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Envelhecimento pode ajudar a combater esquizofrenia

Matemático de “Uma Mente Brilhante” alegava que medicamentos não ajudaram a melhorar sua condição

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Estudos realizados na década de 30, antes que medicamentos para esquizofrenia estivessem disponíveis, constataram que cerca de 20% dos pacientes se recuperaram sozinhos, enquanto 80% não conseguiram fazer isso
Rachel Rettner e LiveScience

O matemático norte-americano John Forbes Nash, que morreu em 23 de maio em um acidente de carro, era conhecido por suas décadas de batalha contra a esquizofrenia.

Sua árdua luta foi retratada primorosamente no filme “Uma Mente Brilhante”, de 2001, premiado com quatro Oscars no ano seguinte.

Mais tarde na vida, Nash aparentemente tinha se recuperado da doença; o que, segundo ele, havia acontecido sem medicação.

Mas com que frequência pessoas se recuperam de esquizofrenia, e como uma doença tão destrutiva desaparece?

Nash desenvolveu sintomas esquizofrênicos no final da década de 50, quando tinha cerca de 30 anos, e depois de ter feito contribuições pioneiras para o campo da matemática, inclusive a extensão da teoria dos jogos, ou a matemática de tomada de decisões.

Segundo o jornal The New York Times, foi nessa época que ele começou a exibir um comportamento bizarro e a experimentar episódios de paranoia e delírios.

Ao longo das décadas seguintes, ele foi hospitalizado várias vezes e vivia tomando medicamentos antipsicóticos intermitentemente.

Mas na década de 80, quando Nash estava na casa dos 50 anos, sua condição começou a melhorar.

De acordo com o New York Times, em meados da década de 90, ele escreveu a um colega em um e-mail que: “Em última instância, emergi do pensamento irracional sem outros remédios, exceto as mudanças hormonais naturais do envelhecimento”.

Nash e sua esposa Alicia morreram aos 86 e 82 anos, respectivamente, em um acidente na New Jersey Turnpike, uma rodovia pedagiada, quando estavam a caminho de casa voltando de uma viagem em que Nash tinha recebido um prestigiado prêmio por seu trabalho.

Estudos realizados na década de 30, antes que medicações para esquizofrenia estivessem disponíveis, constataram que cerca de 20% dos pacientes se recuperavam por conta própria, enquanto 80% não conseguiam fazer isso, explicou Gilda Moreno, psicóloga clínica no Hospital Infantil Nicklaus, em Miami.

Estudos mais recentes constataram que, com tratamento, até 60% dos pacientes com esquizofrenia podem alcançar remissão, o que pesquisadores definem como tendo sintomas mínimos por pelo menos seis meses de acordo com um estudo de revisão, de 2010, no periódico especializado Advances in Psychiatric Treatment (em inglês).

Não está claro por que apenas alguns pacientes esquizofrênicos melhoram, mas pesquisadores sabem que diversos fatores estão associados a resultados melhores.

Nash parece ter tido muitos desses fatores a seu favor, observou Gilda Moreno. [Consulte “Cinco tratamentos controversos de saúde mental”, em inglês.]

Pessoas que têm um início mais tardio da doença tendem a ter um quadro de recuperação melhor que aquelas que experimentam seu primeiro episódio de psicose na adolescência, explicou Moreno. (“Psicose”, no caso, se refere a perder contato com a realidade, o que se manifesta por sintomas como delírios.)

Nash tinha 30 anos quando começou a apresentar sintomas de esquizofrenia, que incluem alucinações e delírios.

Além disso, fatores sociais, como ter um emprego, uma comunidade de suporte e uma família capaz de ajudar com tarefas cotidianas, também estão ligados a resultados melhores para pacientes com esquizofrenia, salientou Moreno.

Nash teve colegas que o apoiaram e o ajudaram a encontrar empregos onde pessoas o protegiam. Também teve uma esposa que cuidou dele e o levou para sua casa mesmo depois de o casal se divorciar, o que pode tê-lo impedido de se tornar um sem-teto, de acordo com um episódio do programa da PBS “American Experience”.

“Ele tinha todos esses fatores de proteção”, resumiu Moreno.

Alguns pesquisadores observaram que pacientes com esquizofrenia tendem a melhorar à medida que envelhecem.

“Sabemos que, como regra geral e com exceções, à medida que pessoas com esquizofrenia envelhecem, elas apresentam menos sintomas, como delírios e alucinações”, declarou o doutor E. Fuller Torrey, psiquiatra especializado em esquizofrenia, em uma entrevista ao programa  “American Experience”, com foco em Nash.

No entanto, Moreno salientou que muitos pacientes piorarão com o tempo, se não tiverem acesso a cuidados médicos adequados e não estiverem em um ambiente de suporte.

“Quando você tem um esquizofrênico que teve vários episódios/colapsos psicóticos, existe um caminho descendente, de declínio”, explicou Moreno.

De acordo com ela, pacientes sofrem financeiramente porque não podem trabalhar, fisicamente porque não conseguem cuidar de si mesmos, e socialmente porque seus comportamentos bizarros os distanciam de outros.

Pode ser que pessoas que têm ambientes de suporte adequados sejam as que são capazes de viver até uma idade mais avançada, e ter um resultado melhor, acrescentou ela.

Ainda assim, não há nenhuma garantia de que alguém vá se recuperar de esquizofrenia: um paciente pode ter todos os fatores de proteção, mas não se recuperar, salientou Moreno.

A maioria dos pacientes lida com seus sintomas por toda a vida, mas muitos também são capazes de desfrutar uma existência gratificante, de acordo com o Instituto Nacional de Saúde Mental (NIMH).

Futuras pesquisas sobre as causas da doença podem levar a melhores formas de prevenir e tratar a doença, avalia o NIMH.


Publicado em Scientific American em 4 de junho de 2015.