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Ensinar a decidir coíbe uso de drogas

Novo currículo americano keepin` it REAL se concentra nas decisões de alunos, não nas drogas

 

Shtterstock

Por Amy Nordrum

Qualquer uma das milhões de crianças que completaram o programa Drug Abuse Resistance Education (Educação de Resistência ao Abuso de Drogas, em tradução literal), ou D.A.R.E., entre 1983 e 2009, pode ficar surpresa em saber que cientistas já mostraram repetidamente que o programa não funcionou. Apesar de ser o programa mais popular de prevenção de abuso de substâncias dos Estados Unidos, o D.A.R.E. não diminuía sua tendência de se tornar viciado em drogas, ou mesmo recusar aquela primeira cerveja com os amigos. 

Nos últimos anos, porém, cientistas ajudaram a D.A.R.E. America, a organização sem fins lucrativos que administra o programa, a substituir o antigo currículo por um curso baseado em alguns conceitos que devem tornar o treinamento mais eficaz para os alunos atuais.

O novo curso, chamado de “keepin` it REAL” (“sendo realista”, literalmente), difere tanto em forma quanto em conteúdo do antigo D.A.R.E. – substituindo longas palestras cheias de fatos sobre drogas por lições interativas que apresentam histórias para ajudar crianças a tomar decisões inteligentes.

A partir de 2009, os administradores do D.A.R.E. começaram a exigir que escolas intermediárias de todo o país adotassem o currículo de 10 semanas, projetado por pesquisadores para alunos do sétimo ano.

Em 2013, eles determinaram que escolas fundamentais começassem a utilizar uma versão dessas lições para alunos do quinto e do sexto ano também. “Esse não é um programa antidrogas”, explica Michelle Miller-Day, co-desenvolvedora do novo currículo e pesquisadora de comunicações da Chapman University. “Ele é sobre honestidade, segurança e responsabilidade”.

Mesmo assim, o keepin` it REAL reduziu o abuso de substâncias e manteve atitudes antidrogas de longo prazo entre alunos em testes iniciais – algo que a versão anterior do programa não conseguiu realizar.

O currículo original do D.A.R.E. não foi criado por especialistas em prevenção, mas por oficiais de polícia e professores de Los Angeles.

Eles começaram o D.A.R.E. em 1983 para reduzir o uso de drogas, álcool e tabaco entre adolescentes e para melhorar o relacionamento entre a comunidade e a polícia.

Nutrido pelo “boca a boca”, o programa rapidamente se espalhou para 75% das escolas dos Estados Unidos. 

Durante mais de uma década, porém, pesquisas lançaram dúvidas sobre os benefícios do programa.

O Departamento de Justiça financiou o primeiro estudo nacional do D.A.R.E. e de seus resultados, tornados públicos em 1994, mostrando apenas pequenas reduções de curto prazo no uso de tabaco – mas não de álcool ou de maconha – por parte dos participantes.

Um relatório de 2009 do Departamento de Justiça fez referência a 30 avaliações subsequentes que também não encontraram melhorias significativas de longo prazo no abuso de substâncias por parte de adolescentes.

“Há 30 anos, todos acreditavam que se você simplesmente dissesse aos alunos o quanto essas substâncias e comportamentos são prejudiciais, elas ficariam longe de tudo”, lembra Frank Pegueros, presidente e diretor executivo do D.A.R.E. America. “Alguns policiais me perguntaram: `Quer dizer que eu fiquei 15 anos fazendo tudo errado?` Evidentemente, sim”.

Cientistas comportamentais começaram a sugerir uma abordagem diferente no início de 1998, com base em pesquisas sobre técnicas bem sucedidas de mudança comportamental.

Em vez de bombardear estudantes com informações em palestras de 45 minutos, eles pediram um programa prático que construísse habilidades de comunicação e de tomada de decisão, e que deixasse crianças ensaiarem essas táticas por meio de brincadeiras.

Por fim o D.A.R.E. começou a procurar um novo currículo, e o comitê científico do programa escolheu o keepin` it REAL dentre mais de 200 outros projetos armazenados em um registro nacional de programas baseados em evidências mantidos pela Administração de Abuso de Substâncias e Serviços de Saúde Mental dos Estados Unidos. 

Agora instrutores só falam durante oito minutos a cada lição, em parte para que os alunos possam passar mais tempo praticando decisões difíceis em atividades com seus amigos. “Se ensinarmos boas habilidades de tomada de decisão, elas devem ser transferidas de um comportamento de alto risco para outro”, acredita Pegueros.

A sargento Christine Rapp, que trabalhou em tempo integral com o D.A.R.E. no Departamento de Polícia de Hancock County, em Indiana, durante 16 anos, declara que esses exercícios são tão populares entre os alunos quanto entre os pesquisadores. “A interação e o trabalho em grupo são incríveis porque nós aprendemos fazendo – muito mais do que simplesmente ouvindo”, descreve ela.

“Quando alunos aprendem maneiras de dizer não a seus amigos, eles simplesmente adoram ir até a frente da sala e mostrar como se faz”. Policiais ensinam quatro maneiras de dizer “não”: RecusarEvitar, Explicar e Ir Embora.

O currículo elementar se concentra em desenvolver essas quatro habilidades básicas, explica Michael Hecht, pesquisador de comunicações da Pennsylvania State University que desenvolveu o keepin` it REAL com Miller-Day.

E o currículo de escolas intermediárias, direcionado a alunos do sétimo ano, faz com que seus participantes o apliquem principalmente a drogas.

As quatro estratégias que compõem o acrônimo em inglês foram desenvolvidas a partir de 300 entrevistas que os dois pesquisadores conduziram com crianças de todo o país.

Hecht e Miller-Day produziram vários dos estudos que demonstraram a eficácia do programa e convenceram o comitê científico do D.A.R.E. a adotá-lo.

O maior deles, publicado por Hecht, Miller-Day e seus colegas em 2003, pediu a seis mil alunos que preenchessem questionários sobre seu uso de álcool, tabaco e maconha em vários momentos de um período de dois anos.

Os relatórios de estudantes que completaram o keepin` it REAL indicaram que eles tiveram menos experiências com essas substâncias que o grupo de controle, e usaram uma maior variedade de estratégias para se manterem sóbrios.

Suas atitudes antidrogas também tiveram uma tendência maior a perdurar. Um subconjunto daquele estudo, com 1.300 alunos que já estavam usando drogas, mostrou que o programa reduziu o uso de substâncias a uma taxa 72% mais alta que a do grupo de controle.

Steven West, consultor de reabilitação da Virginia Commonwealth University que já publicou uma meta-análise mostrando que o D.A.R.E. tinha efeito pífios, ficou encorajado por esses resultados. “Eles estão no caminho certo dessa vez – é tudo com base na ciência”, elogia West. 

Richard Clayton, pesquisador aposentado de prevenção anteriormente da University of Kentucky, também já foi um crítico ferrenho do D.A.R.E., mas desde então foi responsável por muitas melhorias com base científica ao programa, após ter sido convidado a participar de sua diretoria e comandar seu comitê consultivo, que agora está cheio de pesquisadores de prevenção. “Eles ouviram a noção vinda da literatura: você precisa ser interativo, e não dar aulas didáticas”, comenta ele. “Eu acho que o que eles fizeram é muito incrível”.

West e Clayton também argumentam que vale a pena salvar o programa D.A.R.E., porque ele construiu uma impressionante rede de escolas e departamentos de polícia que já se mostraram dispostos a trabalhar juntos para encorajar alunos a levar vidas inteligentes e saudáveis.

Com essa rede firmemente estabelecida, a maior responsabilidade do D.A.R.E. é encontrar a melhor maneira de colocá-la em funcionamento. “Nós queremos estar na ponta da pesquisa e da ciência”, afirma John Lindsay, diretor regional do D.A.R.E. America. “Se acreditarmos nisso, não podemos simplesmente falar, temos que agir – e eu acho que foi isso que fizemos nos últimos anos”.