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Ensino chinês ganha grau de liberdade

Universidade de Ciência e Tecnologia do Sul da China será a primeira a reformar educação sem controle governamental

Li Jiao
LAN HAI/SUST
Zhu Qingshi, presidente da South University of Science and Technology da China, em Shenzhen, está liderando reformas que poderiam revolucionar o sistema de educação superior chinês.
Quando a Universidade de Ciência e Tecnologia do Sul da China (SUSTC, em inglês), em Shenzhen, foi fundada em 2007, seus apoiadores esperavam que ela oferecesse um modelo revolucionário de educação superior. A instituição planejava livrar-se da burocracia imposta pelo Ministério da Educação do governo central ao admitir alunos e contratar pesquisadores em seus próprios termos, enquanto forjava uma universidade de nível mundial no processo.

Depois de uma batalha de cinco anos a universidade pioneira finalmente recebeu, no mês passado, aprovação ministerial para admitir estudantes. “É um marco importante para a história da SUSTC e para a reforma e desenvolvimento da educação superior na China”, declara Zhu Quingshi, presidente da universidade. “A SUSTC seguirá com sua reforma”.

Mas alguns temem que o apoio do governo possa diluir os objetivos reformistas da universidade. “Pergunto-me se a instituição se afastará de seu objetivo declarado”, preocupa-se Cao Zexian, físico do Instituto de Física da Academia Chinesa de Ciências, em Pequim.

A SUSTC é financiada pelo governo da cidade de Shenzhen, que investiu mais de 7 bilhões de renminbi (US$1,1 bilhão) para criar o novo campus e os prédios da universidade. Zhu, que foi presidente da Universidade de Ciência e Tecnologia da China em Hefei, diz querer que a SUSTC se torne uma das principais universidades de pesquisa da Ásia nos próximos vinte anos. A SUSTC terá apenas cinco departamentos, para encorajar a colaboração interdisciplinar. “O mais importante na minha vida é trabalhar na SUSTC”, disse Zhu à Nature.

Um dos principais objetivos de Zhu é evitar um sistema de posições administrativas em sua universidade, que ele descreve como o “maior obstáculo” para a reforma. Membros de universidades chinesas às vezes passam mais tempo tentando conseguir posições melhores – que conferem status, contatos poderosos e renda extra – do que pesquisando e ensinando. Como parte desse esforço, no ano passado a universidade determinou os termos para um conselho apontado pelo governo da cidade para liderar a SUSTC.

 
Local de teste

A universidade rejeitou o exame nacional de admissão, conhecido como gao kao, um pré-requisito para conseguir vaga nas universidades chinesas. Muitos acadêmicos acreditam que o exame valoriza a memorização em detrimento da criatividade, e a SUSTC quer usar um arranjo mais variado de testes que verifiquem o potencial e a paixão dos alunos pelo aprendizado. No ano passado, a universidade utilizou os resultados de seu próprio teste para matricular 45 alunos. O Ministério da Educação, porém, insistiu que os alunos realizassem pelo menos o exame nacional e disse que sem ele quaisquer qualificações recebidas da SUSTC não seriam reconhecidas.

Agora Zhu firmou um compromisso com o Ministério, que verá uma variedade de fatores sendo usados para avaliar possíveis alunos. “O gao kao representará 60%, as notas do Ensino Médio 10%, e a SUSTC usará os últimos 30% para abordar criatividade e paixão”, explicou Zhu. 

Alguns acadêmicos acreditam que a inclusão do gao kao dificultará as tentativas de reforma da SUSTC. Mas Wang Lijun, físico da Universidade Tsinghua em Pequim, diz que “O gao kao é a escolha correta, e é mais justo. Nos Estados Unidos também existe um teste de avaliação escolar”. Zhu, no entanto, espera que a SUSTC consiga matrículas completamente independentes nos próximos anos. 

A batalha da SUSTC também pode ter ajudado a acelerar reformas maiores: no mês passado o governo central publicou orientações para universidades e outros órgãos públicos, estimulando-os a “revogar sistemas de posições administrativas”. 

“Eu certamente desejo o melhor à SUSTC para que ela lidere uma reforma educacional”, diz o neurocientista Rao Yi, reitor de ciências da vida da Universidade Peking, em Pequim. “Novas universidades deveriam ficar livres de algumas das restrições típicas das mais antigas”.