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Extrair carbono da atmosfera não reduzirá aquecimento global

Modelos mostram que sem redução de emissões, nem mesmo geoengenharia extrema protegerá os oceanos

Tiago Fioreze/Wikimedia Commons
Maria Temming 

À medida que muitas nações do mundo têm falhado reiteradamente em efetuar cortes significativos em sua produção de gases de efeito estufa, cientistas e outras pessoas começaram a se perguntar se a mudança climática poderia ser brecada não por cortes de emissões, mas por uma tecnologia que removesse esses gases da atmosfera.

Essa abordagem é chamada geoengenharia.

Infelizmente, uma recente simulação de seus efeitos sobre os oceanos verificou que nem métodos extremos seriam capazes de reabilitar completamente os ambientes marinhos. 

O trabalho foi publicado em Nature Climate Change em 3 de agosto (A Scientific American integra o Nature Publishing Group).

Os experimentos focaram a chamada remoção do excesso de dióxido de carbono (CO2) diretamente da atmosfera.

Teoricamente, isso poderia ajudar os oceanos porque eles se tornam perigosamente ácidos quando absorvem demais CO2 atmosférico.

Uma ideia de remoção implica plantar árvores, que consomem grandes quantidades de dióxido de carbono, e depois queimá-las em instalações onde os gases podem ser capturados e armazenados no subsolo. 

Mas até agora ninguém ainda testou esse ou outros esquemas similares de remoção de carbono em larga escala. 

A segunda melhor opção para testes dessa envergadura é uma simulação em grande escala. 

No novo estudo, pesquisadores liderados por Sabine Mathesius, cientista ambiental no Instituto Potsdam de Pesquisa sobre Impacto Climático, na Alemanha, usou um modelo computadorizado para investigar a eficácia da CDR na reabilitação de águas marinhas danificadas por emissões de CO2.

Dois testes 

A equipe de Mathesius aplicou suas simulações em dois experimentos.

No primeiro, os cientistas queriam verificar se a remoção de carbono poderia reduzir a concentração de CO2 atmosférico aos níveis considerados “normais”, ou típicos, antes da Revolução Industrial nos século 18 e 19, restaurando assim o ambiente marinho a seu estado anterior.

Para isso, os pesquisadores basearam sua simulação em emissões de dióxido de carbono do mundo real de 1800 a 2005, e depois projetaram esses valores para o ano 2250.

Em seguida, simularam o que aconteceria se a tecnologia pudesse remover 18 bilhões de toneladas de CO2 por ano, cerca de 50% das atuais taxas de emissões, de 2250 até 2700.

Eles constataram que isso de fato diminuiria os níveis de CO2 atmosférico, mas não restauraria o conteúdo pré-industrial de oxigênio dissolvido nos oceanos, nem suas temperaturas.

Mesmo após 450 anos de geoengenharia, o oceano modelado continuaria sendo quase tão ácido como se não tivesse sofrido nenhuma intervenção tecnológica ou científica.

Mas o que aconteceria se alguém inventasse uma esplêndida e aprimorada nova técnica para a remover carbono do ar?

A equipe de Mathesius estava curiosa.

Para descobrir, os pesquisadores elevaram a taxa de remoção máxima para 90 bilhões de toneladas de CO2 por ano.

Esse desempenho é “francamente ridículo”, resumiu o geofísico Donald Penman da Universidade de Yale, que não esteve envolvido na pesquisa.

No entanto, mesmo nesse nível, em 2700 o oceano ainda estava mais quente, mais ácido e menos oxigenado que o ambiente marinho pré-industrial.

Em sua segunda simulação, a equipe modelou um mundo em que, contra todas as probabilidades, a atual sociedade humana reduziu substancialmente sua produção de gases de efeito estufa.

Os cientistas queriam determinar o que era melhor: cortes de emissões ou a remoção póstuma de CO2.

E conseguiram.

Quando se tratou de preservar o ambiente marinho, a remoção não foi páreo para uma redução de emissões.

Mesmo na simulação em que o método CDR extraía 90 bilhões de toneladas de CO2 da atmosfera por ano, o oceano profundo mostrou-se muito mais ácido do que no modelo com emissões reduzidas.

“Está claro que em vez de tentar limpar uma enorme bagunça, seria bem mais sensato simplesmente não criar a desordem em primeiro lugar”, observa Penman.

De acordo com Mathesius, a tecnologia CDR é ineficaz para combater a acidificação oceânica devido ao modo como a água marinha circula.

Existem regiões em que a água superficial submerge até o oceano profundo e permanece ali durante séculos ou até milênios, completamente isolada de qualquer contato com a atmosfera.

Portanto, mesmo se a CDR conseguisse reduzir significativamente a concentração de CO2 atmosférico, o oceano profundo continuaria altamente acídico.

O trabalho de Mathesius não é o único a indicar que a remoção de carbono é insuficiente.

Um estudo publicado em 3 de agosto em Nature Communications mostra que limitar o aquecimento global a no máximo 2ºC, exige a remoção 1,8 bilhão de toneladas de carbono da atmosfera por ano de agora até 2100, uma tarefa descomunal que excede qualquer capacidade da tecnologia atual.

Os estudos não significam que a remoção de dióxido de carbono seja completamente inútil, salienta Mathesius.

“Só estamos dizendo que a CDR não seria suficientemente potente para combater um cenário de atividades normais e habituais”, explica ela, e acrescenta: “Mas ainda existe a possibilidade de você recorrer à CDR como uma medida suplementar”.

A remoção, embora não possa desfazer todos os danos resultantes do excesso de emissões, ainda pode revelar-se útil se for combinada com cortes reais de carbono.

Publicado em Scientific American em 12 de agosto de 2015.