideias sobre como esses gigantes jurássicos se movimentavam e cresciam, e como seus corpos evoluíram tamanhos extraordinários. “Essa é uma descoberta interessante devido à escala e extensão dos ossos preservados”, explica Kristi Curry Rogers, paleontóloga do Macalester College em Minnesota, especializada em saurópodes.

Os Dreadnoughtus são saurópodes, um grupo de dinossauros herbívoros, de pescoços longos, que inclui os apatossauros. Nem todos os saurópodes eram gigantes, mas alguns dos maiores animais terrestres do mundo eram saurópodes. (Scientific American e Scientific Reports são ambos parte do Nature Publishing Group.) 
Francie Diep
Dreadnoughtus schrani é o maior e o mais pesado dos animais conhecidos. 
A equipe de Lacovara, incluindo paleontólogos de institutos na Província Chubut, na Argentina, encontraram dois fósseis de D. schrani na região da Patagônia. O maior e mais completo tem 70% dos tipos de ossos atribuidos ao corpo do dinossauro, com exceção do crânio. O segundo fóssil de dinossauro gigante mais completo do registro científico é um Futalognkosaurus dukei, com aproximadamente 27% dos tipos relevantes de ossos. As identidades de alguns dinossauros gigantes são deduzidas com menos de 10% de seus esqueletos.

Saurópodes supermassivos geralmente não ficam bem preservados. Paleontólogos acreditam que seus imensos corpos não eram completamente cobertos por sedimentos após sua morte, assim prejudicando a conservação. (Lacovara acredita que seus Dreadnoughtus morreram em uma enchente repleta de sedimentos, o que tornou seus corpos praticamente inacessíveis a necrófagos que poderiam ter espalhado seus ossos.)

Poucos ossos do mesmo tipo são encontrados em espécies gigantes de saurópodes, o que torna difícil comparar ossos e esclarecer parentescos evolutivos. Para decidir, por exemplo, como duas espécies se relacionam, paleontólogos podem querer comparar seus fêmures – mas não é possível fazer isso sem fêmures para comparar. Perguntas básicas, como se um corpo massivo evoluiu uma vez ou muitas na árvore genealógica da família, permanecem sem respostas. “O artigo e o fato de terem um grande dinossauro quase completo é um avanço na direção certa”, elogia Jeffrey Wilson, paleontólogo da University of Michigan. Nem ele e nem Rogers trabalharam nos Dreadnoughtus.

O artigo da Scientific Reports somente anuncia a descoberta do animal, ainda não responde essas perguntas. O artigo, porém, pode ajudar outros a fazê-lo: ele contém um PDF com modelos tridimensionais dos ossos. Qualquer pessoa com o Adobe Reader pode abrir o arquivo, observar o modelo, girá-lo e aumentá-lo. Para certos estudos, esses dados podem ser suficientes para eliminar uma viagem custosa para observar os ossos pessoalmente. Vários museus começaram a publicar dados como esses para suas coleções, mas Lacovara acredita que essa é a primeira vez que informações desse tipo aparecem com uma nova espécie.

Muitos paleontólogos aplaudiram a descoberta oferecendo ajuda com os ossos: três laboratórios dos Estados Unidos os limparam; voluntários passaram milhares de horas produzindo modelos tridimensionais dos ossos. Passaram-se 10 anos entre a descoberta e a publicação. “Encontrar um saurópode é como pagar uma hipoteca”, brinca Lacovara, mas dá os créditos da piada a outra pessoa.

O lado positivo é que a casa de Lacovara e os Dreadnoughtus nunca se encontrarão de fato. “Eles deixariam pegadas do tamanho de lavadoras de pratos na minha grama bem cuidada”, conclui ele. “Eu não sei se gostaria disso”.

SA 4set2014