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Esqueça os carros voadores: drones para passageiros podem pairar logo logo em um lugar próximo a você

Quadricópteros autopilotados fazem mais sentido do que misturar avião com carro - mas há problemas de segurança e logística

Ben Smith/Flickr
O sonho do carro voador pode se esborrachar no chão antes mesmo de decolar. Quem está alçando voo em seu lugar é a ideia de uma rede de drones autopilotados grande o suficiente para levar passageiros individuais pela cidade. Esse é o futuro imaginado por diversas start-ups que estão desenvolvendo os chamados “drones com passageiro”, que poderiam reduzir de horas para minutos o tempo dos deslocamentos.

A princípio, drones carregando pessoas parecem algo tão pouco realista quando carros voadores. Até recentemente, inventores nunca tinham conseguido juntar automóveis e aviões de uma forma prática. Mesmo assim, algumas companhias seguiram tentando: a Terrafugia, empresa com sede em Woburn, Massachusetts, por exemplo, está desenvolvendo desde 2006 o Transition, um “avião com rodas” que lembra um pequeno avião e que pode dobrar suas asas e rodar em estradas. Contudo, um carro voador pessoal em cada garagem provou ser algo difícil de alcançar, além de haver sérias preocupações quanto à segurança de pedir ao motorista comum que passe por um treinamento para obter um brevê de piloto e saia voando pelos céus.

Em contrapartida, drones com passageiros operariam de forma autônoma e deixariam a parte “rodável” de lado, baseando-se em versões maiores de máquinas que já operam. A start-up chinesa EHANG anunciou no mês passado que faria a estreia de seu serviço de drone com passageiro em julho, em Dubai. O veículo aéreo autônomo EHANG184 lembra um enorme quadricóptero com uma cabine para passageiro empoleirada em cima. No último mês de outubro, o serviço de caronas Uber divulgou o Elevate, seu programa para transporte aéreo urbano e anunciou apoio a empresas que estivessem construindo veículos similares ao 184. A Uber recentemente reforçou seus planos ao contratar Mark Moore, engenheiro aeroespacial do Centro de Pesquisa Langley da NASA e pioneiro em projetos de decolagem e aterrissagem vertical (VTOL, na sigla em inglês) de aeronaves. Diversas outras companhias, incluindo a Joby Aviation e as start-ups Zee.Aero e Kitty Hawk - ambas criadas por Larry Page, cofundador do Google - do Vale do Silício, estão na corrida para desenvolver aviões VTOL elétricos que possam tornar o Elevate realidade. Da mesma forma, a Terrafugia planeja oferecer, eventualmente, um veículo aéreo VTOL - o TF-X - além do Transition.

O design do drone com passageiro favorece a “propulsão elétrica distribuída”, o que significa que, ao invés de um grande rotor alimentado por um grande motor, eles possuem múltiplas hélices, cada uma alimentada por seu próprio pequeno motor. Isso sacrifica poder de elevação e performance de voo em troca em simplicidade mecânica e menor peso - fatores que podem fazê-lo mais barato de operar. A energia elétrica, por ser mais silenciosa, poderia tornar o barulho tolerável para os moradores da cidade, embora ainda seja preciso determinar quanto peso um veículo desses poderia transportar, e a que distância.

Com qualquer um desses veículos, a segurança é a maior das preocupações, tanto em relação às aeronaves quanto aos sistemas automatizados que as operam. Será preciso empregar inteligência artificial (IA) avançada para fazer um grande número de aviões autônomos voar sem colidirem uns com os outros, ou com os helicópteros de monitoramento de tráfego dos canais de notícias, por exemplo. Levar pessoas do ponto A para o B parece bastante simples, mas até mesmo a melhor IA pode sofrer com surpresas: o que, por exemplo, um drone faria se uma área de pouso de repente ficasse indisponível? É o que pergunta Sanjiv Singh, pesquisador de robótica na Universidade Carnegie Mellon e CEO da Near Earth Autonomy, uma start-upque desenvolve sistemas inteligentes de voo. Em vez de saltar para drones de passageiros totalmente automatizados, ele sugere primeiro testar a AI necessária em voos de carga não tripulados. Os primeiros serviços de passageiros podem incluir pilotos assistidos por co-pilotos de IA - uma abordagem de "modo misto" que Singh ajudou a desenvolver para o projeto “Transformer”, do exército dos EUA (que mais recentemente se transformou no projeto ARES, da Lockheed Martin), para construir um drone que possa transportar cargas ou soldados feridos.

Mesmo assim, alguns especialistas estão otimistas, mas com certo cuidado. Os desafios tecnológicos podem ser superados, diz Marilyn Smith, diretora associada do Centro de Excelência em Pesquisa de Vôo Vertical, do Instituto de Tecnologia da Geórgia. “Eu acredito que o grande obstáculo é a infraestrutura regulamentar que tem de ser posta em prática” para garantir segurança, diz Smith.

Os reguladores da Administração Federal de Aviação (FAA, na sigla em inglês) ainda não emitiram regras para os drones de passageiros. Contudo, a FAA está trabalhando com a NASA e a indústria privada para encontrar maneiras de gerenciar enxames de drones para pequenas entregas e respostas de emergência - regras que talvez possam ser aplicadas também a aeronaves autônomas maiores. A abordagem da NASA se baseia em operadores de drones que enviam informações de voo para um sistema centralizado - como um controle de tráfego aéreo automatizado - que rastreia a localização de aeronaves autônomas, diz Parimal Kopardekar, pesquisador principal do projeto Gerenciamento de Tráfego de Sistemas de Aeronaves Não Tripuladas, da NASA. O sistema em desenvolvimento forneceria um "quadro comum do que está acontecendo no espaço aéreo" para que os drones possam se afastar de outras aeronaves, explica Kopardekar. Um projeto relacionado, também da NASA - a Integração de Sistemas de Aeronaves Não Tripuladas no Sistema de Espaço Aéreo Nacional - está desenvolvendo um sistema de "detectar e evitar" para drones, a fim de evitar colisões aéreas.

Desafios técnicos a parte, EHANG, Uber e outras companhias que estão promovendo essa tecnologia precisarão encontrar uma forma de convencer o público de dar a suas naves uma chance, o que exige um salto no escuro muito maior que sentar-se no banco de trás de um carro que dirige sozinho. Os fabricantes de drones com passageiro “ainda estão, obviamente, nos estágios de incubação do desenvolvimento de tecnologia e melhorando as coisas básicas”, diz Mike Hirschberg, diretor executivo da Sociedade Americana de Helicópteros, uma organização para engenheiros e cientistas que promove tecnologia VTOL. “Porém, daqui 20 ou 30 anos a vida talvez seja um pouco como no desenho Os Jetsons, onde você tira proveito da terceira dimensão e tem muito mais mobilidade, especialmente quarteirões urbanos onde há engarrafamento no transporte terrestre”.

O progresso dos drones com passageiros, entretanto, pode acabar se tornando uma decolagem curva ao invés de uma vertical, dependendo de para quem você faz as perguntas. “Este não é o ‘velho’ carro voador”, Hirschberg diz. “É um trabalho muito sério - e vai acontecer”. Mesmo assim, Singh vê uma longa estrada a frente, cheia de testes, análises, regulações e esforços para ganhar a confiança do público antes que a tecnologia se torne uma opção viável de transporte. “Há o perigo de que alguém faça as coisas rápido demais e esbarre num problema que faça todo o setor retroceder por algum tempo”, ele explica.

 

Jeremy Hsu
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