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Esforços de eficiência energética podem ser fúteis

Isolamento, climatização e outras tentativas para reduzir os gastos de energia talvez não valham à pena devido aos custos, sugere um novo estudo

SHUTTERSTOCK
Scott Detrow e ClimateWire

 

Na reta final da apresentação de seu Plano de Energia Limpa (Clean Power Plan), a Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos (EPA) promoveu consistentemente os esforços de eficiência energética como uma maneira barata, fácil e financeiramente vantajosa para cumprir a ambiciosa meta de reduzir em 30% as emissões de gases de efeito estufa do setor.

“Quando você olha para a eficiência energética, essa é, de fato, a melhor abordagem para enfrentar o desafio da poluição por carbono de uma forma que é tremendamente eficiente em termos de custos”, avaliou a administradora da EPA Gina McCarthy em abril em um painel organizado pelo Instituto de Política Energética da Universidade de Chicago.

De acordo com McCarthy, esforços de eficiência são “um caso extremo de como você pode conseguir [definir metas de redução de emissões de carbono] ao menor custo possível”.

De fato, a EPA previu que melhorias de eficiência adotadas para cumprir metas de nível estadual acabarão, em última instância, diminuindo as contas de energia elétrica mensais para consumidores, simplesmente ao reduzirem a demanda geral.

Mas agora um artigo divulgado pelo mesmo instituto parece apontar falhas graves nos argumentos da EPA.

Ao examinar um grande programa de climatização do estado de Michigan, o estudo constatou que, enquanto melhorias (upgrades) reduziam o consumo em torno de 10% a 20%, as economias energéticas totais, geradas ao longo de uma “janela” de 16 anos, representavam menos de 50% dos custos iniciais de climatização. 

Essas economias foram muito menores que as estimativas previstas inicialmente.

O estudo também constatou que, apesar da promessa de upgrades gratuitos de climatização e de economias de longo prazo nas contas de energia elétrica, os administradores do programa tiveram uma experiência difícil, e cara, para convencer proprietários de residências em Michigan para participar do programa.

“Mesmo quando se contabilizam os benefícios sociais mais abrangentes dos investimentos em eficiência energética, os custos ainda superam substancialmente os benefícios”, concluiu o relatório.

“Para sermos sinceros, ficamos surpresos”, admitiu Catherine Wolfram, coautora do artigo e professora na Haas School of Business, da Universidade da Califórnia em Berkeley.

“A percepção é de que eficiência energética não é apenas o fruto maduro, ao alcance da mão, mas o fruto que já caiu no chão, à espera de ser apanhado. Aquele almoço de graça que você é pago para consumir”.

 

“Não é um bom investimento”

O estudo monitorou 30 mil domicílios em Michigan que foram considerados elegíveis para o programa de assistência à climatização pelo Programa de Assistência à Climatização (WAP, na sigla em inglês), do governo federal, que fornece financiamento para auditorias de energia domiciliar e upgrades como novas fornalhas (ou caldeiras) e instalação de isolamento.

“O WAP é o maior programa de eficiência energética residencial da nação e forneceu a mais de sete milhões de domicílios de baixa renda assistência de climatização desde a sua criação, em 1976”, observa o estudo.

O monitoramento começou em 2011, em uma época em que o financiamento nacional para o programa de climatização saltou de US$ 450 milhões para quase US$ 5 bilhões graças à Lei Americana de Reinvestimento e Recuperação. 

Cada família participante recebeu cerca de US$ 5 mil em auditorias e upgrades, sem nenhum custo pessoal, segundo a pesquisadora. Ainda assim, o interesse e o eventual acompanhamento do programa foram baixos.

“Nós fomos pessoalmente às suas casas, explicamos o programa para eles, explicamos que os estaríamos ajudando com o processo de registro”, salientou Wolfram, que acrescentou: “Só 12% aceitaram a nossa oferta para ajudar... e, depois disso, só 6%; e depois só metade desses de fato adquiriu a climatização por si”.

Para Steven Nadel, diretor executivo do Conselho Americano para uma Economia Energética Eficiente isso não  é surpresa:

“É difícil chegar a essas pessoas”, salientou. “Elas estão trabalhando em vários empregos, não têm certeza se querem confiar no governo... há muitas razões para pessoas não quererem participar”.

Mas Nadel advertiu contra tirar conclusões abrangentes sobre o custo de eficiência energética e o potencial do estudo da Universidade de Chicago.

“Eles olharam para um único programa e estão tentando generalizar”, sentenciou, argumentando que esforços de climatização como o WAP estão entre “os programas de eficiência menos prováveis de estarem entre os que envolvem custo-benefício”.

De acordo com ele, tudo vai contra os esforços de expansão/instalação e o trabalho braçal de homens contra a climatização.

“Os benefícios só são fracionalmente maiores que o custo. Você quer o ponto de equilíbrio”, disse ele. “Você pode fazer isso por razões de equidade e razões de serviço social, tanto quanto por razões de poupança”.

Mas nos casos examinados no estudo, a economia não chegou nem perto do montante do custo inicial.

Os autores projetaram seus três anos de dados de contas de eletricidade e aquecimento para um período de 16 anos.

“Estamos vendo em média US$ 2.400 em custos energéticos evitados, ao passo que esse custo era [também em média] de US$ 5 mil”, informou Catherine Wolfram e acrescentou: “Isso é realmente decepcionante. Você gasta US$ 5.000 e obtém US$ 2.400 de volta, isso não é um bom investimento”.

 

A EPA continua “confiante”

A agência ambiental defende sua previsão de que os estados do país serão capazes de alcançar porções significativas das metas de seu Plano de Energia Limpa através de programas de eficiência energética.

“A EPA está confiante nos benefícios da eficiência energética”, afirmou a porta-voz da entidade Melissa Harrison em um comunicado enviado por e-mail.

“Reconhecemos que existem diferentes abordagens para quantificar os benefícios. A confiança da EPA está baseada em métodos de avaliação, medição e verificação padrão da indústria, que são usados por comissões de serviços públicos (PUCS) estaduais e empresas de energia e que são apoiados por protocolos rigorosos e revisões por terceiros”.

De fato, muitos outros estudos chegaram a conclusões muito diferentes sobre eficiência energética, inclusive um relatório divulgado no início desta semana pelo Instituto Avançado de Economia de Energia (AEEI).

O relatório do AEEI concluiu que eficiência energética e energias renováveis já são recursos competitivos no mercado de energia, tornando-os mecanismos de concordância, ou conformidade viáveis para o Plano de Energia Limpa.

Seus autores também frisam que a Administração de Informação sobre Energia dos Estados Unidos (EIA) subestimou sistematicamente a dimensão da indústria de energia limpa.

A entidade projetou, por exemplo, que a capacidade de energia solar nos Estados Unidos dobraria entre 2014 e 2026, enquanto a atual trajetória de sua implantação indica que isso já poderia ocorrer até 2016.

O relatório do AEEI mostra que eficiência energética, através de programas baseados em companhias de energia e através de terceirizações por desempenho, é um setor em franca expansão que custa muito menos que atender a demanda por meio de nova geração de energia.

Empresas de serviços de energia que oferecem contratos de eficiência expandiram seu mercado de US$ 2,5 bilhões em 2005 para US$ 6 bilhões em 2013. E, esse mesmo mercado está determinado a alcançar US$ 15 bilhões até 2020.

“Não que essas sejam projeções de algum grupo ambientalista [verde] maluco; esses são dados das próprias concessionárias”, salientou Malcolm Woolf, vice-presidente sênior de política na associação de empresas Advanced Energy Economy, que opera o AEEI como sua afiliada educacional. 

Subestimar o setor de energia renovável e eficiência energética torna mais difícil que projetos consigam garantir a obtenção de financiamento e investidores, acrescentou Woolf.

“Espero que os investidores deem uma segunda olhada nessa indústria. Muitos [ainda] não perceberam como o mundo energético mudou”, observou ele. “Ele tem se mostrado uma contínua história de progresso entra ano, sai ano”.

Ainda assim, Catherine Wolfram admitiu que o fracasso do programa de climatização de Michigan de criar atalhos ou ganhar de volta os custos iniciais no estado a deixou preocupada quanto à possibilidade de o Plano de Energia Limpa talvez depender demais da eficiência energética.

“Se [o plano] estiver sendo vendido como algo que poupará dinheiro às pessoas, se ele não estiver reduzindo o consumo de energia em tanto quanto ele custa, então sim, isso é um problema”, admitiu ela. 

Contribuição do repórter Umair Irfan

Reproduzido de Climatewire com permissão de Environment & Energy Publishing, LLC. www.eenews.net, 202-628-6500.

Publicado em Scientific American em 24 de junho de 2015.