Sciam
Clique e assine Sciam
Notícias

Estamos no limiar de uma guerra no espaço?

China, Rússia e Estados Unidos testam e desenvolvem controversas capacidades para travar combates na órbita da Terra

 

Shuttersotock
O ponto crítico militar mais preocupante e nebuloso do mundo não está, indiscutivelmente, no Estreito de Taiwan, na Península da Coreia, no Irã, em Israel, na Caxemira ou na Ucrânia. De fato, ele não pode ser localizado em nenhum globo em miniatura. O território contestado? A “terra de ninguém” que é a órbita terrestre, onde está se desdobrando um conflito que é uma corrida armamentista em tudo, menos no nome.

Cerca de 1.300 satélites ativos atualmente residem na região do espaço exterior que circunda diretamente o nosso planeta, de onde propiciam comunicações globais, navegação por GPS, previsão meteorológica e muito mais. Para nações que dependem de um seleto número desses satélites para guerras modernas, o espaço se tornou o “terreno elevado” por excelência, com os EUA no “topo da colina”, como indisputável rei. Agora, à medida que China e Rússia tentam desafiar agressivamente a superioridade americana no espaço, com ambiciosos programas de defesa e exploração próprios, essa luta pelo poder corre o risco de deflagrar um conflito que poderia paralisar a infraestrutura espacial de todo o planeta.

Embora possa começar lá no alto, no espaço, um conflito desses poderia facilmente provocar uma guerra total aqui, na superfície da Terra.

Ao depor perante o Congresso no início de 2015, James Clapper, diretor de Inteligência Nacional dos EUA, ecoou as preocupações de muitos altos funcionários do governo sobre a crescente ameaça, ao declarar que a China e a Rússia estão desenvolvendo tecnologias capazes de sabotar cruciais satélites militares americanos. A China, em particular, salientou Clapper, tem demonstrado “a necessidade de interferir com, danificar e destruir” satélites dos EUA, referindo-se a uma série de testes chineses de mísseis antissatélite que começaram em 2007.

O mais recente deles ocorreu em 23 de julho de 2014 e, como todos os anteriores, envolveu o lançamento de um míssil que poderia ser usado como uma “arma cinética” para atingir e destruir satélites. Autoridades chinesas insistem que os propósitos dos testes são pacíficos e destinados apenas à defesa antimíssil e a experimentos científicos, mas especialistas de fora estão céticos. Um teste em particular, realizado em maio de 2013, gerou ondas de choque através da comunidade de inteligência americana. Aquela manobra lançou um míssil ameaçador que chegou a uma altitude de 30 mil km acima da Terra, aproximando-se do elevado domínio da órbita geossincrônica (ou geoestacionária), onde satélites se movem à mesma velocidade da Terra abaixo em seu movimento de rotação, pairando, portanto, sobre um determinado ponto do planeta. É nessas órbitas que se encontram satélites estratégicos dos EUA, inclusive os que se destinam a detectar o lançamento de mísseis nucleares, assim como muitos satélites de comunicação comerciais.

Os americanos também têm sido ativos. Pouco depois do lançamento chinês de 2013, os EUA liberaram a divulgação de detalhes de seu programa ultrassecreto Consciência Situacional do Espaço Geossincrônico (GSSAP, na sigla em inglês), um planejado conjunto de quatro satélites capazes de monitorar as altas órbitas da Terra e até de se encontrar com outros satélites para inspecioná-los de perto. Os dois primeiros GSSAPs foram colocados em órbita em julho de 2014. “Este costumava ser um [chamado] ‘programa preto’, algo que oficialmente nem existia”, explica Brian Weeden, analista de segurança e ex-oficial da Força Aérea dos EUA que estudou e ajudou a divulgar o teste chinês. “Ele basicamente foi oficializado (liberado para divulgação) para enviar uma mensagem dizendo: ‘Ei, se você estiver fazendo algo suspeito dentro e ao redor do cinturão geossincrônico, nós veremos’”.

Enquanto isso, a administração Obama programou um orçamento de pelo menos US$ 5 bilhões a serem gastos nos próximos cinco anos para aprimorar tanto as capacidades defensivas como as ofensivas do programa espacial militar do país. Um inimigo poderia explodir provocativamente os satélites americanos com mísseis, mas as autoridades e a tecnologia também precisam se preparar para táticas incapacitantes mais sutis e inescrupulosas que, à primeira vista, parecem inócuas. Uma nave espacial poderia simplesmente se aproximar de um satélite e lançar (borrifar) tinta sobre seus dispositivos ópticos, ou quebrar manualmente suas antenas de comunicação, ou ainda desestabilizar sua órbita.

Lasers também poderiam ser usados para desativar por algum tempo ou danificar de forma permanente os componentes de um satélite, em particular seus delicados sensores. E ondas de rádio ou micro-ondas poderiam bloquear ou sequestrar transmissões para ou de controladores em terra. Os encarregados da defesa dos EUA querem estar prontos para qualquer eventualidade.

À parte suas iniciativas militaristas, o país também pretende reduzir os níveis de intensidade do problema por meio da diplomacia, embora os esforços tenham fracassado até agora; no final de julho, nas Nações Unidas, discussões há muito esperadas sobre um código de conduta para nações que exploram o espaço, redigido tentativamente pela União Europeia, empacaram completamente devido à oposição da Rússia, China e de vários outros países, inclusive Brasil, Índia, África do Sul e Irã. O fracasso colocou soluções diplomáticas para a crescente ameaça em um limbo, conduzindo, provavelmente, a muitos anos mais de debates na Assembleia Geral da ONU.

No fim, os destroços de um satélite destruído – e não um ataque inicial – poderiam ser a maior ameaça para a delicada infraestrutura orbital da Terra. Satélites se deslocam pelo espaço a velocidades de milhares de quilômetros por hora; portanto, até o impacto de um objeto tão pequeno quanto uma bolinha de gude poderia desativar ou destruir inteiramente uma dessas naves espaciais de um bilhão de dólares. E uma colisão tão destrutiva geraria, por si só, “estilhaços” ainda mais ameaçadores, criando potencialmente uma cascata de destroços que poderiam transformar a órbita terrestre em uma competição de demolição durante séculos futuros.

Sem uma rigorosa responsabilização e supervisão internacional, o risco de colisões acidentais e impactos de detritos continuará aumentando à medida que mais nações lançam e operam mais satélites. E, à medida que a chance de acidentes aumenta, o mesmo acontece com a possibilidade de eles serem mal interpretados como ações deliberadas e hostis na tensa intriga melodramática dessa movimentada competição militar no espaço.

 

Lee Billings