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Ficar Estressado Piora Tudo

O estresse agudo pode ser motivador, mas o crônico gera desânimo.

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Animais não lidam bem com o estresse. Não estou falando de estressantes agudos, como o predador correndo até você – nesse caso você foge e acabou. De fato, nós lidamos muito bem com esse tipo estresse. Mas o estresse severo – a perda de um emprego, um divórcio, uma morte na família – esse com certeza acaba conosco. Vários estressantes da vida podem impactar sua saúde física, mas não é só isso: eles também ocorrem frequentemente antes do surgimento de doenças mentais, particularmente o transtorno depressivo maior.

A depressão assume muitas formas (falta de interesse em atividades, mudanças no padrão de sono, mudanças alimentares, humor severamente deprimido), mas uma das mais debilitantes é a maneira como ela afeta a motivação. Enquanto alguns estressantes (um prazo, por exemplo) podem ter sido motivadores, fazendo você trabalhar para terminar seu trabalho, durante a depressão esses estressantes se tornam obstáculos intransponíveis. Coisas que você fazia antes e que você não tem a menor possibilidade de fazer agora. Você nunca vai conseguir no prazo. Você não pode chegar lá. O estresse não consegue mais motivá-lo. O que mudou?

Para investigar isso, Lemos et al da University of Washington, Seattle, observou um dos sinais de resposta do cérebro ao estresse: o fator liberador de corticotropina (CRF, em inglês). O CRF é o primeiro passo no processo que acaba permitindo que o cortisol, a molécula que normalmente associamos ao estresse, seja liberado na corrente sanguínea.

No topo da cadeia há CRF sendo liberado pelo hipotálamo. A partir daí o próximo passo na cadeia é a pituitária anterior; em seguida o hormônio liberador adrenocorticotrópico (ACTH) é liberado e estimula as glândulas adrenais (localizadas em pequenos depósitos de gordura sobre seus rins) para liberar cortisol. Mas no cérebro é mais complicado que isso. O CRF não é liberado apenas do hipotálamo para a pituitária, mas para outras regiões também.

Lemos et al queriam observar especialmente o núcleo acumbente (NAc). Essa é uma área do cérebro que nós normalmente associamos a coisas como o vício em drogas, mas o núcleo acumbente é associado às propriedades motivacionais de muitas coisas, da cocaína ao sexo ao... estresse?

É isso mesmo, o estresse pode ser muito motivador no acumbente. Lemos et al mostraram que isso se deve ao CRF. A liberação do CRF se projeta para o acumbente, e há receptores para ele por lá (os receptores CRF1 e CRF2). Isso pode parecer pouco criativo, mas acredite: você nunca se lembraria deles se seus nomes se fossem coisas como “O motivador”). E eles mostraram que quando você adiciona CRF ao núcleo acumbente, você consegue aumentos na dopamina, um mensageiro químico associado com recompensa e motivação.

Na voltametria, usa-se um eletrodo muito espesso de fibra de carbono, encerrado em vidro, e inserido em um cérebro (ou em uma fatia de cérebro). Quando você aplica um potencial elétrico em algum lugar do cérebro, ou da fatia, a dopamina será liberada e a fibra de carbono permitirá que ela, muito brevemente, se oxide. E cientistas conseguem detectar esse sinal, e produzir mapas térmicos onde o roxo mais escuro, por exemplo, é o sinal da dopamina. Usando isso, é possível quantificar a dopamina que você tem.

E você pode ver que aumentar o CRF também aumenta a dopamina na fatia de cérebro. Normalmente vê-se a dopamina como uma boa pista para verificar se alguma coisa é motivadora. Quanto mais dopamina, mais motivador. Mas para realmente descobrir se o CRF é motivador, você precisa executar uma tarefa comportamental. 

Os pesquisadores usaram uma tarefa chamada de preferência condicionada por lugar. Você deixa um animal (nesse caso, um rato) escolher entre dois compartimentos. Primeiro, eles são basicamente iguais. Mas então você injeta uma solução salina no rato e o coloca em um dos compartimentos. Depois você injeta CRF e o coloca no outro. Repita isso por vários dias, até que o rato aprenda a associar aquele lado com a “sensação” do CRF. Então você o coloca entre os dois compartimentos, sem nada, e vê que lado ele prefere. Se ele “preferir” a sensação do CRF em vez da sensação da solução salina, ele passará mais tempo no compartimento associado ao CRF.  

Com uma única dose de CRF, o rato prefere o compartimento associado ao CRF. O CRF, e o estresse agudo, são motivadores sob essas condições. 

Mas e o estresse crônico? Lemos et al expuseram os ratos a um estresse severo. Esse estresse foi uma tarefa de natação de dois dias. No primeiro dia eles nadaram 15 minutos e, no segundo dia, eles nadaram durante sessões de seis minutos, com intervalos de seis minutos entre cada sessão. Ratos nadam muito bem e isso não é perigoso, mas ainda assim é muito estressante. Em seguida os autores verificaram como a dopamina no acumbente, e a preferência condicionada por lugar, respondiam.

O que eles descobriram é o exato OPOSTO da resposta ao estresse agudo. Quando animais receberam CRF agudo, os pesquisadores observaram um aumento no sinal da dopamina. Mas depois de um estresse crônico não houve alteração nenhuma. E quando eles observaram como os ratos respondiam comportamentalmente, eles descobriram uma resposta totalmente oposta. Enquanto animais mostravam preferência por lugar com uma única injeção de CRF, depois do estresse crônico o CRF era muito aversivo. Os autores conseguiram mostrar que o estresse severo pode MUDAR a forma com que ratos (e possivelmente humanos) respondem ao estresse, fazendo um sinal anteriormente motivador se tornar altamente aversivo.

Como isso acontece? Bom, isso é incerto, apesar de parecer que o feedback de receptores de glucocorticoides (os receptores que respondem ao cortisol, o químico do estresse no fim das contas) pode desempenhar um papel. Mas é incrível ver como o estresse severo poderia mudar a maneira como respondemos ao estresse no futuro, e como ele pode transformar o estresse futuro em um problema muito mais difícil de enfrentar. 

Lemos JC, Wanat MJ, Smith JS, Reyes BA, Hollon NG, Van Bockstaele EJ, Chavkin C, & Phillips PE (2012). Severe stress switches CRF action in the nucleus accumbens from appetitive to aversive. Nature, 490 (7420), 402-6 PMID: 22992525

 
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