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Estalos Mentais

Pesquisadores investigam forma incomum de memória proustiana

Ferris Jabr
Ilustrações por Thomas Fuchs
Na vida cotidiana as pessoas geralmente buscam informações específicas na memória: “Onde deixei as chaves do carro?”, “Será que desliguei o forno?”. Outras vezes elas se lembram ativamente do passado: “Lembra aquela noite incrível da semana passada?”. Mas nem toda lembrança é uma escolha; algumas formas de memória são involuntárias.

Talvez o exemplo mais famoso seja da obra Em busca do tempo perdido do romancista francês Marcel Proust. Enquanto o narrador toma chá e come um pequeno bolo conhecido como madeleine, o sabor dele evoca a lembrança de comer o mesmo doce na casa de uma tia, quando ele era jovem.

Pesquisadores estão começando a estudar uma forma relacionada de memória chamada de mind pops, fragmentos de conhecimento, como palavras, imagens e melodias, que surgem inesperadamente na consciência. Ao contrário do exemplo proustiano, os mind pops, termo cunhado por George Mandler, professor emérito da University of California, em San Diego, parecem completamente irrelevantes para os momentos e pensamentos que invadem. Eles são mais frequentemente palavras ou frases, em vez de imagens ou sons, e geralmente acontecem em meio a uma atividade habitual que não exige muita concentração. (Você está, por exemplo, lavando louça quando a palavra “orangotango” lhe ocorre sem razão aparente.) Identificar algo que dispare um mind pop no ambiente circundante, ou até em pensamentos anteriores, é extremamente difícil: eles parecem surgir do nada.

Psicólogos estão descobrindo que mind pops não são realmente aleatórios: estão ligados a nossas experiências e conhecimento do mundo, apesar de seus fios serem ocultos. A pesquisa sobre esses processos é preliminar, mas até o momento estudos sugerem que o fenômeno é genuíno e comum. Algumas pessoas percebem seus mind pops mais frequentemente que outras, e mind poppings frequente podem acelerar a resolução de problemas e aumentar a criatividade. Na mente de algumas pessoas – como esquizofrênicos, no entanto – os mind pops podem evoluir de fenômeno benigno para alucinações perturbadoras. Lia Kvavilashvili, psicóloga da University of Hertfordshire, na Inglaterra, propõem que os mind pops são frequentemente explicados por um tipo de priming de longo prazo. Priming descreve uma das formas de a memória se comportar: “cada novo pedaço de informação que encontramos diariamente ativa certas representações na mente”, explica Lia. “Se você passar por uma loja de peixe e petiscos, não apenas o conceito de peixe pode ser ativado, mas também várias outras coisas relacionadas a peixes, e essas coisas podem permanecer ativas por certo período de tempo – horas ou dias. Posteriormente outras situações podem disparar esses conceitos já ativos, o que dá a sensação de virem do nada.” Esse fenômeno pode aumentar a criatividade porque, de acordo com ela, “se muitos conceitos diferentes permanecerem ativos em nossa mente podemos fazer conexões com mais eficácia que se a ativação desaparecesse instantaneamente”.

Recentemente, Lia e seus colegas publicaram um estudo verificando um possível lado negro dos mind pops. Os pesquisadores se perguntaram quanto são semelhantes as lembranças diárias involuntárias de pensamentos intrusivos e alucinações observadas em transtornos mentais como depressão, estresse pós-traumático e transtornos obsessivos compulsivos. Os resultados, que aparecem na edição de abril da Psychiatry Research, sugerem que mind pops são mais comuns entre os mentalmente doentes queentre os sãos, mas ainda é cedo demais para ligar definitivamente memórias súbitas a alucinações.

Lia vem trabalhando em mais estudos sobre o fenômeno, em particular em um sobre mind pops musicais e sua relação músicas que se repetem continuamente na cabeça das pessoas. “O estudo desses fenômenos ainda está em sua infância”, aponta ela. “Fiquei curiosa porque eles pareciam aleatórios, mas esses “estalos” são fragmentos genuínos de conhecimento sobre o mundo. O que isso nos mostra é que nosso subconsciente frequentemente conhece o significado de uma experiência, mesmo se conscientemente não soubermos disso.”
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