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Ferrugem do café ameaça a safra na América Central

Pesquisadores reunem tecnologia para deter o pior surto da história

Daniel Cressey e revista Nature
VladKol/shutterstock
Onde tem café, tem “ferrugem do cafeeiro”. Mas o longo impasse entre plantadores e o fungo por trás da devastadora doença acabou – e o fungo levou vantagem. Enquanto um dos mais severos surtos da história corre pela América Central, pesquisadores estão procurando as últimas ferramentas para combater a praga, de sequenciamento genético a cruzamento entre plantas de café com resistência,

Provocada pelo fungo Hemileia vastatrix, a ferrugem do café geralmente não mata as plantas, mas o Instituto de Café da Costa Rica estima que o último surto pode reduzir pela metade a colheita de 2013-2014 nas áreas mais afetadas da nação. Esse surto é “o pior que já vimos na América Central e no México desde que a ferrugem apareceu” na região há mais de 50 anos, declara John Varndermeer, ecólogo da University of Michigan em Ann Arbor, que recebeu “relatos da devastação na Nicarágua, em El Salvador e no México”.

Em sua estação de pesquisa no México, Vandermeer explica que a situação é tão ruim que as folhas estão simplesmente caindo das plantas. Mais de 60% das árvores tem pelo menos 80% de desfolhamento, e 30% não tem nenhuma folha.

Em 22 de janeiro, a Costa Rica propôs legislação de emergência para acelerar o fluxo de dinheiro do governo na luta contra o fungo. Outras nações também estão lutando. Na última semana, o governo da Nicarágua declarou que incluiria a ferrugem do café em uma lista especial de projetos de pesquisa destinados a salvaguardar a agricultura do país.

O fungo emergiu pela primeira vez como problema significativo em 1869 no Ceilão – atualmente Sri Lanka – antes de se espalhar pelo mundo. Stuart McCook, historiador da University of Guelph, no Canadá que estuda a ferrugem, observa que o clima úmido em algumas áreas do Ceilão foi ideal para a disseminação do fungo e que mais de 90% das plantações de café foram destruídas nessas regiões. Diante de uma catástrofe econômica, o país abandonou o café em nome do chá com o qual é associado atualmente. A doença é tão universal que “não será erradicada; ou a única maneira de erradicar essa doença na prática é erradicar todo o café”, lamente McCook.

Em 1970, o fungo foi detectado no Brasil, e vários surtos foram vistos na Costa Rica em 1980, e na Nicarágua em 1995, aponta Jacques Avelino, patologista de plantas do Centro de Pesquisa Tropical Agrícola e Educação Superior da Costa Rica, com sede em San José.

Mudanças em práticas administrativas colocaram a maior parte da doença sob controle. “A ferrugem do café era considerada um problema resolvido pela maioria dos cultivadores de café e institutos cafezeiros da região”, conta Avelino. “As pessoas não temiam a doença”. O surto pode ter acontecido devido ao uso limitado e eficácia de fungicidas.

Na África, Noah Phiri, patologista de plantas trabalhando em Nairóbi para a ONG de desenvolvimento CABI, lembra que a ferrugem vem causando problemas cada vez maiores apesar de, no Quênia, variedades resistentes mantiveram-se sadias.

A Colômbia poderia estar mais perto de uma solução. Marco Aurelio Cristancho, pesquisador do Cenicafé, o Centro Nacional para Investigação do Café em Chinchiná, explica que o governo apóia a pesquisa e o desenvolvimento de versões resistentes do café por cruzamento.

De acordo com Cristancho, a introdução de versões resistentes, somada a um melhor monitoramente climático para ajudar a prever surtos de ferrugem, significou que menos de 10% das plantas agora precisam ser tratadas com fungicidas, em relação aos 60% de quatro anos atrás. O governo também apoia o trabalho tanto com a genética do fungo quanto da planta.

Programas de pesquisa também foram iniciados em outros países.

Na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, no Brasil, Valdir Diola está trabalhando para isolar genes resistentes do café e encontrar marcadores moleculares que façam a distinção entre diferentes cepas do patógeno. O resultado poderia ser usado para desenvolver estratégias específicas para seu controle.

No Reino Unido, Harry Evans está trabalho com o genoma do H. vastatrix no CABI, em Egham.

Em Nairóbi, Phiri está usando dinheiro da agência governamental Common Fund for Commodities, bem como do Quênia, da Índia, de Ruanda, Uganda e do Zimbábue, para procurar plantas de café resistentes e analisar variedades do patógeno.          

“Cientistas precisam desenvolver variedades resistentes continuamente para evitar a doença da ferrugem do café”, observa Phiri. “Governos e países cafezeiros precisam tomar a pesquisa do café como prioridade e fornecer os recursos necessários”.

Cristancho acredita que outras nações precisem adotar uma abordagem integrada semelhante à da Colômbia. “Infelizmente esse esforço não está sendo seguido por outras regiões do mundo, onde é necessário fornecer soluções locais para a epidemia”, declara ele.

Este artigo foi reproduzido com permissão da revista Nature. O artigo foi publicado pela primeira vez em 29 de janeiro de 2013.