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Estação Charles Darwin em perigo

Decisão do governo equatoriano pode inviabilizar funcionamento da sede no arquipélago das Galápagos

 

Dallas Krentzel via flickr
Cientistas da estação ajudaram a resgatar a icônica tartaruga-gigante-das-galápagos da ameaça de extinção.
Por Aleszu Bajak e Nature magazine

Durante mais de meio século, a Fundação Charles Darwin (FCD) manteve uma próspera estação de pesquisa na ilha de Santa Cruz, no arquipélago das Galápagos, do Equador.

Nesse período, cientistas da estação ajudaram a resgatar a icônica tartaruga-gigante-das-galápagos (Chelonoidis nigra) da beira da extinção e participaram ativamente dos esforços para erradicar cabras invasoras da ilha Isabela, a maior do arquipélago.

Lamentavelmente, esse longo legado está sendo ameaçado por uma rixa com o governo local, que poderia forçar a Estação de Pesquisa Charles Darwin a encerrar suas atividades.

Em julho, autoridades da ilha de Santa Cruz ordenaram que a FCD fechasse sua lucrativa loja de presentes e souvenires na cidade de Puerto Ayora, citando reclamações de donos de restaurantes e comerciantes que teriam alegado que ela estava prejudicando seus negócios.

De acordo com a fundação, a determinação resultou em um prejuízo semanal de pelo menos US$ 8 mil e as perdas totais poderão chegar a US$ 200 mil se o estabelecimento permanecer inoperante durante o resto do ano.

“O fechamento da loja basicamente arruinou nosso orçamento de2014”, resume o presidente da FCD Dennis Geist, um vulcanólogo que estudou sítios vulcânicos nas Galápagos durante 30 anos.

“Não temos um fundo de dotação. Nem sequer temos quaisquer fundos de reserva. O fechamento da estação Darwin é uma possibilidade muito realista nesse momento”.

Em 24 de novembro, o corpo administrativo da fundação reuniu-se em Quito, a capital do Equador, e seus membros votantes, que incluem funcionários do governo federal equatoriano, concordaram em formar um grupo de trabalho “para garantir estrategicamente a operação da estação de pesquisa”.

No entanto, as dificuldades financeiras já estão afetando o funcionamento da instalação, que emprega mais de 60 pessoas e trabalha com mais de 100 colaboradores científicos internacionais.

Embora a loja de presentes responda por apenas 10% da receita da fundação, seu fechamento teve efeitos em cascata, salienta o diretor-executivo da FCD Swen Lorenz.

“Já perdemos uma doação significativa de alguém que simplesmente disse que se o governo equatoriano não permitir que tenhamos uma loja de souvenires, então ele não nos apoiará com uma doação”, conta Lorenz.

“Estamos dois meses e meio atrasados com os salários, os projetos não têm avançado, e um funcionário do quadro de pessoal fixo já se demitiu”.

Alex Hearn, diretor de ciência da conservação na Turtle Island Restoration Network, um grupo de defesa ambiental com sede em Olema, na Califórnia, salienta que o fechamento da estação Darwin seria um grande golpe.

Praticamente todo cientista que já trabalhou nas ilhas Galápagos lidou direta ou indiretamente com a FCD, observa ele.

Hearn coordenou a pesquisa de estoques de peixes na estação de2002 a2008 e ainda trabalha em estreita colaboração com cientistas da instalação em pesquisas sobre tubarões e populações písceas.

“Não preciso pegar um avião toda vez que preciso de alguns dados”, diz ele. “Eu sei que a pesquisa pode ser feita, e bem feita”.

Este artigo foi reproduzido com permissão e foi publicado originalmente em 25 de novembro de 2014.

Scientific American 25 de novembro de 2014