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Enterrando ossos da discórdia: índios norte-americanos mais perto de conseguir esqueleto ancestral de volt

O esqueleto do Homem de Kennewick foi considerado nativo americano, mas uma questão cultural atrasa seu enterro

O Museu de História Natural e Cultura Burke, em Seattle, é o repositório neutro dos restos do Homem Kennewick determinado pela corte americana. O museu não exibe os restos, mas cuida deles desde 1998. Crédito da imagem: Timothy Brown/FlickrCC BY 2.0

Quando o Corpo de Engenheiros do Exército dos Estados Unidos revelou no mês passado que o esqueleto de nove mil anos de idade conhecido como Homem de Kennewic, ou O Antigo, era ancestral dos índios norte-americanos modernos, parecia o fim do embate de 20 anos entre tribos nativo americanas que querem enterrar os ossos e os cientistas que acreditam que eles deveriam continuar disponíveis para pesquisa.

Mas uma questão processual ainda persiste: sob a lei federal, as tribos ainda precisam provar que possuem uma “afiliação cultural” com O Antigo, que foi encontrado próximo ao Rio Columbia, perto de Kennewick, Washigton, em 1996. Quatro nações tribais e um bando reconhecido federalmente - a Nação Yakama, Tribo Nez Perce e Bando Wanapum, junto com as confederações Colville e Umatilla - fazem agora uma revindicação conjunta para que os ossos sejam entregues a eles.

A questão da custódia também parecia ter sido resolvida em 2004, quando as tribos perderam o caso no Tribunal de Apelação dos EUA para um grupo de cientistas que argumentava que os ossos pertenciam a um membro de um grupo de migrantes seguindo para a América do Norte que não tinham relação com os índios. Os cientistas ganharam o direito de analisar o esqueleto.

A decisão foi uma perda dolorosa para as tribos. Mas, no ano passado, um estudo sobre o DNA do Homem de Kennewic, liderado por Eske Willerslev, do Museu de História Natural da Dinamarca, mostrou que O Antigo era claramente um ancestral dos índios norte-americanos modernos, e poderia ser parente próximo das tribos que revindicavam seus restos mortais. O Corpo de Engenheiros confirmou os resultados de Willerslev e agora revisita a questão sobre se as tribos deveriam ganhar a custódia do esqueleto sob o Ato de Repatriação e Proteção dos Túmulos Nativo Americanos (NAGPRA).  

Afiliação cultural significa, essencialmente, qual cultura tribal combina mais com aquela na qual O Antigo vivia - uma questão muito diferente de ligações biológicas, que podem ser fisicamente estabelecidas usando DNA. A afiliação é obviamente difícil de determinar quando as culturas tiveram nove mil anos para mudar. Em alguns casos, artefatos enterrados com restos humanos podem fornecer pistas sobre a cultura. E ainda que nenhum tenha sido encontrado junto com O Antigo, havia uma ponta de lança ou flecha de pedra cravado em seu quadril - um ferimento ao qual ele sobreviveu, mas que provavelmente causou dor severa durante sua vida.

Aspectos bio e arqueológicos são apenas dois dos nove tipos de evidência que podem ser utilizados sob a NAGPRA para determinar a afiliação cultural. Os outros são: geográficos, histórico oral, antropológicos, linguísticos, folclóricos, históricos e parentesco.

Gail Celmer, arqueologista do Corpo de Engenheiros, Divisão Noroeste, diz que ela e seus colegas esperam completar o processo de determinação da afiliação cultural até fevereiro do ano que vem. O NAGPRA declara que se um padrão de “preponderância de evidência” não for encontrado, uma série de regras chamadas “regulações não reclamadas”, que o Departamentos de Interiores dos EUA adicionou em novembro de 2015, poderão ser aplicados nos restos mortais. Essas regulações permitiriam ao Corpo de Engenheiros entregar o esqueleto para um requerente que satisfizesse os critérios mínimos de “evidências substanciais” sobre afiliação cultural. “Seu enterro é inevitável nesse ponto,” diz James Chatters, um antropólogo forense local que foi chamado para para remover o esqueleto da margem do rio onde foi encontrado em 1996. Chatters adiciona que as regulações não reclamadas poderiam efetivamente encerrar o estudo de restos humanos nos EUA que antecedem o contato europeu.

Chatters acredita que a informação genética disponível mostra apenas que o Homem de Kennewick divide ancestralidade com todos os índios norte-americanos e que dizer que ele é mais próximo dos índios do nordeste dos EUA do que daqueles em outras partes da América do Norte é uma interpretação exagerada das evidências. Ele gostaria de ver testes adicionais não invasivo sendo feitos nos restos - análise de isótopos estáveis para determinar de onde o indivíduo veio e micro tomografia computadorizada para criar um histórico detalhado dos ossos - antes que eles sejam enterrados novamente. “Manter os registros,” ele diz “mas permitir que ele volte para o solo.”

Para Chuck Sams, diretor de comunicações da Confederação das Tribos da Reserva Indígena de Umatilla, a evidência genética mostrando que O Antigo era ancestral dos índigenas é uma vindicação do que ele e outros membros de sua comunidade tem argumentado o tempo todo. “Nós fomos as primeiras pessoas nessa região,” diz Sams, adicionando que ele espera que haja um reconhecimento cultural e legal que os restos arqueológicos encontrados no Planalto de Columbia serão tratados como herança cultural das tribos que vivem lá agora. “As pessoas da Confederação das Tribos da Reserva Indígena de Umatilla, junto com outras tribos, têm esperado esse dia chegar, rezaram para que esse dia chegasse e esperam ansiosamente para chegar o dia de colocar nosso ancestral para descansar de novo.”

 

Zach Zorich