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Exxon aposta em futuro sem restrições para petróleo e gás

O aquecimento global desafia a maior petrolífera particular, mas combustíveis fósseis continuarão predominantes

 

Shutterstock
Por Daniel Cusick e ClimateWire

Em uma revelação sem precedentes feita nesta semana, a Exxon Mobil Corp. declarou a seus investidores acreditar que a mudança climática oferece riscos para seus resultados, mas a empresa não tomou qualquer iniciativa por um futuro sem petróleo e gás.

Em vez disso, a maior empresa petrolífera do mundo sustentou que todas as fontes de energia, inclusive combustíveis fósseis, serão necessárias para atender a futura demanda global e que a melhor maneira de administrar emissões de gases estufa é por meio do avanço tecnológico e da adoção de programas de eficiência energética.

Em seguida a Exxon Mobil expressou confiança: de acordo com a empresa, é improvável que seus ativos de petróleo e gás sejam prejudicados mesmo sob regulamentações muito mais rígidas de emissões de carbono, porque combustíveis fósseis seriam necessários para o desenvolvimento da economia mundial.

Detalhes sobre as visões da empresa a respeito da mudança climática vieram na forma de dois relatórios publicados na segunda-feira, dia 1 de abril de 2014. Os documentos emergiram de negociações com vários grupos de acionistas exigindo que a Exxon Mobil divulgasse a seus investidores os riscos que a mudança climática oferece à empresa, e o que está sendo feito para reduzir esses riscos.

“O risco da mudança climática é claro, e esse risco exige ação”, declarou William Colton, vice-presidente de planejamento estratégico corporativo da Exxon Mobil, apresentando o relatório.

Ambientalistas deram as boas vindas ao primeiro documento desse tipo, produzido por uma grande empresa de petróleo, reconhecendo que a mudança climática oferece desafios reais e imediatos a seus prospectos. Mas ficaram menos otimistas com a visão da empresa para o setor global de energia em 2040.

Danielle Fugere, presidente e conselheira-chefe do grupo sem fins lucrativos As You Sow, que negociou a publicação dos relatórios de riscos climáticos com a Exxon Mobil, declarou que apesar de a empresa merecer crédito por fazer certas revelações, seus executivos continuam a iludir acionistas já que se recusam a avaliar um cenário em que emissões de carbono serão profundamente reduzidas para evitar uma mudança de temperatura de dois graus Celsius que, de acordo com cientistas, seria irreversível e potencialmente catastrófica.

Risco de ativos prejudicados?

“Está claro que a Exxon Mobil não consegue conceber um futuro sem combustíveis fósseis, ou mesmo um futuro com menos combustíveis fósseis”, declarou Fugere em uma entrevista por telefone. “Eu acho que essa falta de visão coloca a empresa em um risco real de ter seus ativos prejudicados, de perder mercado [para fontes de energia alternativas] e até mesmo de se tornar irrelevante”.

Bill McKibben, cofundador do grupo de defesa climática sem fins lucrativos 350.org, ficou particularmente ofendido com a afirmação da Exxon Mobil de que a equação “oferta e procura” do petróleo continuará a seu favor, mesmo em uma era de regulações de carbono cada vez mais rígidas. 

“Aqui está a versão resumida do anúncio da Exxon”, escreveu McKibben por email. “’Nós ficamos felizes em superaquecer o planeta, e queremos ver quem vai nos deter’”. [ ‘We are happy to overheat the planet and we dare anyone to stop us’]

Ainda que a Exxon Mobil tenha fornecido vários detalhes sobre o que a empresa pensa a respeito da mudança climática, e divulgado as medidas internas que está tomando para se adequar a regulamentações e outros desafios envolvendo emissões de carbono, ela se manteve firme em sua afirmação de que a demanda energética do mundo nas próximas três décadas não poderá ser atendida apenas pela energia de baixo carbono.

Espera-se que os recursos renováveis – como energia solar, eólica e de biomassa –se tornem as formas de energia que mais crescem entre 2014 e 2040, mas mesmo assim elas continuarão a representar apenas uma fração da energia global devido a uma variedade de fatores limitantes, incluindo “escalabilidade, dispersão geográfica, intermitência, e custo em relação a outras fontes”, afirmou a Exxon Mobil.

Isso significa que o mundo continuará com um apetite voraz por gás natural, de acordo com a Exxon Mobil, e continuará a depender fortemente de petróleo para atender à demanda dos setores elétrico e de transportes, tanto em países desenvolvidos quanto em desenvolvimento.

“Dada a importância da energia, não é de se admirar que governos procurem proteger sua acessibilidade e disponibildiade para as populações em crescimento”, escreveu a empresa em seu relatório de administração de riscos. “Também é compreensível que quaisquer restrições sobre a produção energética que reduzam sua acessibilidade, dependabilidade ou disponibilidade se tornem preocupações reais para consumidores que dependem dela”.

Além disso, de acordo com a empresa, “uma limitação de combustíveis baseados em carbono provavelmente prejudicaria populações com menor desenvolvimento econômico, que precisam de energia acessível, confíavel e disponível”. 

A visão da Exxon Mobil a respeito das regulações de CO2 – especificamente limites de emissões, que exigiriam uma redução de 80% em emissões de carbono até 2040 – decorre de a empresa acreditar que essas limitações fariam a energia se tornar financeiramente inacessível para a maioria das famílias, e que grande parte do custo de um “cenário de baixo carbono” recairia sobre as classes média e baixa do mundo.

Reduzir emissões por meio da eficiência energética

A respeito de seu portifólio multibilionário de operações de perfuração, refinarias e oleodutos, a Exxon Mobil declarou que “[o portifólio] aborda o risco da mudança climática de várias maneiras concretas e significativas”, incluindo medidas de eficiência energética, a utilização de tecnologias com menor intensidade de carbono em suas instalações e até mesmo o desenvolvimento de produtos que ajudam consumidores a usar energia com mais eficiência.

A empresa declarou, por exemplo, que “avanços na tecnologia de revestimentos de pneus desenvolvida pela Exxon Mobil permitem que motoristas economizem combustível. Nossos lubrificantes sintéticos também melhoram a eficiência do motor do veículo. E plásticos mais leves desenvolvidos pela Exxon Mobil reduzem o peso de veículos, contribuindo ainda mais para a melhor eficiência do combustível”.

A Exxon Mobil também destacou seu status como principal produtora de gás natural dos Estados Unidos, apontando que o gás emite significativamente menos CO2 que o carvão quando queimado para gerar eletricidade. E que a empresa continua a conduzir pesquisas sobre combustíveis e tecnologias alternativas que possam reduzir a intensidade carbônica de aplicações energéticas em vários setores, incluindo a produção e o transporte de eletricidade.

A Exxon Mobil também adotou um preço simulado para o carbono, em alguns casos de até US$80 por tonelada de CO2, para se proteger contra futuras regulações governamentais e ajudar a guiar as decisões da empresa para investimentos em infraestrutura e outros gastos de capital.

E ainda que espere novas regulamentações governamentais sobre gases estufa no futuro, a empresa acredita que “uma redução artificial de combustíveis baseados em carbono para níveis do ‘cenário de baixo carbono’ é altamente improvável”.

“De maneira semelhante às previsões de outros analistas independentes, nossa avaliação prevê um mundo com populações em crescimento, economias em expansão, padrões de vida em processo de melhoria e, como resultado, demandas energéticas maiores”, declarou a empresa. “Para atender demandas deste cenário serão necessárias todas as fontes econômicas de energia, especialmente petróleo e gás natural”.

Mas críticos como Fugere apontam que a Exxon Mobil pode estar esquecendo o quadro geral, especialmente diante das descobertas mais recentes do Painel Intergovernamental sobre a Mudança Climática, que sustentam que o planeta já está testemunhando as duras realidades da mudança climática e que as condições vão piorar a menos que algo seja feito rapidamente para reduzir as concentrações de gases estufa.

“A Exxon Mobil reconheceu os riscos significativos que a mudança climática oferece a seus negócios, a probabilidade de um preço sobre o carbono, e a necessidade cada vez maior de abordar a mudança climática – e mesmo assim a empresa ainda acha que um cenário de baixo carbono é improvável”, comentou Andrew Logan, diretor de programas de petróleo e gás do grupo de defesa do investidores Ceres. “Investidores discordam, e continuarão a exigir que a Exxon Mobil alinhe seu planejamento a essa realidade”.

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sciambr3abr2014