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Estrutura óssea da face influencia como outros nos veem

Pesquisa mostra que, embora percebamos traços de caráter como confiabilidade com base nas expressões faciais de uma pessoa, nossas percepções de habilidades como força são influenciadas pela estrutura facial

Cortesia de Jonathan Freeman e Eric Hehman
Podemos alterar nossas características faciais de maneiras que nos fazem parecer mais confiáveis, mas não têm a mesma capacidade de parecermos mais competentes. Um rosto que lembra a uma expressão feliz, com sobrancelhas arqueadas para cima e uma boca com curvatura ascendente, provavelmente será visto como confiável, enquanto outro, que lembra uma expressão irritada, com sobrancelhas voltadas para baixo, provavelmente será considerado indigno de confiança. No entanto, avaliações de competência se baseiam na estrutura facial, uma característica que não pode ser alterada, em que faces mais largas são interpretadas como mais competente.
Jessica Schmerler

Selfies, retratos, fotos de fichas policiais — fotografias de nós mesmos atualmente transmitem mais [informação] que quaisquer instantâneos faziam na era Kodak.

A maioria das pessoas com inclinação digital posta e atualiza constantemente fotos pessoais em sites profissionais, de mídia social e ou de namoro, como LinkedIn, Facebook, Match.com e Tinder.

Para bem ou mal, outros então tendem a fazer julgamentos precipitados sobre a personalidade ou o caráter de alguém com base em um único retrato.

Portanto, pode ser uma tarefa estressante selecionar a foto que transmite a melhor impressão de nós mesmos.

Para aqueles de nós que procuram parecer amigáveis e dignos de confiança aos olhos de outros, um novo estudo reforça um antigo conselho informal: Faça uma cara feliz.

Uma recém-divulgada série de experimentos realizados por neurocientistas cognitivos da Universidade de Nova York reforça a relevância de expressões faciais para percepções subjetivas de características como confiabilidade e simpatia.

Mais importante, a pesquisa também revelou a inesperada descoberta de que percepções de habilidades como força física não dependem da expressão, mas da estrutura óssea facial.

A primeira experiência da equipe envolveu fotografias de 10 pessoas diferentes, cada uma delas apresentando cinco expressões faciais distintas. Participantes do estudo avaliaram o quanto a pessoa em cada foto parecia simpática, digna de confiança ou forte.

Outro grupo, separado, avaliou cada rosto em uma escala emocional que ia de “muito irritado” a “muito feliz”.

Para evitar resultados indistintos, três especialistas não envolvidos em nenhuma das duas avaliações anteriores calcularam a proporção facial entre largura e altura para cada face. 

Uma análise revelou que, em geral, os participantes classificaram pessoas com uma expressão feliz como simpáticas e confiáveis, mas não as que tinham expressões severas, de irritação.

Surpreendentemente, os voluntários não atribuíram aos rostos “valores” de força física com base em suas expressões, mas classificaram as faces acentuadamente amplas, ou largas, como sendo de pessoas fortes.

Em uma segunda avaliação, expressão e estrutura facial foram manipuladas em rostos gerados por computador e os participantes classificaram cada face de acordo com os mesmos traços considerados no primeiro experimento, com a adição de uma avaliação para simpatia, agradabilidade.

Mais uma vez, os resultados indicaram que as pessoas associavam uma expressão feliz, mas não uma irritada, com simpatia, confiabilidade e, nesse caso, calor humano.

Em seguida, os pesquisadores mostraram a dois conjuntos adicionais de voluntários os mesmos rostos, mas dessa vez com áreas relevantes a expressões faciais ou a largura da face obscurecidas.

Na primeira variação, para rostos desprovidos de pistas emotivas, os participantes não podiam mais perceber traços de personalidade, mas ainda podiam identificar força com base na largura.

Similarmente, para rostos que não apresentavam sinais estruturais, eles não conseguiam mais notar força, mas ainda podiam perceber traços de personalidade com base em expressões faciais.

Em uma terceira iteração da pesquisa os participantes tinham de escolher quatro rostos de um enfileiramento de oito faces com expressões e larguras variáveis, que eles podiam selecionar como seus assessores financeiros ou como o vencedor de um concurso de levantamento de peso.

Como seria de se esperar, os voluntários escolheram rostos com expressões mais felizes como consultores financeiros e selecionaram rostos mais amplos como pertencentes a campeões de levantamento de peso.

Em uma verificação final, os pesquisadores geraram mais de 100 variações de uma “face-base” individual ao diversificarem as características faciais.

Os participantes viam duas faces de uma só vez e escolhiam uma delas como sendo confiável ou muito competente, ou como um bom orientador financeiro ou vencedor de levantamento de peso.

Utilizando esses resultados, um computador então, criou um rosto mediano para cada uma dessas quatro categorias. Essas faces foram apresentados a um conjunto separado de participantes que tinham de escolher qual rosto parecia ser mais confiável ou mais forte.

A maioria dos voluntários considerou as “faces médias” geradas por computador boas representações de confiabilidade ou força e, de modo geral, julgou o rosto médio do “consultor financeiro” mais confiável e o do levantador de peso como sendo mais forte.

As conclusões de todas as quatro pesquisas foram divulgadas em 18 de junho na publicação especializada Personality and Social Psychology Bulletin.

Consideradas juntas, as descobertas sugerem que expressões faciais influenciam acentuadamente a percepção de características como confiabilidade, simpatia ou calor humano, mas não capacidade física (força, nesses experimentos).

Inversamente, a estrutura facial influencia a percepção de capacidade física, mas não de intenções (como simpatia e confiabilidade, nesse exemplo).

Além disso, decisões que envolvem adivinhar as possíveis intenções de uma pessoa, como escolher a quem você confiaria a gestão de seu dinheiro, são mais fortemente influenciadas pela expressão facial, enquanto as baseadas em capacidade física, como em quem você apostaria em um evento desportivo, são mais intensamente influenciadas por estrutura facial.

Estudos anteriores já haviam mostrado o efeito de pistas faciais no modo como percebemos e interagimos com outros, mas o novo trabalho também revela como percepções de uma mesma pessoa podem variar imensamente, dependendo da expressão facial daquela pessoa em qualquer dado momento.

Essa variabilidade “tem implicações tanto para as pessoas que se apresentam como para as que percebem (observam) em interações sociais”, resume Jonathan Freeman, um neurocientista social na Universidade de Nova York e autor sênior do estudo.

Consequentemente, seria bom consideramos o impacto de nossas expressões faciais nas fotos que postamos on-line.

Paralelamente, em um mundo ideal pessoas que olham nossas fotos nos dariam o benefício da dúvida e hesitariam em fazer julgamentos espontâneos (apressados) com base em uma única imagem.

As constatações acima vêm com uma grande advertência: somente rostos masculinos foram mostrados aos participantes do estudo.

Os pesquisadores optaram por essa abordagem porque estudos anteriores que envolveram a proporção entre largura e altura facial mostraram que um rosto mais largo frequentemente é associado a níveis de testosterona mais elevados assim como a maior agressividade e força em homens.

Estudos de largura e altura facial em mulheres, por outro lado, produziram resultados mistos. Por essa razão, apresentar uma variedade de rostos masculinos e femininos a participantes de um estudo teria produzido resultados inconclusivos. 

Apesar da relativa falta de evidências sobre como a estrutura facial influencia a percepção de rostos femininos, houve retratos humorísticos de especulações populares. 

De qualquer modo, são necessárias futuras pesquisas para estabelecer definitivamente se esses padrões de fato existem.

Além disso, os pesquisadores se referem ao termo “habilidade” quando discutem força física no estudo.

Porém não foram feitas mensurações específicas de percepções de habilidade intelectual ou habilidade de desempenho em certos cargos empregatícios, por exemplo. Essas competências são mais abstratas e, portanto, talvez dependam de uma combinação de diferentes sinais faciais dinâmicos e estáticos, explica Freeman, por isso seria difícil testar essas relações de maneira decisiva.

Em nossas vidas cotidianas esse e outros estudos deixam claro que, embora possamos tentar influenciar as percepções que outros têm de nós com fotos em que aparecemos em trajes elegantes, ou exibindo uma atitude autoconfiante, o fator determinante mais importante dessa percepção e do consequente comportamento de outros em relação a nós são nossos rostos.

Então, da próxima vez que você quiser conquistar a confiança de alguém, tente um sorriso e faça uma cara feliz.

Mas os que esperam ser selecionados para uma partida improvisada de futebol, basquete, etc. não precisam se preocupar com suas expressões faciais. O melhor que podem fazer é esperar que tenham um rosto mais largo e depois deixar que sua destreza física fale por si.

Publicado em Scientific American em 18 de junho de 2015.