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Epidemia de Ebola decorre de única contaminação de humano

Identificação da fonte do vírus valida estratégia adotada contra epidemia

 

Cortesia de Stephen Gire
 Augustine Gioba, um dos autores do estudo (retratado acima), diagnosticou o primeiro caso de Ebolaem Serra Leoa.

 

 
Por Dina Fine Maron

Um fato gritante da mais recente publicação sobre o surto de Ebola é que cinco dos muitos autores do estudo estão mortos, vitimados pela doença que grassa na África ocidental. A nova análise, divulgada em 29 de agosto na publicação científica Science, revela que a atual epidemia resultou de uma transferência inicial anterior do vírus da natureza para humanos, e não de saltos repetidos do vírus entre uma incubadora natural, talvez animais infectados, para humanos.

Ao esboçarem essencialmente uma árvore genealógica molecular de alta tecnologia, pesquisadores concluíram que o vírus que se propaga por Serra Leoa e países vizinhos* é descendente de um salto viral do Ebola original e de não novas versões do patógeno que estão sendo introduzidas reiteradamente na população humana.

Isso significa que a resposta dos profissionais de saúde pública a esse surto, que se concentra no rastreamento e tratamento de pessoas expostas a pacientes infectados, em vez de tentar manter humanos longe de potenciais transmissores animais, tem sido a estratégia correta. [*Na sexta-feira, 29, um quinto país entrou na lista quando o Ministério da Saúde do Senegal confirmou o primeiro caso da doença que vem afetando Guiné, Libéria, Serra Leoa e Nigéria.] 

A conclusão deriva de uma ampla análise de 99 sequências do genoma do Ebola que infectou cerca de 70% dos pacientes diagnosticadosem Serra Leoaentre o final de maio e meados de junho.

As amostras de vírus foram extraídas do sangue de 78 pacientes iniciais do surto serra-leonense. O trabalho indica que o primeiro caso da doença no país está associado ao sepultamento de um curandeiro que havia tratado de pacientes com Ebola na Guiné. Posteriormente, outras 13 mulheres que compareceram ao funeral desenvolveram a doença viral.

Esse trabalho ainda não ajuda pesquisadores a entender qual foi a fonte original da infecção no primeiro semestre do ano; se foi carne contaminada, contato com um morcego frugívoro infectado ou algo completamente diferente.

Um estudo anterior publicado no The New England Journal of Medicine mostrou que o vírus Ebola responsável pelo surto atual é parente da cepa do Zaire, mas ainda não se sabe como o patógeno migrou para humanos. A nova informação confirma apenas que o agente desta epidemia se originou da cepa do Ebola zairense de 1976 e não de uma cepa do vírus que coevoluiu, o que foi uma preocupação logo no início do surto atual.

O estudo oferece um ponto de referência de como a atual cepa viral se compara às de outros episódios.

Não é surpresa que o vírus tenha se modificado de modo significativo ao longo do tempo, como que acontece com a maioria deles, apresentando mais de 300 mutações que o diferenciam de outros surtos de Ebola desde a década de 70. A rapidez com que ele passa por mutações também fica logo evidente: 55 pequenas mudanças ocorreram em comparação com sequências referenciais obtidas dos vírus Ebola na Guiné apenas poucos meses antes.

No espectro de mutações de vírus, o Ebola tem uma taxa de mudanças relativamente lenta em comparação com os de influenza e HIV, mas suas mutações ainda ocorrem mais rápido que as do vírus da varíola.

Ainda assim, quanto mais tempo o patógeno permanecer sem controle mais mutações ele continuará acumulando e algumas delas poderiam revelar-se mais problemáticas, além de torná-lo potencialmente mais letal ou facilmente transmissível entre humanos.

Pesquisadores ainda não conseguiram, no entanto, identificar como, exatamente, essas atuais alterações, algumas das quais envolvem mudanças de aminoácidos, podem revelar-se um desafio para humanos.

O novo estudo de sequenciamento poderia ajudar especialistas em saúde pública a compreender como controlar a atual epidemia ao revelar com que eficiência diagnósticos e potenciais terapias se adéquam à composição genética desta cepa viral. Quando um novo medicamento é criado, por exemplo, ele normalmente é testado contra todas as sequências disponíveis do vírus que deve combater.

O autor do estudo Stephen Gire, cientista de pesquisa do Ebola na Harvard University, salienta que um dos pontos mais importantes abordados no artigo é que, ao contrário dos esforços de sequenciamento na maioria dos surtos anteriores, sua equipe foi capaz de sequenciar muitos vírus rápido o suficiente, para fornecer informações sobre as melhores tentativas de respostas à atual epidemia.

O sequenciamento não só permitiu que os genomas agissem como uma referência para medir potenciais terapias contra a infecção viral, mas também confirmou que o vírus está se propagando de humano para humano, e não a partir de outras fontes.

Ainda assim, há limitações para os dados. Como o sequenciamento envolveu apenas os vírus ativos em Serra Leoa durante um período de três semanas nessa primavera africana, “realmente não temos uma imagem completa do surto na África ocidental; e acredito que essa informação seja vital para entender essa epidemia como um todo”, admite Gire.

Ainda assim, o esforço fornece informações valiosas sobre o surto atual. “Estou absolutamente fascinado por esse trabalho”, confessa William Schaffner, especialista em doenças infecciosas da Vanderbilt University. O estudo fornece “fortes evidências de que, uma vez que o vírus foi introduzido na população humana, a transmissão posterior foi de humano para humano, e não através de reiteradas introduções a partir da natureza”, explica ele.

Se o vírus tivesse se originado de mais de um “reservatório” natural, isso seria detectável nas sequências genômicas, acrescenta Christopher Mores, diretor associado do Centro de Pesquisa Experimental de Doenças Infecciosas da Louisiana State University. “Se estivéssemos vendo introduções vindas de outras zonas epidêmicas ou, mais provavelmente, outra fonte natural, no caso animais, esperaríamos detectar reiteradamente uma assinatura pré-epidêmica”.

Gire ressalta que “a exposição a reservatórios animais sempre será uma preocupação, assim como uma educação adequada sobre como lidar corretamente com carne de caça e ficar longe da carne de animais já mortos é importante na prevenção de doenças, mas nossos dados mostram que a transmissão de humano para humano é o fator responsável por essa epidemia”.

Desde que o atual surto de Ebola foi informado à Organização Mundial da Saúde (OMS), em março, mais de 1.500 pessoas morreram na Guiné, Libéria, Nigéria e Serra Leoa (no Senegal ainda não foram informados casos fatais), inclusive mais de 120 profissionais de saúde. “Em muitos casos as equipes médicas estão em risco devido à indisponibilidade de equipamentos de proteção, nem mesmo luvas e máscaras faciais. Mesmo em enfermarias dedicadas a pacientes infectados com Ebola, os equipamentos de proteção individuais muitas vezes são escassos ou não estão sendo usados corretamente”, informou a OMS em um comunicado.

O artigo publicado em Science é uma colaboração entre profissionais de saúde da Harvard University e do Hospital Público Kenemaem Serra Leoa, entre outras instituições. Os cinco autores do estudo que faleceram, do grupo original de 58, eram todos de Serra Leoa e incluíram três enfermeiros, um médico e um hematologista que trabalhavam meio período em um laboratório de Ebola. Ainda não se sabe se eles foram infectados no trabalho, ou por membros doentes de suas famílias ou da comunidade.

Até o momento não existe uma vacina contra o atual vírus de Ebola ou um tratamento medicamentoso comprovado.

O National Institutes of Health planeja iniciar testes clínicos humanos de uma potencial vacina na primeira semana de setembro. Resultados iniciais indicando se ela é segura e provoca uma resposta imune devem estar disponíveis em novembro. Outra vacina será testada em ensaios clínicos no Canadá.

Enquanto isso, nenhum tratamento medicamentoso se mostrou eficaz para ajudar pessoas infectadas com Ebola. Embora uma droga experimental, ZMapp, tenha sido ministrada a alguns pacientes (inclusive dois americanos — um médico e uma missionária), alguns morreram e não há como saber se o medicamento ajudou, agravou o estado deles ou não teve efeito.

A atual epidemia só ressalta a falta de atenção que tem sido dedicada à necessidade de uma infraestrutura de saúde global forte, além da necessidade de tornar a segurança de saúde global uma prioridade em países individuais, critica Anthony Fauci, diretor-executivo do Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas dos Estados Unidos. “Se houvesse uma infraestrutura de cuidados de saúde que respondesse rapidamente — identificando e isolando casos, fornecendo assistência médica adequada e fazendo o rastreamento adequado de contatos — então essa epidemia poderia perfeitamente ter sido controlada há muito tempo”.

SA 28 de agosto de 2014

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