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Estudo sugere forma simples de prever partos prematuros

Testes de muco cervical podem revelar o risco de mulheres grávidas entrarem em trabalho de parto cedo demais

Shutterstock
Em todo o mundo, até 18% dos bebês nascem antes de suas mães completarem 37 semanas de gestação. Cerca de um milhão desses bebês não sobrevivem, e aqueles que o fazem enfrentam problemas de desenvolvimento como deficiência visual ou auditiva, insuficiência cardíaca ou pulmonar, ou deficiências cognitivas.

Atualmente, não há uma maneira confiável de prever se uma mulher com gravidez normal entratá em trabalho de parto antes das 37 semanas. Contudo, um estudo do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT, na sigla em inglês) oferece uma nova abordagem para avaliar esse risco, analisando as propriedades do muco cervical. Os pesquisadores descobriram que o muco cervical de mulheres que tiveram seus bebês antes das 37 semanas era bastante diferente em relação ao das mulheres que tiveram seu parto depois.

Este tipo de análise poderia oferecer uma forma fácil de calcular o risco de parto precoce, e poderia abrir caminho para que os médicos tentem intervir antes para prevenir partos prematuros.

“Nossa previsão é que talvez sejamos capazes de identificar o risco de partos prematuros antecipadamente, antes que o trabalho de parto comece”, diz Katharina Ribbeck, professora associada de engenharia biológica no MIT e autora sênior do estudo. “Faltam ferramentos de diagnóstico para isso.”

Ribbeck trabalhou no estudo com Michael House, professor associado da Escola de Medicina da Universidade Tufts. Kathryn Smith-Dupont, pós-doutorada do MIT, é autora principal do artigo, o qual aparece na edição de 4 de setembro da revista Scientific Reports.

Barreira para infecções

O laboratório de Ribbeck no MIT pesquisa as propriedades químicas e mecânicas distintivas do muco, e como essas propriedades o ajudam a desempenhar muitos papéis críticos como parte da primeira linha de defesa do corpo contra infecções.

Há muitos anos, Ribbeck começou a explorar se as mudanças no muco cervical poderiam desempenhar algum papel em partos precoces. Acredita-se que entre 25 e 40% dos partos precoces são causados por infecções que ocorrem quando micróbios chegam ao útero através do tampão mucoso, que é feito de muco e normalmente bloqueia o acesso ao útero.

Em um estudo publicado em 2013, Ribbeck descobriu que o muco cervical de mulheres grávidas com alto risco de parto precoce era mecanicamente mais fraco e mais elástico do que em mulheres grávidas em baixo risco.

Para o novo estudo, ela e seus colegas decidiram investigar a permeabilidade do muco a pequenas partículas. O muco é formado por polímeros conhecidos como mucinas, e a composição e disposição destas mucinas determina o quão poroso é o gel.

Os pesquisadores coletaram amostras de dois grupos de pacientes. O grupo de baixo risco incluía mulheres grávidas que foram ao consultório de seus médicos para visitas de rotina por volta de 30 semanas e terminaram tendo seu parto após 37 semanas de gravidez. O grupo de alto risco incluía mulheres que entraram em trabalho de parto antes, entre 24 e 34 semanas de gravidez. Os médicos conseguiram interromper o trabalho de parto nestas mulheres, e as amostras foram coletadas após elas estarem estabilizadas. Todas acabaram dando à luz antes das 37 semanas.

Os pesquisadores testaram a capacidade de esferas negativamente carregadas, com cerca de um mícron de diâmetro, de atravessarem o muco e encontraram uma pequena, porém estatisticamente insignificante, diferente de porosidade entre as amostras de alto e baixo risco. Então, decidiram fazer o mesmo teste com sondas peptídicas carregadas, que são pequenas o suficiente para não ficarem presas na rede do muco, mas sensíveis às modificações bioquímicas dela. Com estas sondas peptídicas, os pesquisadores encontraram diferenças significativas na permeabilidade e na adesividade do muco: Os peptídeos conseguiram passar muito mais facilmente pelas amostras de mulheres de alto risco.

Isto sugere que o muco cervical de mulheres com alto risco de parto precoce, por razões ainda não conhecidas, pode ser mais suscetível a invasões de bactérias e micróbios potencialmente prejudiciais, o que faz com que seja mais provável que essas mulheres sofram uma infecção que levará a um parto prematuro, segundo Ribbeck. Além disso, o muco alterado pode ser menos capaz de reter componentes úteis do sistema imune, como anticorpos ou peptídeos antimicrobianos, o que normalmente ajudaria a combater infeções.

“Mucinas exibem todos os tipos de fatores imunologicamente ativos que também podem ser perdidos quando as propriedades de adesividade mudam”, diz Ribbeck.

Ela suspeita que essa perda de adesão pode ser causada por mudanças na estrutura molecular das mucinas; em particular, mudanças no número e nos tipos de moléculas de açúcar que compõe parte de suas estruturas.

Análise de risco

Atualmente, a forma mais comum de tentar prever o risco de um parto prematuro é medir o comprimento do colo do útero. Entretanto, embora um colo encurtado esteja correlacionado com um risco maior, há muitos casos nos quais essa condição não leva a partos prematuros. Outro teste envolve a medição em secreções vaginais dos níveis de fibronectina fetal, um material que, essencialmente, “cola” as membranas fetais na parede uterina. Contudo, este não é um preditor completamente confiável e, além disso, mulheres podem parir precocemente quando tanto o comprimento do colo do útero quanto a fibronectina fetal estão normais.

“Não há, hoje, um teste universalmente aceito”, diz Smith-Dupont. “A fisiopatologia e os mecanismos do parto precoce são extremamente complexos, e o que funciona para avaliar um paciente podem não funcionar com outro.”

Ribbeck antecipa que o teste de muco cervical poderia ser feito antes na gravidez, como parte de um exame de rotina o qual revelaria se uma mulher está em alto risco de ter um parto prematuro. (Este teste determinaria o risco de infecção, mas não de outros potenciais casos de parto precoce.)

Através de estudos sobre a composição química do muco alterado, Ribbeck também espera desenvolver novas formas de restaurar a função normal do muco. “Se o muco está mais fino ou menos adesivo do que naturalmente é, então podem começar a pensar sobre fatores a serem adicionados para que melhoremos suas propriedades de barreira”, ela diz.

Instituto de Tecnologia de Massachusetts
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