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Expansão do cultivo de cana-de-açúcar brasileira poderia reduzir emissão global de CO2

Áreas ambientalmente sensíveis não precisariam ser afetadas

Depositphotos/Jaykayl
Uma expansão em larga escala da lavoura de cana-de-açúcar no Brasil com o intuito de aumentar a produção de etanol poderia reduzir as emissões globais atuais de dióxido de carbono em até 5,6%, relatam cientistas em artigo publicado na revista Nature Climate Change.

Uma expansão na escala proposta envolveria a conversão de milhões de hectares em plantações de cana-de-açúcar. Mas, garantem os pesquisadores, ela poderia ocorrer sem afetar áreas ambientalmente sensíveis do Brasil, e permitindo também a expansão de outras culturas, bem como o uso da terra para atender outras necessidades humanas. A análise incluiu também os custos, medidos em carbono, da conversão do uso da terra para o plantio de cana-de-açúcar.

A pesquisa se baseou em uma nova abordagem para modelar com precisão o comportamento das culturas de cana-de-açúcar, que crescem em regiões onde há grandes variações da composição do solo, temperatura, precipitação e muitos outros parâmetros, disse Stephen P. Long, professor de ciências de cultura e botânica da Universidade de Illinois que liderou a análise com uma equipe internacional, incluindo cientistas da Universidade de São Paulo (USP).

“A maioria dos modelos utilizados para prever a produção futura das culturas são estatísticos, e não levam realmente em conta a forma como mudanças na água, no dióxido de carbono e na temperatura interagem para afetar a produção de cana-de-açúcar”, disse Long. “Usamos um modelo mecanicista que se baseia na ação, a cada hora, dos elementos que promovem o crescimento da planta.”

O governo do Brasil já mapeou as áreas ecologicamente sensíveis que não podem ser usadas para agricultura, indústria ou outros tipos de atividades produtivas, segundo Long. “Restringimos a proposta de produção de cana-de-açúcar às áreas que podem ser legalmente convertidas”, ele disse.

O Brasil já conquistou muito com sua indústria de conversão de cana-de-açúcar em etanol, disse Amanda de Souza, co-autora do estudo e pós-doutoranda em Illinois e na USP.

“Diferentemente dos Estados Unidos, o Brasil utiliza quase toda a planta da cana-de-açúcar para produzir energia, extraindo o açúcar para fazer etanol, mas também queimando o resíduo do caule - conhecido como bagaço - para alimentar o moinho. O excesso é usado para gerar e vender eletricidade”, disse de Souza. “A conversão dos componentes de celulose do bagaço para etanol provavelmente também se tornará economicamente viável no país.”

“A produção brasileira de etanol baseada em cana-de-açúcar de hoje é muito mais eficiente do que a baseada em milho, e gera apenas 14% das emissões de dióxido de carbono do petróleo”, disse de Souza. A maioria dos carros no Brasil são flex, o que significa que podem usar como combustível etanol, gasolina ou uma mistura dos dois. Em 2012, os postos de gasolina do Brasil vendiam um volume maior de etanol do que de gasolina, segundo ela.

“A produção de cana-de-açúcar do Brasil é provavelmente a mais avançada do mundo”, disse Long. E para reduzir a sua pegada de carbono ainda mais, o governo de São Paulo, principal estado produtor de etanol do país, recentemente proibiu a queima de cana antes da colheita. Prática ainda comum na indústria de cana-de-açúcar dos EUA, a queima remove as folhas e reduz o volume do material que deve ser transportado ao moinho, porém acrescenta poluição particulada à atmosfera e reduz a matéria orgânica do solo, segundo os pesquisadores.

“Nossa conclusão é que esta indústria poderia se expandir um pouco e fazer uma contribuição significativa para a descarbonização do combustível”, disse Long.

A equipe analisou três cenários que gerariam um aumento na pegada da cana-de-açúcar no Brasil entre 37,5 milhões e 116 milhões de hectares.

“O maior cenário é semelhantes à área destinada a milho e soja nos EUA”, disse Long. “Temos cerca de 90 milhões de hectares de milho e soja no país - a maior parte, é claro, no Centro-Oeste.”

O acordo climático de Paris de dezembro de 2015, assinado por 196 nações, pretende limitar o aumento na temperatura global média a menos de 2°C acima dos níveis pré-industriais, segundo Long.

“A única maneira de conseguirmos isso é termos uma enorme redução no valor líquido das emissões de CO2”, ele disse. “Nenhuma solução sozinha conseguirá isso. Precisaremos implementar toda uma série de passos incrementais. Estamos tentando mostrar que esse poderia ser um incremento muito importante, que poderia ser realizado em tempo hábil.”

“Esta expansão não precisa se restringir ao Brasil”, ele disse. “Muita terra onde já se cultivou cana-de-açúcar - do Caribe ao Havaí - hoje está ociosa. A produção de cana para produção de etanol daria novamente um uso para essas terras.”

Universidade de Illinois em Urbana-Champaign
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