Sciam
Clique e assine Sciam
Notícias

Entre uma e dez mutações bastam para ocasionar câncer, mostra estudo

Levantamento avaliou mais de 7500 tumores e 29 diferentes tipos da doença

Shutterstock
Um estudo com mais de 7.500 tumores de 29 tipos de câncer proporcionou pela primeira vez estimativas imparciais do número de mutações necessárias para desenvolver a doença num dado organismo. Pesquisadores do Instituto Wellcome Trust Sanger e seus colaboradores adaptaram uma técnica usada no campo da evolução para confirmar que, em média, precisa-se de uma a dez mutações para que o câncer apareça.

Os resultados, publicados hoje (19 de outubro) na revista científica Cell, também mostram que o número de mutações as quais ocasionam câncer varia consideravelmente entre os diferentes tipos da doença.

No estudo, a equipe desenvolveu uma abordagem para descobrir quais genes estão implicados na evolução do câncer e quantas mutações nesses genes levam ao câncer. No futuro, essas abordagens podem ser usadas clinicamente para identificar quais mutações - entre todas as milhares de mutações presentes - em um dado paciente estão fazendo com que ele tenha câncer.

Há mais de 150 anos, Charles Darwin descreveu como diferentes espécies evoluem no processo de seleção natural. Cânceres também se desenvolvem por esse processo, o qual age nas mutações que se acumulam nas células do nosso corpo com o passar do tempo. Neste estudo, os cientistas aplicaram uma perspectiva evolutiva para quantificar a seleção natural em 7.664 tumores de 29 diferentes cânceres.

Uma das descobertas impressionantes do estudo foi que as mutações geralmente são bem toleradas pelas células do corpo. Este achado foi considerado surpreendente porque as mutações que indivíduos herdam de seus pais muitas vezes são mal toleradas e, geralmente, são descartadas da espécie humana ao longo do tempo. Nas células do corpo, no entanto, à medida em que um câncer se desenvolve, quase todas as mutações se mantiveram, sem afetar a sobrevivência da célula.

A equipe também catalogou os principais genes de câncer responsáveis por 29 tipos diferentes da doença. Pesquisadores descobriram diversos novos genes de câncer, e puderam determinaram o quão completas são as atuais listas que os descrevem.

Peter Campbell, principal membro do Instituto Wellcome Trust Sanger a participar do estudo, disse: "Nós abordamos uma questão antiga na pesquisa sobre câncer, debatida desde a década de 1950: quantas mutações são necessárias para que uma célula normal se transforme em uma célula cancerosa? A resposta é - apenas um pequeno punhado. Cerca de 4 mutações por paciente, por exemplo, costumam levam ao câncer de fígado, enquanto os cânceres colorretais geralmente requerem dez mutações."

Inigo Martincorena, primeiro membro do Instituto Wellcome Trust Sanger a ser citado como autor no artigo, disse: "No estudo, revelamos que cerca de metade dessas principais mutações que causam câncer ocorrem em genes ainda não identificados como oncogenes. Já se sabe bastante sobre os mais importantes genes envolvidos no câncer, mas ainda há muitos outros para se descobrir. Precisamos reunir um número ainda maior de cânceres estudados por sequenciamento de DNA - na escala de dezenas de milhares - para encontrar esses genes esquivos."

Os novos métodos utilizados neste estudo são um passo adiante no tratamento personalizado do câncer. No futuro, técnicas similares poderiam ser usadas clinicamente para identificar as mutações específicas responsáveis pelo câncer de um determinado paciente, dentre as milhares de mutações tipicamente encontradas em cada tumor.

O professor Sir Mike Stratton, um dos autores do estudo e diretor do Instituto Wellcome Trust Sanger, disse: "Agora conhecemos centenas de genes que provocam câncer ao sofrerem mutações. Esta pesquisa mostra que, em todos os tipos de câncer, um número pequeno e relativamente consistente desses genes é necessário para converter uma única célula normal em uma célula cancerígena, mas que os genes específicos escolhidos diferem de acordo com o tipo de câncer. O estudo também mostra que ainda não identificamos muitos desses genes, e eles serão o alvo para futuras pesquisas. Essa compreensão, cada vez mais precisa, das mudanças fundamentais as quais resultam no câncer fornece as bases para a descoberta e o uso de terapias direcionadas no tratamento da doença."

Instituto Wellcome Trust Sanger
Para assinar a revista Scientific American Brasil e ter acesso a mais conteúdo, visite: http://bit.ly/1N7apWq