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EPA insiste em método de avaliação de produtos químicos

A decisão contraria conclusões de cientistas sobre riscos de baixas doses

Sunny Forest/Shutterstock
Atrazina, um pesticida amplamente utilizado nas culturas de milho, foi associado a alterações hormonais em animais.

 
Por Brian Bienkowski e Environmental Health News

A Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos (EPA) concluiu que os atuais testes de produtos químicos que alteram hormônios são inadequados para detectar efeitos de doses baixas, potencialmente prejudiciais.

Essa atitude vem em resposta a um relatório escrito no ano passado por 12 cientistas que criticaram a estratégia do governo, proposta há décadas, para testar a segurança de muitos produtos químicos encontrados no ambiente e em produtos de consumo.

Os cientistas se concentraram especificamente em um fenômeno chamado de “resposta não-monotônica a doses”, o que significa que substâncias químicas parecidas com hormônios frequentemente não agem de maneira típica; eles podem ter efeitos sobre a saúde em doses baixas, mas nenhum efeito, ou efeitos diferentes, em doses altas.

A EPA frequentemente avalia os riscos de substâncias químicas testando a exposição de animais de laboratório a altas dosese, em seguida, extrapolam os resultados para doses mais baixas, encontradas nas pessoas e na vida selvagem. 

Dúzias de substâncias que imitam ou bloqueiam o estrogênio, a testosterona ou hormônios da tiroide são encontrados no ambiente, nos alimentos, em pesticidas e em produtos de consumo.

A ideia de que essas substâncias químicas afetam as pessoas em doses baixas permanece controversa.

O relatório da EPA, “State of the Science”, completado na semana passada, descobriu que essas respostas a doses baixas “de fato ocorrem em sistemas bilógicos, mas geralmente não são comuns”.

“Atualmente não há evidências reprodutíveis” de que os efeitos de doses baixas vistos em testes de laboratório “preveem resultados adversos que podem ser observados em populações de seres humanos ou de vida selvagem para o estrogênio, androgênio ou para hormônios da tiroide”, declarava o relatório da agência.

“Portanto, é improvável que as estratégias atuais de testes descaracterizem... um químico que tem o potencial para perturbar as rotas de estrogênio, androgênio ou de hormônios da tiroide”.

O relatório foi escrito por oficiais da EPA com dados de uma equipe de cientistas e administradores da Food and Drug Administration, do Instituto Nacional de Ciências Ambientais e do Instituto Nacional de Saúde e Desenvolvimento Infantil, que revisaram a ciência de substâncias químicas com efeitos endócrinos.

O documento foi assinado por Robert Kavlock, o vice-assistente de administração científica da EPA.

A equipe federal foi reunida em junho último em resposta ao relatório dos cientistas, publicado há alguns meses pela autora Laura Vandenberg, pesquisadora da Tufts University, e por seus colegas. Pete Myers, fundador da Environmental Health News e cientista-chefe da Environmental Health Sciences, foi o autor sênior do relatório. 

O relatório da EPA será revisado por um painel das Academias Nacionais de Ciências.

O Conselho de Química da América, que representa empresas de produtos químicos, elogiou a conclusão da EPA.

A EPA “afirma o que os principais cientistas expressam há anos: a suposta evidência científica para exposições não-monotônicas a doses baixas, levando a problemas endócrinos e efeitos adversos é, no máximo, muito fraca”, comentou o grupo industrial em uma declaração preparada.

De acordo com Vandenberg, apesar de persistir o debate sobre como avaliar os riscos dessas substâncias, o fato de a EPA reconhecer a existência de respostas não-monotônicas a determinadas doses é um passo adiante, resultado de anos de ciência.

Mas ela adicionou que a EPA fez algumas “decisões estranhas, e possivelmente políticas” no novo relatório.

A crença da EPA de que testes de altas doses podem prever a segurança os efeitos de doses baixas “vai contra nosso conhecimento sobre o funcionamento de hormônios”, contou Vandenberg à EHN, por email. “As substâncias químicas que prejudicam o sistema endócrino são altamente tóxicas em doses altas mas agem como hormônios, com ações completamente diferentes, em doses baixas”.

No relatório de 2012, Vandenberg e colegas apontaram que substâncias como o bisfenol A (BPA) – encontrado em plástico policarbonato e em alguns alimentos enlatados e recibos de papel – e a atrazina, um pesticida usado principalmente no milho, são exemplos de produtos químicos testados de maneira inadequada para proteger a saúde humana.

“Não é mais conjectura que baixas doses de compostos prejudiciais ao sistema endócrino influenciam transtornos humanos, como mostram estudos epidemiológicos de que exposições ambientais são associadas a doenças e deficiências humanas”, declararam os cientistas em seu relatório publicado no periódico Endocrine Reviews.

Eles citaram evidências de uma grande variedade de efeitos sobre a saúde de pessoas – de fetos a adultos idosos – incluindo ligações com infertilidade, doenças cardiovasculares, obesidade, câncer e outros transtornos.

De acordo com Vandenberg, a EPA usou estudos desatualizados sobre a atrazina, quando deveria ter usado uma nova publicação com dúzias de autores do mundo todo mostrando os “efeitos consistentes de doses baixas dessa substância química em anfíbios, répteis, peixes, aves e mamíferos”.

Sua discussão dos efeitos de doses baixas do BPA sobre a próstata “também estão aproximadamente uma década atrasados, e dão créditos a estudos financiados pela indústria que tinham projetos experimentais falhos e controles positivos fracassados”, conclui ela.

Este artigo foi originalmente publicado em Environmental Health News, uma fonte de notícias publicada por Environmental Health Sciences, uma empresa de mídia sem fins lucrativos.

sciam4jul2013