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Estudo mostra que autismo começa meses antes dos sintomas se manifestarem

O diagnóstico precoce oferece a possibilidade de um tratamento mais efetivo

Shutterstock
Os pais notam os primeiros sinais de autismo em seus filhos entre os primeiros 12 e 18 meses de vida. Talvez a crianças não esteja fazendo contato visual, ou não sorria quando a mamãe ou o papai cheguem.

Contudo, um novo estudo sugere que evidências do autismo podem ser encontradas no cérebro ainda antes - bem antes do primeiro aniversário da criança - e que os sinais podem ser vistos em exames de imagem por ressonância magnética (IRM). “Estamos observando que mudanças biológicas acontecem no momento, ou até antes, em que os sintomas começam a surgir”, diz Geraldine Dawson, psicólogo clínico e pesquisador de autismo na Universidade Duke que não está envolvido nesse trabalho. “A habilidade de detectar o autismo logo no seu começo é o que nos permitirá intervir antes da síndrome se manifestar completamente”.

Para o estudo, publicado esta semana na Nature, pesquisadores fizeram exames de IRM em 150 crianças, três vezes em cada uma delas: aos 6 meses de idade, quando completaram o primeiro ano de vida e aos 2 anos. Mais de 100 crianças possuíam alto risco por terem um irmão mais velho diagnosticado com autismo. A taxa de crescimento mais rápida das áreas superficiais de seus cérebros previu corretamente quais das crianças de alto risco seriam diagnosticadas com a condição em 80% dos casos.

O aumento do cérebro parecia se correlacionar com a chegadas dos sintomas, diz Heather Hazlett, psicóloga do Instituto Carolina de Deficiências de Desenvolvimento (ICDD) da Universidade da Carolina do Norte e principal autora do artigo. Ainda assim, com apenas 100 crianças em risco, o estudo é muito pequeno para ser considerado definitivo - e os médicos não devem se precipitar e usar IRMs para diagnosticar autismo, explica Hazlett.

Entretanto, se os resultados do estudo forem confirmados em pesquisas futuras, haveria uma nova opção para fazer exames em crianças de alto risco antes dos seus sintomas tornarem-se óbvios - e possivelmente uma oportunidade para que o tratamento seja mais efetivo. O padrão de crescimento acelerado do cérebro “é um biomarcador em potencial, que poderia ser usado para identificar as crianças as quais talvez pudessem se beneficiar com estímulos precoces”, diz Dawson. “Isso poderia ajudá-las a ter melhores resultados”.

Distúrbios de espectro autista - chamados assim pois apresentam uma grande variedade de desafios sociais e comunicacionais diferentes - são frequentemente caracterizados por comportamentos que incluem obsessões ou movimentos de balanço com o corpo. Muitas vezes os pais não percebem coisas que apontariam para um diagnóstico de autismo até por volta dos 18 meses, quando tipicamente se espera que as crianças falem e tenham interações sociais. Ao mostrar as mudanças neurobiológicas antes que o comportamento o faça, o estudo pode ajudar os pais a entenderem melhor a experiência de seus filhos, diz a biopsicóloga Alycia Halladay, diretor científico na Fundação Científica de Autismo, organização sem fins lucrativos que apoia pesquisas, mas a qual não está envolvida no trabalho em questão.

Mostrando mais aos cientistas sobre como o cérebro se desenvolve antes de um diagnóstico de autismo, o estudo pode oferecer insights sobre o desencadeamento genético do distúrbio, explica James McPartland, psicólogo do Centro de Estudo da Criança da Universidade Yale, o qual também não participou da pesquisa. “Quando sabemos mais sobre os caminhos neurais, podemos pensar mais sobre os genéticos”, ele diz.

Algo que o estudo não mostrou foi se existe alguma diferença no autismo em famílias que possuem mais de uma crianças como a condição, comparando-se com aquele o qual parece não ter nenhuma conexão familiar. Uma em cada 68 crianças é diagnosticada com autismo; porém, dentre os irmãos mais novos de uma dessas crianças, a taxa aumenta para 1 em 5.

Alguns estudos sobre esses irmãos mais novos - estão em andamento. Esse grupo é mais fácil de ser estudado, porque é necessário se tentar um número menor de crianças para se encontrar aquelas que desenvolverão autismo. Contudo, não está claro se os mais jovens são, de alguma forma, categoricamente diferentes das outras crianças no espectro.

Para encontrar crianças suficientes para tornar o estudo útil, a equipe de pesquisa acompanhou mais de 500 crianças, fazendo os exames em muitos deles no meio da noite, para que estivessem em estado de sono profundo. Demoraram anos para conseguir dados válidos e 150 delas - e as famílias doaram seu tempo. “Normalmente não temos em mente o grau de trabalho que é necessário para fazer esse tipo de estudo”, diz Dawson.

Hazlett e o autor sênior Joseph Piven, seu colega no ICDD, dizem que começaram a pesquisa há cerca de uma década, depois de um estudo prévio sugerir que o cérebro de crianças autistas já era grande de forma incomum quando chegaram ao seu segundo aniversário - e antes dos comportamentos autistas normalmente aparecerem.

Piven, um psiquiatra, diz que o mecanismo não é muito claro. Entretanto, especula que bebês que se tornam autistas experimentam o mundo, em seu primeiro ano de vida, de uma forma diferente daqueles que não terão o distúrbio - e essa experiência diferenciada pode contribuir para o desenvolvimento subsequente do cérebro no autismo.

Dawson diz que, devido ao cérebro mudar tanto no primeiro ano de vida, talvez essa seja uma janela de desenvolvimento crítica, quando intervenções de comportamento - tais como ensinar a criança a prestar atenção às expressões faciais dos pais - possam ter os maiores efeitos. Como até recentemente não estava claro que as diferenças autistas começam ainda na gravidez e na infância, não existem terapias para crianças tão novas. Contudo, esses tratamentos estão sendo testados. Ao dar uma potencial ferramenta para que pesquisadores façam diagnósticos em bebês, Dawson acredita que o novo estudo pode expandir as possibilidades para testar possíveis novas terapias.

McPartland descreveu os possíveis tratamentos como de “hiperparentalidade”. Ao passo que pode parecer normal deixar uma criança neurotípica com um brinquedo, é possível que seja mais benéfico para uma criança com potencial para o autismo ter mais interações com os pais, rindo ou cantando. “Sature o ambiente da criança o máximo que consiga com informações sociais”, ele fala. “E torça para que isso seja o bastante”.

Karen Weintraub
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