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Estudo com três milhões de mães liga insônia a prematuridade

Mulheres com transtornos de sono eram duas vezes mais propensas a dar à  luz mais de seis semanas antes do previsto

Shutterstock
Apesar dos avanços na medicina materna, o nascimento prematuro continua sendo um vexatório problema para obstetras em todo o mundo. Contudo, uma análise de registros médicos de quase três milhões de mulheres grávidas na Califórnia sugere que uma intervenção surpreendentemente simples - um sono melhor - pode ajudar a resolver o problema.

Pesquisadores descobriram que mulheres diagnosticadas com insônia ou apneia do sono estavam duas vezes mais propensas, em relação àquelas sem transtornos de sono, a dar à luz mais de seis semanas antes do previsto.

"Parece óbvio, mas, estranhamente, este estudo não foi feito antes", diz Laura Jelliffe-Pawlowski, epidemiologista da Universidade da Califórnia em San Francisco (UCSF) e autor da pesquisa, publicado no dia 8 de agosto na revista científica Obstetrics and Gynecology. "Observar essa relação é importante, porque estamos muito necessitados de intervenções que possam fazer a diferença."

Especialistas de saúde pública dizem que um tratamento melhor das mulheres grávidas que sofrem com transtornos graves do sono pode salvar a vida dos bebês, através de abordagens que evitem o uso de medicação. Todo ano, 15 milhões de bebês em todo o mundo nascem prematuramente - mais de três semanas antes da gravidez típica de 40 semanas. Essas crianças têm menos tempo para se desenvolver no útero, e 1,1 milhões delas morrerão devido a complicações relacionadas ao parto. Muitas outras acabam com deficiência auditiva, dificuldades de aprendizagem, paralisia cerebral e outros problemas de saúde.

O novo estudo faz parte da Iniciativa para o Nascimento Prematuro da UCSF, um ambicioso projeto de US$ 100 milhões para estudar prematuridade, com foco na Califórnia e na África Oriental. Os pesquisadores envolvidos planejam extrair grandes quantidades de dados históricos, garantindo que todos os achados sejam estatisticamente significativos. Eles esperam usar essas descobertas para identificar intervenções médicas e sociais que possam reduzir os partos prematuros e testá-las em mulheres grávidas. O programa é financiado pela Fundação Bill e Melinda Gates e pelos filantropos Lynne e Marc Benioff.

Quarenta piscadas para quarenta semanas

Jennifer Felder, pesquisadora de pós-doutorado em psicologia clínica na UCSF que liderou o estudo, diz que ficou preocupada com a falta de pesquisas envolvendo sono e gravidez. Devido ao fato de que mulheres grávidas geralmente têm dificuldade para dormir, ela suspeita que médicos e pesquisadores não pensaram em examinar mais de perto as consequências dos transtornos do sono.

Felder e seus colegas adquiriram os registros de quase três milhões de nascimentos que aconteceram na Califórnia entre 2007 e 2012, ligados aos documentos de alta hospitalar de mulheres que deram à luz mas sem os dados que poderiam permitir a identificação. Cada registro continha um histórico médico da mãe e notas tomadas durante a gravidez e o parto. Os médicos diagnosticaram cerca de 2300 mulheres com transtorno do sono durante a gravidez. A insônia e a apneia do sono foram os principais problemas, embora a narcolepsia, a sonolência excessiva e a síndrome das pernas inquietas também tenham sido observadas.

Os pesquisadores descobriram que a insônia elevava em 30% o risco de mulheres terem partos prematuros, enquanto a apneia do sono aumentava em 40%. Transtornos do sono também se associavam ao risco de partos muito prematuros: 5,3% das mulheres com problemas de sono deram à luz com menos de 34 semanas de gravidez, comparado a 2,9% para mulheres sem o mesmo diagnóstico.

Segundo Felder, é improvável que a falta de sono seja uma causa direta dos nascimentos precoces. Entretanto, ela pode desencadear outros processos - como a inflamação - que eventualmente resultam na prematuridade. Uma revisão de 2010 dos estudos ligou o parto prematuro à presença das proteínas inflamatórias C-reativa e interleucina-6 no líquido amniótico. Para explorar a idéia, a iniciativa da UCSF logo começará a examinar as proteínas do sistema imunológico em mulheres grávidas, utilizando sangue armazenado em um repositório associado ao Departamento de Saúde Pública da Califórnia. Os cientistas irão comparar as amostras, com atenção ao nascimento prematuro e à insônia.

No entanto, problemas de sono em mulheres grávidas podem alertar os médicos para um perigo em potencial. “Aconselho mulheres sobre como ter o melhor resultado na gravidez”, diz Louis Muglia, diretor do Centro de Prevenção de Parto Prematuro do Centro Médico do Hospital Infantil de Cincinnati em Ohio. “Agora, talvez eu comece a perguntar: ‘Você tem boas noites de sono?’.”

Amy Maxmen, Nature

Este artigo é reproduzido com permissão e foi originalmente publicado no dia 8 de agosto de 2017.
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