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02 de fevereiro de 2011
Fêmeas de tentilhões-australianos sofrem “conflito interno” com a escolha do macho
De acordo com nova pesquisa, fêmeas de tentilhões-australianos (Erythrura gouldiae) são mais lentas na postura dos ovos quando não encontram o par ideal
por Bruno Francheschi Troiano
Wikimedia Commons / Nigel Jacques
Fêmeas estão sempre à procura de um macho que possa lhes proporcionar uma prole mais forte e saudável – isso ocorre com todos os animais e é uma das bases da seleção natural proposta pelo naturalista Charles Darwin.

De acordo com uma nova pesquisa publicada no Proceedings of the Royal Society B: Biological Sciences, fêmeas de tentilhões-australianos (Erythrura gouldiae) são lentas na postura dos ovos e acabam fisiologicamente mais estressadas quando não encontram o par ideal.

Estamos acostumados a pensar que animais monogâmicos estão 100% satisfeitos com seus parceiros. Acreditamos nisso devido à crença em que animais agem, única e exclusivamente, por instinto. Isso equivaleria a dizer que uma pessoa bonita se relacionará apenas com outra tão bonita quanto. Os pesquisadores do estudo apontam que no “mundo” animal – como no “mundo” humano – muitas vezes o par ideal não é encontrado e as aves têm de se contentar com um par inferior.

Duas vezes ao ano, os tentilhões-australianos buscam o par ideal. Os machos devem mostrar suas belas penas coloridas da cabeça (amarelas ou pretas), indicando às fêmeas sua capacidade de gerar uma boa prole. A elas cabe a importante decisão de escolher qual dos machos é o mais forte e saudável. “A taxa de mortalidade da prole de casais malformados é até 80% superior”, explica o autor do estudo, Simon Griffith, do departamento de biologia da Macquarie University.

Para avaliarem o impacto da decisão da fêmea, Griffith e sua equipe mediram o “grau de satisfação” da escolha das aves. Para isso, os pesquisadores monitoraram casais em gaiolas. As fêmeas que escolheram o macho com cor das penas da cabeça diferente da sua eram mais lentas na postura dos ovos e tinham níveis quatro vezes mais altos de estresse que fêmeas que escolheram um macho com a mesma cor de pena.

Os pesquisadores sugerem que essas aves revelaram certo nível de "conflito interno". "As fêmeas estão extraindo o melhor de uma situação ruim e mostram-se descontentes com seus parceiros”, explica Griffith.

Até quando vamos acreditar que somos totalmente diferentes e superiores aos animais “irracionais”? Devemos olhar de outro modo para a Natureza e assim aprender com seus mistérios ─ afinal de contas, somos todos parte de um todo.
Bruno Francheschi Troiano Bruno Francheschi Troiano, biólogo, é colaborador de Scientific American Brasil
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