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Fígados super-resfriados duram dias

Resultados tende a ampliar a disponibilidade para transplante de órgãos humanos

Wally Reeves/Korkut Uygun/Martin Yarmush/Harvard University
Ratos com transplantes de fígados super-resfriados, vistos aqui em uma solução de preservação em um sistema mecânico de perfusão, sobreviveram durante pelo menos três meses (amplie).

 
Por Sara Reardon e revista Nature

Quando um órgão de doador humano se torna disponível, cirurgiões especializados têm apenas cerca de 12 horas para coletar e transplantar o tecido antes que ele comece a decair.

Um método de resfriamento lento, porém, primeiro gela fígados de ratos a seguir reduz a temperatura para abaixo do ponto de congelamento, permite armazená-los em um estado “super-resfriado” os mantêm frescos por três dias.

Se a técnica funcionar com órgãos humanos ela pode aumentar drasticamente o número de órgãos disponíveis para transplantes. 

Pesquisadores vêm tentando há décadas congelar órgãos para conseguir mais tempo para transportá-los e combiná-los com seus possíveis receptores. O processo de congelamento e descongelamento, no entanto, danifica células de modo irreversível, especialmente quando se formam cristais de gelo em seu interior. Agora, o engenheiro médico Korkut Uygun, do Massachusetts General Hospital, em Boston, e seus colaboradores desenvolveram um método que pretende pular de vez a fase de formação de gelo durante o congelamento.

Primeiro, a equipe banhou fígados de ratos com oxigênio e uma combinação de substâncias químicas geladas, inclusive um composto semelhante à glicose, chamado 3-O-metil-d-glicose, que protege as células do congelamento. Esse processo  resfriou  lentamente os fígados a 4° C. Depois disso, os cientistas armazenaram e preservaram os órgãos a -6° C sem congelá-los.

Três dias depois, a equipe reverteu o processo ao aquecer os fígados armazenados gradualmente de volta à temperatura corporal e os transplantaram em ratos. Todos os animais que receberam fígados super-resfriados sobreviveram durante pelo menos três meses, ao passo que todos os ratos receptores de fígados de três dias, preservados por meio de técnicas atuais, morreram. A pesquisa foi divulgada on-line em 30 de junho no site da Nature Medicine.

De acordo com Uygun, com alguns ajustes, como acertar a taxa de resfriamento, o método deverá evoluir para órgãos maiores, incluindo humanos, e não seria limitado a fígados. “Todos os órgãos são válidos”, observou.

Como o FDA, o órgão do governo americano que controla alimentos e medicamentos, já aprovou a maior parte dos componentes químicos da técnica para aplicação em humanos, Uygun espera iniciar testes clínicos dentro de dois a três anos depois de ensaios em animais maiores.

O método de preservação pode permitir que pesquisadores resgatem órgãos que de outra forma seriam descartados. De acordo com algumas estimativas, isso poderia disponibilizar pelo menos mais 5.000 órgãos adicionais por ano para pacientes. Além isso, médicos teriam a opção de enviar órgãos para muito mais longe, inclusive para outros países, para pessoas que aguardam um transplante.

“Considero isso um avanço notável”, elogia o criobiólogo Gregory Fahy, principal autoridade científica na empresa de criopreservação 21st Century Medicine, em Fontana, na Califórnia. Mas ele adverte que várias questões ainda precisam ser resolvidas; por exemplo, fortes solavancos dos órgãos super-resfriados durante o transporte poderiam fazer com que eles congelem ao perturbarem seus estados constantes de temperatura suspensa. Além disso, órgãos grandes podem ser mais difíceis de resfriar uniformemente.

De todo modo, o potencial é muito grande. Fahy acredita que o último grande avanço em preservação de órgãos, a criação de uma solução química chamada UW (em homenagem à University of Wisconsin, onde foi desenvolvida), na década de 80, contribuiu para um grande aumento no número de transplantes. “Prevejo que algo semelhante àquilo acontecerá aqui”, resume ele.

Este artigo é reproduzido com permissão e foi originalmente publicado em 29 de junho de 2014. 

Sciam 30 de junho de 2014