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Estimulação nervosa restaura a consciência em indivíduo que passou 15 anos em estado vegetativo

Paciente agora consegue seguir objetos com o olhar e responder a chamados movimentando sua cabeça

Shutterstock
Um homem de 35 anos que, após um acidente de carro, esteve em estado vegetativo por 15 anos mostrou sinais de consciência depois de neurocirurgiões terem implantado um estimulador do nervo vago em seu peito. As descobertas, relatadas na revista Current Biology no dia 25 de setembro, mostra que a estimulação do nervo vago (VNS, na sigla em inglês) - já usada para epilepsia e depressão - pode ajudar a restaurar a consciência mesmo depois de muitos anos em estado vegetativo.

O resultado desafia a crença geral de que distúrbios de consciência que persistem por mais de 12 meses são irreversíveis, dizem os pesquisadores.

A pesquisa mostrou que através da estimulação do nervo vago “é possível melhorar a vida de um paciente”, diz Angela Sirigu, do Instituto de Ciências Cognitivas Marc Jeannerod em Lyon, na França.

O nervo vago conecta o cérebro a muitas outras partes do corpo, incluindo o intestino. Sabe-se que ele é muito importante no despertar, no estado de alerta e para muitas outras funções essenciais. Para testar a capacidade da VNS para restaurar a consciência, os pesquisadores, liderados por Sirigu, e os clínicos, liderados por Jacques Luauté, queriam selecionar um caso difícil para garantir que quaisquer melhoras não pudessem ser explicadas pelo acaso. Olharam para um paciente que estava deitado em estado vegetativo por mais de uma década e sem sinal de melhora.

Após um mês de estimulação do nervo vago, a atenção, os movimentos e a atividade cerebral do paciente melhoraram significativamente, segundo relataram. O homem começou a responder a ordens simples, o que era impossível até então. Ele conseguiu, por exemplo, seguir um objeto com seus olhos e virar sua cabeça quando pedido. Sua mãe relatou uma maior habilidade de ficar acordado ouvindo seu terapeuta ler um livro.

Depois da estimulação, os pesquisadores também observaram respostas a uma “ameaça” que foi inserida como uma novidade. Quando, por exemplo, a cabeça do examinador repentinamente se aproximava no rosto do paciente, ele reagia com surpresa, abrindo seus olhos. Após muitos anos em estado vegetativo, ele entrou em um estado mínimo de consciência.

Registros de atividade cerebral também revelaram grandes mudanças. A presença de sinais de EEG do tipo teta, importante para distinguir entre um estado vegetativo e um de consciência mínima, aumentou significativamente em áreas do cérebro envolvidas em movimento, sensação e alerta. A VNS também aumentou a conectividade funcional do cérebro. Uma tomografia PET também mostrou melhoras na atividade metabólica em ambas as regiões corticais e subcorticais do cérebro.

As descobertas mostram que a intervenção certa pode produzir mudanças na consciência mesmo nos casos clínicos mais severos, segundo os pesquisadores.

“A plasticidade e o reparo cerebrais ainda são possíveis mesmo quando a esperança parece ter desaparecido”, diz Sirigu.

Agora, os pesquisadores estão planejando um grande estudo colaborativo para confirmar e ampliar o potencial terapêutico da VNS para pacientes em estado vegetativo ou de consciência mínima. Além de ajudar os pacientes, Sirigu diz que as descobertas também promoverão a compreensão “dessa capacidade fascinante da nossa mente produzir uma experiência consciente.”

Cell Press
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