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Riscos do Estresse Precoce

Estudo sugere que estresse na infância induz alteração cerebral, ansiedade e depressão na adolescência.

Virginia Hughes
Gladskikh Tatiana/shutterstock
Para algumas meninas, experiências estressantes no primeiro ano de vida parecem induzir a mudanças hormonais na infância. E essas mudanças químicas, por sua vez, levam a uma conectividade cerebral alterada, e a sinais de ansiedade e depressão aos 18 anos, sugere um estudo publicado em 11 de novembro na Nature Neuroscience.

Há muito pesquisadores sabem que o estresse nos primeiros anos de vida é um fator de risco para vários problemas psicológicos e físicos, de transtornos de humor e abuso de subtâncias tóxicas a obesidade e doenças cardiovasculares. O novo estudo propõe que, para alguns indivíduos, as experiências infantis alteram permanentemente a maneira com que o corpo e o cérebro lidam com o estresse. “Essa é uma das primeiras demonstrações de que o estresse precoce parece ter um impacto sobre a maneira como o circuito regulador é estabelecido mais tarde, na adolescência”, observa Richard Davidson, neurocientista da University of Wisconsin-Madison e um dos líderes do estudo. 

Em1989, a colega de Davidson, Marilyn Essex, lançou o que é atualmente chamado de Estudo Wisconsin de Famílias e Trabalho. Desde então a equipe dela coletou várias informações médicas e demográficas sobre várias centenas de crianças, do nascimento ao início da vida adulta. 

Em um estudo dessa amostra, publicado em 2002, Essex relatou que crianças de 4 anos de idade expostas a altos níveis de estresse todos os dias – como depressão materna, brigas entre os pais e dificuldades financeiras – tinham altas quantidades de cortisol, o hormônio do estresse, em sua saliva. Esses altos níveis de cortisol foram relacionados a agressão, impulsividade e outros problemas comportamentais quando as crianças foram observadas, dois anos depois.

O novo estudo avança essas descobertas, relatando que, em meninas, esse aumento de cortisol na infância afeta a função cerebral 14 anos mais tarde. 

Os pesquisadores examinaram o cérebro de 57 pessoas de 18 anos enquanto elas ficavam paradas por sete minutos. Esse procedimento mede a `conectividade funcional de descanso`, ou a sincronia de atividades espontâneas entre regiões cerebrais. Acredita-se que regiões que ficam murmurando em sincronia durante o descanso fiquem fortemente conectadas em outros momentos (apesar de cientistas ainda terem muito para descobrir sobre o chamado `cérebro em descanso`: afinal, mente vazia...)

O estudo mostrou que garotas de 18 anos que tinham altos níveis de cortisol aos 4 anos tiveram uma conectividade fraca entre a amígdala, uma saliência profunda do cérebro conhecida por processar medos e emoções, e o córtex pré-frontal ventromedial, uma região externa envolvida na inibição da resposta da amígdala ao estresse.

Mas sem levar o cortisol em conta, o estresse precoce em si não está significativamente correlacionado com as diferenças na atividade cerebral observadas aos 18 anos. “Então o que realmente importa são as diferenças individuais em crianças individuais”, aponta Kathleen Thomas, psicóloga do desenvolvimento da University of Minnesota em Minneapolis, que não se envolveu no trabalho.

O estudo também descobriu que garotas com mais pontos em testes de ansiedade têm uma sincronia mais fraca entre essas duas regiões do que garotas com menos pontos. Intrigantemente, o padrão oposto foi encontrado para sintomas de depressão: mais pontos em depressão se relacionam com uma conectividade mais forte. Isso é desconcertante, porque a depressão e a ansiedade tendem a andar de mãos dadas, e sintomas de depressão também estão ligados ao estresse precoce, destaca Thomas. Talvez tanto a sincronia forte quanto a fraca sejam sinais de uma conexão importante entre as duas regiões, pondera ela.

De acordo com Bruce McEwen, neurocientista da Rockefeller Universityem Nova York, que não se envolveu no trabalho, o estudo também é notável por analisar diferenças sexuais. Apesar de não haver explicação óbvia, transtornos de ansiedade e de humor são mais predominantes em mulheres, enquanto o comportamento antissocial e o abuso de substâncias tóxicas são mais comuns em homens. “Isso se encaixa com a ideia de que os dois sentem o que está acontecendo, mas têm estratégias diferentes para expressar sua infelicidade e desajuste”, declara ele.

Este artigo foi republicado com permissão da revista Nature. O artigo foi publicado pela primeira vez em 11 de novembro de 2012.

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